Tuesday, November 26, 2019

Cegueira

Despertei com o sol e abri meu peito bem aberto pro dia que não volta mais, pulei da cama com sede de mundo e saí de bicicleta e headphone por rota que as pernas definem na medida que movem. Não demorou me deparei com o marrom da lagoa poluída, com o lixo transbordante das encostas do vidigal, com o esgoto vazando praia de São Conrado a dentro, com o triste desabamento da linda murada vermelha do antigo VIPs, vi isso tudo, vi bem, mas vi também o céu se abrindo em todo seu azul e beijando aos poucos a superfície do mar, e o mar brincando entre os verdes hora escuro hora claro enquanto as cristas de ondas gigantes formavam flocos de neve ao vento, vi o casal não dormido ainda rolando pela areia às gargalhadas, vi as senhoras da zumba rebolando sincronizadas no deck velho do kioske, vi atletas determinados e outros mais para lesados mas todos ali vestindo o uniforme dos seus baratos, vi a coreografia dos patos migratórios, ouvi a música dos pássaros da mata tão verde que até chuva caiu só ali beirando a encosta. E se o pior cego é aquele que não quer ver, eu quero ver, eu vejo até em demasiado tudo tanto, mas escolho absorver o que tem de mais belo nas coisas mais lindas do mundo, porque frente à uma realidade tão trágica quiçá só um peito feliz pode mudar o mundo

Tuesday, November 05, 2019

JB

Eu e minhas duas bolsas cheias de laranja lima e maracujá saímos do mercadinho do bairro já disfarçando a curiosidade narrativa de entender cada homem do grupo de coroas que tende a morar no banquinho de madeira no entorno da árvore da esquina - eles bebem, eles fumam, eles jogam damas e não sei mais o que, e de vez em quando eles parecem rir, sempre tenho a sensação de que eles acordam e vão para lá. A perna vai me levando para casa e ao fazer a curva em direção à praça sou atropelada pelo cheiro avassalador do mijo dos mil e um cachorros que moram no bairro, prendo brevemente a respiração e sigo atravessando a coroa de árvores com seus túneis de folhas verdes enquanto ouço a flauta vinda de um apartamento de fundos do prédio azul de dois andares, cheiro de maconha ruim. Uma barata perdida passa escorada na parede e eu me faço invisível por dois segundos até ter que pular um cocô esquecido por algum dono delinquente dos tais mil e um cachorros da vizinhança. Mais vinte passos e ouço o “ohm” em uníssono da aula de yoga na casa branca. Um casal ri alto e brinda de algum apartamento do outro lado da rua, a calçada estreita me faz ter que desviar de um pai e seu carrinho de bebê. Mais dez passos e jazz, muito jazz se esparrama de uma janela baixa logo se misturando a uma aparente mini-rave no segundo andar do prédio laranja, cheiro de maconha boa. Um homem sai todo emperequetado em seus trajes de corrida em direção à Lagoa, ele canta alto fragmentos de uma música que não deu tempo de entender. Um vizinho faz lições de piano e os gritinhos da criançada na praça entra em melodia com a música. Pareço ouvir um casal transando, quiça um trio até, tento ouvir melhor mas não, devo estar viajando. Já passa das 19hrs e tenho que subir a escadaria pois a neurose burguesa bloqueia com cadeado a entrada da praça para o meu prédio durante a noite, meus vizinhos tem medo dos próprios medos. Cinco adolescentes fumam maconha às gargalhadas na parte baixa da escada. Vou subindo e passo por um casal fumando maconha aos beijos no lance médio da escadaria, ô bairro para ter maconheiro... subo e subo mais e um vestido esvoaçante dançando pelas pernas de uma mulher que desce sem pressa invade o quadro da minha visão. Chego no meu portão, abro o vitral e volto para minha bolhinha. 50 metros de Jardim Botânico.

Sunday, October 13, 2019

Búzios

Ao fundo jazz, solo de sax, o vento passeia dentre o verde da era esparramada muro abaixo, cheiro de colorjet, quando em vez ouço o chacoalho da lata do Smael pintando suas telas na sala, duas, três de uma vez, a rede move lentamente e o peixinho de pano mostra os caminhos do vento num sobe e desce com o ar, um tudo de azul e amarelo paira por todos os cantos do olhar e ainda assim a grama cheira forte um verde mais claro que o da era do muro cinza. A casa dança no balanço das árvores e lá no fundo ainda tem o mar, as ondas, barulho constante de água contra areia. As crianças levantaram a bola ali do lado, vez em quando vejo ela cortando o céu em seu laranja-choque, ouço o bater dela em coxas, peitos, cabeças. O dia passa lento, é domingo com gosto de dezembro, janeiro, férias de verão. 

Saturday, September 14, 2019

Felicidade

Comer bem

Fazer exercício prazeroso - surf, pedalada, yoga, altinha, corrida, acroyoga

Ver bons filmes

Me sentir demandada, reconhecida e realizada no trabalho 

Conversas profundas

Beijo na boca/amor/transa 

Carinho

Abraço apertado e inteiro mas só em certas pessoas pq nem toda energia é bem-vinda 

Sorrir para pessoas que compartilham qualquer coisa comigo, do caixa a algum fodão-blábláblá 

Ficar em silêncio na minha 

Cuidar de mim

Banho longo, quente e cheiroso

Dormir bem

Andar de mãos dadas

Encontrar meus amigos

Dar gargalhada

Dançar

Cantar

Brincar 

Vestir uma roupa que eu me sinta super hiper eu (estranhamente deveria acontecer todo dia o tempo todo mas aquela roupa que te põe lá encima não é tão frívolo 

Cuidar das plantas

Mergulhar no dia com carinho pq ele não volta nunca mais

Sentir a natureza, a temperatura do dia, as cores do céu, as correntes de vento no corpo ao ar livre, a velocidade das nuvens movendo

Ver para onde move o céu 

Lua cheia

Dia azul

Mar quente

Encontrar meu pai

Encontrar Bruno, Eva e Bia

Encontrar minha mãe 

Bom humor 

Wednesday, June 12, 2019

Pouco Muito

Quero crescer para caber melhor nas coisas grandes, quero ser grande, quero ser tudo que posso e mais um pouco sem pouco. Não quero tanto tudo, só quero muito tudo que posso com tudo que tenho. Quero ter o meu tamanho todo, inteiro, pleno, sem desperdício do eu, de mim, de tantos tantos que tenho nesse toco de gente que eu caibo dentro. Mas cabe tanto aqui dentro que fico achando que o que mais vale é justamente ser um tanto de cada tanto de mim que tenho. Não quero ser mais que do outro, o que esperam de mim nem nada disso, só quero ser tudo que posso, além do que já sou, porque nessa coisa de crescer por dentro, sinto que cabe sempre mais um pouco. 

Friday, September 28, 2018

Mundial

Esse ano não competi, perdeu a graça, valeu muito mais entrar no mar com um bando de amigos, sem objetivo maior do que me divertir. Quando comecei a pegar onda de peito entrei numa de descobrir meus limites, precisava me jogar no mar mais selvagem, conquistar ressaca e vencer onda grande, aprender manobras, dropar os buracos mais cavernosos, cair em todas as lajes cariocas, dominar picos difíceis e desafiar meus próprios limites, e lá fui eu. Até que descobri a batalha que me vale, “basta a quem basta o que lhe basta...”, já dizia F. Pessoa, e pronto, deu. O destino me ajudou nessa virada da psicopatia para maturidade - por sorte tive que parar por quatro meses, à contragosto, e voltei cautelosa: bateu foi medo de osso quebrado e articulação torcida, deu receio com laje de pedra, coral e areia rasa demais, baixou uma cautela danada de enfrentar o desnecessário quando a recompensa nem compensa e passei a medir melhor o risco. Fui tomada pelo potencial da sequela, e quiçá ouso dizer sem demérito dos corajosos, ganhei a maldita maturidade da consequência e, te digo upfront, não tem volta - agora penso à frente em demasiado. Amo o mar, quero cair, me jogar, sonho com ressaca e gosto de mar que assusta, mas lá no fundo no fundo, no secreto do meu íntimo cada dia mais exposto, eu quero mesmo é onda amigável daquelas que abrem e mostram o trilho, prefiro curtir a rota longa do que fazer manobra na pressão, prefiro chegar até areia na intermediária do que fazer um drop radical no quebra-coco, prefiro me divertir do que impressionar. E de repente foi isso, não sei se com mais ou menos orgulho, acho que alcancei maturidade aquática e virei adulta – até um certo e mínimo ponto, fora d’água  continuo a mesma criança curiosa.

Thursday, September 13, 2018

É Sempre Bom Lembrar...

Quatro gaivotas planaram rente à espuma do mar mexido, ele olhou para o vasto e sentiu a imensidão. Andava engasgado, juntando os cacos, transbordando aos poucos bocejo travado que não deixava o nó no peito desapertar - mas tá melhorando, dizia ele, falta cada vez menos para dissipar. Talvez em pouco tempo bastasse um soluço para destravar de vez, sacudir a poeira e pegar no tranco. Talvez não. Sonhava com cautela passo largo de perna que acostumara a ser preguiçosa. Mas era mais, era forte, elástico, força bruta em corpo compacto e flexível, explosão e tormento, ternura e suavidade. E a mente inquieta pairava em mil poesias dos tantos detalhes de flores, folhas, rachaduras em rochas e todo o azul que o mar resplandece. Tinha dor de homem menino e encantamento de menino homem. Era de sal, de terra, sólido, raiz de tronco largo de seiva doce, pérola em concha, ouro raro em rio escuro, era um bando de coisa linda mas se disfarçava de areia fina e achava que passava transparência. Vinha cavando esse buraco em movediça fazia tempo, mas volta e meia vinha a maré cheia, enchia o copo de mar e o vazio ficava pleno pelo breve vagar daquele instante, e ele afinal entendia que era completo. Nesses dias via no espelho embaçado do banheiro o brilho lá no fundo do olho e lembrava de tudo, de quem era, do que queria, da força que tinha. Era grande. 

Thursday, September 06, 2018

Botafogo

Chovia fino em Botafogo no fim da consulta, eu não tinha pressa mas quis me molhar. Passantes se protegiam debaixo de marquises, jornais, echarpes e capuzes. Acima das cabeças andantes eu assistia uma dança de cores em formato de guarda-chuvas, redomas de mundo como um fone de ouvido que te separa do todo e forma bolha. Não queria bolha, sorria baixinho pensando no meu pai andando comigo de mão dada pelo Leblon debaixo de chuva sempre bradando “eu lá sou de açúcar.” Caminhava assistida pelos olhos secos de quem se protege. A chuva mal molhava, não era pingo grosso, mas a constância assustava quem não deixava que a gota contasse a secura que tinha. E passo a passo eu olhava os rostos que se deixavam ver, me encaminhava pro metrô pensando nos mundos dentro de cada um, cada sonho, cada anseio, cada escuridão que mora ali dentro e seguia meu caminho. E nas quintas-feiras vou para Botafogo de metrô sem telefone, headphone nem guarda-chuva, animada com essa crônica constante que é reparar em humanos em seu habitat. Você já olhou à fundo para quem cruza seu caminho?

Monday, August 27, 2018

Desafeto

O beijo era macio algodão mas tinha muito não 
A transa era loca mas poca
Abraço quase ia mas parava antes do aperto
Dava a mão sem fazer muita questão
Concha, meu artigo favorito, tinha rarefeito

E segredo doce contado em sussurro 
Olho no olho tão perto até virar três, quatro
Noite varada em transa longa e música lenta  
Aquela história de se olhar lá no fundo e falar como é bom, lindo e maravilhoso viver esse amor
Tinha isso não

Aliás de meu amor nunca me chamou 
Nem de linda tinha o hábito 
Dançava agarrado só se bêbado
E o sorriso ao me ver, via não 

No fim já não perguntava mais como foi meu dia
Não dava presente de aniversário que o diga rosa de namorados 
Nem me olhava daquele jeito assim com detalhe 
Pulava da cama com pressa mesmo em domingo e evitava conversa
Corria do contato, do desejo, do afeto que fosse

E dizia sentir um grande amor 
Eu confiava
Mas onde ficava o amor, guardado aonde, para quando? 

Procurei em tudo que é canto 
Tentei de tudo
Esperei mais do que podia
Chegou não 
Liberei meu coração 


Thursday, August 16, 2018

Venho Sendo

Nem sempre acordo disposta. Cada dia faço o que posso. Volta e meia me deparo com minha própria cara e me assusto. Sofro com minhas questões, a tal da retenção de líquido - o que eu como reflete no meu rosto no dia seguinte, e dependendo do que for, shoyo, carboidrato, sal... desgosto total, mas tudo bem, trabalhamos com o que temos. Acordo feliz a não ser que algo grave aconteça mas nem sempre disposta. Tantas vezes me movo à contragosto, sei que preciso de mim para me mover para frente. Me aviso logo cedo que preciso sair por aí e o dia vai raiando e a urgência crescendo e vou fazendo um movimento avesso de criar o momento, me visto, top, legging/short, maiô, pé de pato, neoprene, vou fazendo os braços me vestirem pronta para toda e qualquer ocasião e, por um desgosto para com o planejado, saio por aí deixando ao gosto o que der na telha. Acaba que pedalo quando acho que vou nadar no mar, surfo quando saio para pedalar, corro na areia quando acho que quero mais é surfar, não tenho compromisso se não com a liberdade do desejo. Não marco tempo. Não sei até aonde vou ou fui, não tenho metas. Quero só começar o dia bem seja com o que eu puder me dar. Sei da diferença entre os cento e oitenta graus de céu azul versus as paredes brancas do meu apartamento, sei do barulho do vento no mar versus a vista da janela, e assim me jogo cedo no mundo nesse cada um dia que não volta nunca mais. E eu não volto nunca mais. Então que eu seja, e seja muito, muitas coisas. Venho sendo.

Wednesday, July 25, 2018

Recomeço

Dividida entre a vontade de começar de novo e a falta de vontade de qualquer coisa. Entre o ímpeto e a paralisia. Entre o ontem e o hoje porque amanhã peço que seja outro, diferente, outro dia, outro começo. Entre o amor e o desapego. Entre ir e deixar para trás. E bate uma tristeza danada, uma vontade de chorar, uma falta que faz o que tanta angústia trazia. Esse desencontro constante dentro de um encontro que meio que nunca começou por uma parte, ele ali, travado, cerceado em cimento enquanto meu rio corria, lhe atravessava tão pouco molhando suas margens. E o rio tentou, mas passou desperdiçado e aqui eu desaguo, não seco, perder a ternura jamais. E tem dia que um vazio rasga o peito ao meio, vai cortando com um pequeno alicate ao longo do dia até rachar por inteiro o torso, torço para ficar para trás mas a coisa volta, assombra os sonhos, vem em memória perdida e um bando de sensor que acha resquício por onde anda, tato, olfato, escuta, você vive aparecendo por aqui. Mas vai embora logo, por favor, você que me trouxe tanta dor e aperto, você que tanto rasurou o que mais importava, eu te importando pro peito e você sem exportar nada, guardando tudo a sete chaves num poço de desconçolo. Que cansaço, fico exausta só de lembrar, de ressentir essa memória amarga de me sentir invisível. Chega.

Thursday, June 28, 2018

Medo do Mar

Voltei pro mar. Mal o olho abria e já corria para previsão no telefone. Fazia quatro meses que não me jogava e já da esquina de prédios ouvi o tremor da areia- fim de ressaca, paredes grandes de ondas gordas. Do calçadão, balancei meu eixo. Avistei os amigos lá no fundo do Pontão e quis muito cair, mas a situação estava bem na linha vermelha do medo dentro do meu contexto. Pensei duas vezes, três, e fui passo anti-passo pelas próximas etapas: prendi a bicicleta me convencendo a ir até a areia, me despi ressabiada retardando o ato, guardei os pertences na turma do funcional já sentindo que ia voltar para pegar antes do previsto, e segui relutante rumo ao desejo. Já na beira, dois surfistas se encorajavam com pulinhos, bora, bora. Lá dentro dois de prancha e quatro de peito. O mar quebrava forte, séries grandes e lá pro fundo. “No way, Jose”, mas os amigos me viram lá de dentro e o chamado animado deles me quebrou. Já tem quatro meses. Molha os pés. A água estava clara e fresca e os dois surfistas tinham entrado rápido no entre série. Entra, mulher, não precisa pegar onda, só de estar nesse mar já vale o tanto. Me aqueci com meus cinquenta polichinelos ainda sem certeza, coração bombando no peito vai não vai. Ando precisando me sentir forte. A série terminou e os meninos começaram de novo a indicar com os braços que era o momento certo de eu entrar. Vai. Eu aguento esse mar. Suspirei fundo, busquei meu fôlego mais profundo e fui, mar adentro. Entrei na hora certa, sem maiores traumas. Celebramos as ondas, o dia, rimos e tal, mas logo a calma do silêncio marinho se instaurou e lembrei de assistir duas gaivotas voando baixo rente à superfície. O vento terral soprava a crista de cada onda no contraluz formando trezentos e sessenta graus de arco-íris no olho nu. Parede depois de parede pesada de água verde escura atravessava meu corpo como montanhas em movimento. E vinha a revolta da série e a seguinte calmaria da espera, as mil e uma correntes frias e quentes que tantas vezes tocavam simultaneamente diferentes pedaços do meu corpo aquático, o céu mais azul que o azul, o sol com o filtro suave do inverno ameno, e fiquei ali, lembrando da simplicidade do que faz feliz.

Re-Sentir

Não alimento mágoa, não guardo rancor, acho orgulho desperdício de tempo, vaidade. Assumo erro, peço perdão, acredito em desculpar. Busco mudar, seguir adiante compondo, agregando no que dá. Tenho meus tantos defeitos e procuro destrinchar um a um, achar o cerne, desatar nó e passar pro próximo. Não estou pronta, não estou certa, não sou definitiva. Busco caminhos, não verdades. Gosto de gente, de conhecer a fundo mesmo que só por uma conversa, gosto de perguntar detalhe, de ouvir histórias e volta e meia tenho umas para contar. Gosto de abrir cabeça ao meio e me deparar com o pote de ouro que mora dentro. Sou curiosa, exposta, um pouco invasiva e honesta em demasiado, busco com constância suavizar esses entre tantos outros pontos. Sinto que o tempo tá do meu lado, a busca também. Já quis o mundo agora quero chão, solo fértil, terra que brota. Enraizo meus pés, me rego, cresço tronco. Espero abrir galhos em folhas verdes e flores multicoloridas como a árvore de cinco cores daquela ruazinha do Leblon. Sou simples, quero o simples. Não piro em status, em fama, nem nada que ostenta. Gosto de abraço, beijo longo, mão dada e noite bem dormida. Gosto de mar, de céu azul, comida boa, risada rasgada e música para dançar. Sou ainda essa criança, sinto todo dia o seu pulsar. E bola para frente, o resto a gente segue construindo. 

Sunday, June 24, 2018

Estranhos

O sol saiu, bateu em nas folhas secas de árvores antigas e eu continuo vazia. O sol amarelou a manhã inteira mas meu peito é cinza. E não tem mar, areia, barco ou céu azul que aliviem esse aperto. Estamos separados desde que nos unimos, nos encontramos na beira e não houve mergulho, a cabeça nem molhou em poça rasa. E eu to aqui, na sua cama farta e lençóis brancos, eu me banho no seu mundo e vou perdendo o meu, vou perdendo o eu que você não vê. Não tem banho de sol que limite o amargo que sobra na boca depois de tanto beijo frio, interrompido antes do começo. Não estamos bem. Nunca estivemos de verdade na verdade. E não tem amor que seja o bastante quando o peito não enche.

Thursday, April 05, 2018

Sete Blocos


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São sete quadras, talvez oito, é uma da manhã e eu quero andar para casa. O jantar acabou e as amigas vão de Uber, 99, Cabify, enquanto eu sinto mais do que tudo que preciso andar. É quinta-feira, a rua tá vazia, a noite tá escura, mas eu preciso andar. Odeio andar, peguei trauma na infância quando andávamos doze quilômetros de praia só de ida cruzando estados com meu pai, sua tchurma e uma cambada de filhos de tropicalistas desvairados. Exauri toda a cota de caminhada de uma vida já ali, antes de oito anos de idade. Mas hoje preciso andar sete, oito, talvez nove blocos que minhas pernas pedem e mais ainda minha cabeça. Passo logo por um bar com um grupo de playboys olhando a passante, uivos e assobios vão se afastando na medida que sigo. Quatro bichas animados bebem vodka no gargalo às gargalhadas cruzando a esquina. Ando uma quadra inteira vazia, blindo meu campo e penso que só tem bêbado e maluco pela rua mas dois trabalhadores cansados fechando a porta do metrô da Antero de Quental me lembram o contrário. Passo a enxergar os muitos mendigos pelas calçadas e marquises. Quatro homens com coletes cadastrados sentam espalhados enquanto separam pilhas do jornal do dia seguinte. Meu cansaço parece pequeno perto do deles. Meu mundo caiu. Tudo que construí sofreu uma rachadura em uma semana, tudo junto, racional e emoção, profissional e afetivo, estrutura e sonho tudo por água abaixo. Meu mundo caiu e eu ando a passos largos sabendo que o caminho continua. Sofro, choro, penso muito, sem parar. Ainda estou em meio à tormenta, mas antes cedo do que tarde, estou feliz e aliviada com a saída pela culatra. Os planos se moviam apesar da completa distinção. Éramos dois opostos tentando encaixar. Ele sem emoção, eu transbordando afeto, não podia dar certo. Traição.


Sunday, February 18, 2018

Turistas

É meio dia e quarenta e nove e eu me estico na cama com os pés de areia para fora. Um pós-adolescente argentino me fita do outro lado da piscina enquanto seca as pernas, sua mãe grita sobre o almuerzo listo e ele se seca mais lento. É o meio do dia e o sol racha amarelo-branco por toda parte, a areia vira espelho e o mar lente de aumento para cada raio - a pupila cerra para não cegar. Eu espero o sol baixar revezando entre rede, sofá e cama enquanto leio Sapiens e paro para pensar na vida. Olho o Paco roncando ao meu lado e lembro que somos todos animais, penso em Darwin e na evolução do Homo, na revolução cognitiva e mais tarde agrícola e industrial, assisto esse Leão da Rodésia enorme dormindo e penso nesse caminho todo que fez para chegar até aí, ele me olha de lado e volta a colar o rosto no chão. Meus amigos estão em maioria fora da cidade, as ondas vão bem e eu sinto gosto de ciclo encerrado. A rede vai balançando e eu vou pensando no presente e no passado. Vim, vi, e me venci aqui. Foram três vezes: dois, quatro e agora um mês e pouco. Na primeira me separei, na segunda me encontrei lá no fundo e por fim constato agora que acalmei essa fome de mundo. Encerro esse encontro com o peito pleno de tudo que descobri. Me atravessei, virei do avesso e desvendei segredo que nem eu sabia, agora to aqui na rede assistindo os vizinhos gringos e pensando que com todo esse ócio e tanta naturaleza fica pra lá de propício volta e meia bater essa onda psico-filosófica. O pós adolescente argentino se joga na piscina e a mãe ralha mais alto sobre o almuerzo, e a iguana se esconde apressada no ralo porque lá vai o Paco e tudo transcende menos o instinto.

Thursday, February 15, 2018

Reset

Bora se perder de vez para ver no que dá, donde fica, como é. Me perde que eu te perco, se perde de vez desse eu aí que você trouxe para mesa e traz outro, eu trago outra e a gente cozinha tudo de novo, aperta essa massa, assa a carne por fora e se deixa cru por dentro, sela esse medo e se faz ceia à mesa. Vamo parar por aqui, dar um basta nisso tudo que já foi e começar do começo, tudo de novo só com novo sem nada repetido. Tira a mão do bolso, descalça os pés, abre esse peito e vem cá, vamo lá, bora juntos. E se tudo pode ser diferente que seja, infinito enquanto dure, inteiro até o talo, que não sobre nada de fora, que não nos falte alento, que nos demos tudo que temos um pro outro sem freio de mão, de pé, de cuca, de peito. Que seja longo, que passe lento, que vibre lindo.

Thursday, November 30, 2017

Um Corpo

Um corpo que não é só pele, osso, carne, músculo. Um corpo que pensa, que sente, que sonha. Um corpo forte, denso, sólido e espesso, e ainda assim frágil, vulnerável, quebrável e finito, mas sobretudo um corpo que voa alto, anda para frente, mergulha em seu prumo sem medo de não encontrar rumo. Um corpo que cai e levanta mil vezes, que corta, que sangra, que chora, e ainda assim, se cura. Um corpo com cinco sentidos, seis, seios, pernas, coxas, cabeça e coração mais ainda. Um corpo com sede de mundo, repleto de dengo e de tara, corpo com fome de amor profundo, e que foge frente à maré rasa.

Quanto Cabe em Teu Peito

Se a terra treme e todos os pássaros fogem em revoada, enquanto o mar ruge um grito rouco, rito de passagem de nuvens espessas, e um vento morno sopra abafado um sussurro lento por trás da nuca. Se as árvores estalam seus troncos em sinfonia, enquanto folhas e flores caem sincopadas e todos os barulhos do mato se unem em uníssono e a madrugada ecoa, quanto cabe em seu peito, quanto cabe em seu peito, quanto cabe em seu peito?

Noturna

Adentrei o beco quase esbarrando na tigela de cachorro bem servida ao lado de um carrinho entulhado de supermercado. Dois homens ajeitam com cuidado um burro-sem-rabo lotado de tralha ao lado de três mocinhas modernas que conversam desanimadas na penumbra, “já matamos cinco baratas desde que chegamos, o Bruno veio basicamente só para isso.” Um senhor de uniforme azul carrega cadeiras de plástico e copinhos de água até um canto. A rua está vazia mas a pizzaria fechada que seria nossa base se tornara num boteco improvisado com uma mesa de quatro cinquentonas bêbadas e assanhadas e um careca mais tarado ainda ecoando impropérios contra o silêncio. Um alarme de carro soa intermitente ao fundo, o segurança sai em busca do dono. Boa sorte para gente. Uma tosse catarrenta vem lá de cima vez em quando, quicando num bate e volta pelas paredes do corredor de prédios. Quatro homens grandes espalham tripés enormes e refletores maiores ainda pela calçada, mais quatro homens correm cabos por todo lado, eles falam alto distraídos, contando piadas chulas ao tom radiofônico de seus rádios abertos. Um jovem senhor bem apessoado pergunta quem é o responsável e descasca o verbo enquanto eu explico que está tudo autorizado, “eu vou processar, vocês vão ver.” Uma das bêbadas avacalha meio pomba-gira meio preto-velho, e sai gritando em tom agudo, “ó a empada, ó a empadaaaa” às gargalhadas. Começa a chuviscar e uma barata passa perto do meu pé. O beco é escuro. Os meninos sobem em escadas e apagam um por um dos postes, fica mais escuro ainda. Uma das modernetes e um homem gordo colam adesivos sobre as logos do orelhão. A chuva engrossa e tudo vai para debaixo da tenda preta. Um vira-lata passa latindo numa reta direta até sua tigela, mesmo debaixo de pingo grosso, come satisfeito. Doze pessoas se esgueiram na tenda preta, mais uns vinte debaixo dos recuos dos prédios enquanto uma das bêbadas chora as mágoas debaixo da marquise do boteco em meio à afagos dos companheiros de copo - ela soluça lágrima enquanto leva o chopp à boca. A gente reza para chuva parar, a madrugada está só começando e longe da gente poder ir embora. Os celulares e iPads saem das mochilas e começa uma leitura individual dos capítulos novos que acabaram de chegar. A bateria vai acabar e todas as tomadas estão cheias de cabos importantes. A chuva caindo, a noite adentrando e a gente ali apertado debaixo daquela tenda preta, naquele beco sujo, sem previsão de dormir.
Amanhã fazemos tudo de novo.

Sobre os Prazeres

Voltei pro Rio em 2012 depois de dez anos direto para a praia no Coqueirão e de imediato me descobri forasteira em minha própria terra. A praia havia parado na mesma faixa etária de quando fui embora, pós-adolescentes  dourados flertando e jogando altinho em meio à muita fumaça e água de coco. Sentada numa cadeira de praia enferrujada, entendi rapidamente que ia precisar de novos mundos justo dentro daquele mundo antes tão íntimo e de repente tão estrangeiro. Fiz da bicicleta prateada melhor amiga e saia todo dia pedalando pela cercania em busca de novos pertencimentos. Foi na Padaria Rio Lisboa que achei a primeira casa. Da cadeira de madeira regada à café preto e mil pãezinhos na chapa, admirava da juventude torneada à velhice bem cuidada do Leblon e escrevia crônicas imaginárias. Ali conheci as “Su(s)”, garçonetes legendarias que me cuidam feito filha e senti que tudo estava começando a fazer sentido. De bicicleta, corria do pontão do Leblon ao Leme toda manhã e assim fui descobrindo meus cantos, o Fellini e seu kilo milionário com gosto de comida caseira, as noites quentes no Sushimar do BG e seus garçons maravilhosos que não só cuidam de mim como contam fofocas indiscretas e espionam o que me interessa sem eu jamais ter pedido, a Rose, colorista do Werner que atura minha loucura e replica as técnicas capilares que eu trouxe lá de fora com maestria e um sorriso doce. E assim descobri minha praia, meus cantos, novos amigos e novas comidas, mas a bicicleta prateada um dia foi roubada e botou aquele pertencimento todo à perder. Fiquei deprimida com a violência e invasão, jururu e amedrontada, havia desacostumado. Mas de quebra, um mês depois no aniversário, ganhei foi duas dos amigos tão queridos, o que encheu meu coração.

Sexta passada caí do meu xodó, pedalava rápido na ciclovia quando um gari distraído enfiou a vassoura na minha roda e eu voei alto até bater no meio-fio. Durante a queda, lembro de no início achar que ainda ia dar para pedalar até o Leme, mas na medida que ia sendo arrastada contra o asfalto pela inércia do movimento entendia que o buraco era mais embaixo, ou no caso mais fundo. Quando tudo parou, eu só chorava, assustada com o susto e com agonia do sangue. Não desmaiei, apesar da minha frescura para machucado, mas fiquei ali arrasada pensando que meus prazeres teriam que parar por tempo indeterminado. Hoje faz uma semana. Passei essas manhãs vazias pensando o quanto o lazer traz o prazer e a força que o que nos dá bem-estar tem na nossa vida. Hoje busquei a bicicleta reparada no mecânico e estou aqui na Rio Lisboa, com meu pão na chapa e café preto, lembrando que felicidade mora nas coisas pequenas e que não importa o lugar, sempre vou encontrar pertencimento. Eu moro no meu peito.

Monday, October 23, 2017

A Estrela, a Nuvem, e o Raio Roxo

Era uma vez, em uma terra bem distante, uma estrela cadente que se distraiu de sua rota, adentrou a atmosfera e entalou em uma nuvem negra céu da terra à dentro. Pelo canto do olho a menina lá embaixo viu o finzinho do cair da estrela e ainda virou à tempo de ver ela entalando - nunca tinha visto isso antes. A menina olhou fixo para a luz que saía de dentro da nuvem e pensou lá no bem fundo do peito o desejo mais importante do mundo. Fechou a boca e os olhos bem fechados, e falou para dentro um pedido tão grande, mas tão grande que chegava a ser simples, falou palavra por palavra bem devagarinho para que nenhuma escapulisse desavisada, “eu - quero - muito - ser...” e esperou a estrela escorregar da nuvem no colo de relva e barro que cobriam o solo, para só então dizer a última palavra. A menina abriu um olho só, esperando ela cair, mas só a pontinha das duas pernas da estrela espiavam a terra por baixo da nuvem negra. A estrela pendurada pelo braço, louca para escorregar de volta em sua rota, brilhava em seu pulsar, enquanto a nuvem negra a apertava firme como mão de bebê aperta dedo dado. A estrela se esgueirava em um rebolado lento mão de nuvem à fora, mas a nuvem negra insistente, apertava mais ainda, enquanto a menina segurava o fim do pedido na ponta da língua. Ela pensou em desejar que a estrela caísse, mas lembrou que se desejasse duas coisas, a estrela podia se confundir e achou melhor esperar quietinha mesmo. A estrela se sacolejava em um molejo quase tonto mas nada de conseguir escapar do aperto de nuvem. A estrela pulsava, pulsava até que tomou todo o ar que tinha e fez tanto esforço para se espremer nuvem negra abaixo que um brilho agudo saiu de seu peito e cintilou a noite escura. Foi aí que um raio roxo viu tudo lá da nuvem cinza, a que ficava mais alto ainda do que a nuvem negra, e sem pensar duas vezes relinchou toda sua força rumo à estrela. O raio roxo cortou o céu em tantos com seus troncos e galhos elétricos, guardando o mais gentil para tocar levemente a ponta do cucuruco da estrela cadente - tocou tão suavemente mas com energia tamanha que a estrela cadente levou um choque de força extrema e se impulsionou, escapulindo em um sopro só nuvem negra abaixo. A menina, agora com os olhos bem abertos, viu tudo sem um piscar de olho. Ela olhou atenta para o brilho mais forte que jamais tinha visto daquela estrela quente e cadente que agora cintilava olhando dentro do olho dela e da sua boca escapuliu, “Feliz. Eu quero muito é ser feliz.”



Friday, August 18, 2017

Impressões Matinais


Adentrei o Monte Líbano com memórias do Sarongue mas atravessei o túnel das lembranças e me deparei com os senhores e senhoras prósperos do Leblon mergulhados no cloro morno de sua natação da manhã. Descobri uma sala vazia de acrobacia e sem saída voltei para o desconforto do banco da minha bicicleta. Atravessei o Jardim de Alá surpresa com um Rio que eu nunca olhei dali, céu refletido nas águas não tão cheirosas que escorrem da lagoa até o mar. No arpoador vi um homem algemado, besuntado em areia, sentado calado num banco de cimento, guardas municipais, PMs, e policiais de turismo o entornavam às gargalhadas enquanto ele olhava fixo, triste, para o chão. Havia um abismo ali. Evitei olhar mas deu nó no peito e vontade imensa de parar toda aquela cena, de sentar com aquele homem e pegar na mão dele, de falar com ele, de voltar no tempo e ver nos olhos dele ainda criança tantos sonhos transbordados. Olhei pro mar do Diabo e pensei que inferno esse nosso paraíso. No caminho para o Leme passei pela mesma tanta gente que vejo de manhã, rostos de estranhos carimbados nos caminhos repetidos desse meu amanhecer. Uma mendiga drogada, enrolada em edredons, deitava apaziguada em plena ciclovia enquanto corredores e ciclistas como eu desviavam como de uma pomba estatelada no asfalto. Fui invadida mais uma vez por essa gana sem força executiva de ajudar, de largar meu pequeno momento feliz e fazer algo, e lá longe ouvia meu pai ao fundo "escolha suas batalhas, minha filha", uma mendiga drogada e um assaltante da madrugada, e eu uma mulher burguesa com sua culpa cristã anuviando seu mais simples instinto humano de afeto.

Wet Suit

Saí de casa ainda escuro com pé de pato em punho e o porteiro me desencorajando, "pelo amor de Deus, vai dormir. Tô morrendo de frio aqui...", fui parcialmente abatida pela dúvida repentina, mas fui. Já no Diabo vi a cabeça do amiguinho lá no fundo do mar sem sol e, meio à contragosto, me joguei na água gelada. Logo chegaram mais seis, fiquei no mar com pé formigando e a mão dura, estimulada pela guerreirice deles que nem de neoprene estavam. Uma hora e meia de friaca al mare, até que nos demos conta do bloco pesado de nuvens negras fechando o céu do Arpoador e saímos correndo contra tempestade de areia batendo como farpa da canela até a cara - minha roupa de borracha molhada virando uma escultura de areia em movimento. Voltei de bike batalhando contra o vento e a chuva fina que cortava em mil meus poucos pedaços de pele ao léu. Pedalei a jato, amaldiçoando meus quereres enquanto tentava achar prazer no sofrimento - pedalava e sonhava com o chuveiro quente. Corri pingando prédio adentro, molhando o tapete felpudo do elevador, só para me jogar na água fervente do box ao som de um reggae que eu cantava em silêncio. Quando a água tocou o corpo, eu já à beira de me contentar pós perrengue, fui abrir o neoprene só para descobrir que o zíper traseiro tinha emperrado. Para tudo. Por cinco minutos me manobrei claustrofóbica dentro daquela prisão de borracha molhada, puxava para lá e para cá e o zíper nem movia, gelada e quase já suando, beirei o pânico, mas por falta de platéia e opção continuei me dobrando e desdobrando ao meio para solucionar a questão. Fiz de tudo, até que finalmente desliguei o chuveiro e desci elevador abaixo ensopada, enquanto elaborava planos de corte e costura da maldita roupa. Com um sorriso já quase resfriado, apelei pro mesmo porteiro agasalhado, que me livrou do zíper enquanto soltava às gargalhadas, "te falei que isso é coisa de doido..." Olhei no olho dele e disse sorrindo, "amanhã vou de novo!"
Valeu @zerodoiszoom por esse registro lindo da tempestade chegando.
#semprevaleapena

Tuesday, April 11, 2017

Diabo

O mar nem sempre assusta, mas algumas vezes engana. Era uma nuvem só no céu, ficou ali pela primeira hora especificamente no pedaço que cobria o sol, ali ingrata, provocando frio mesmo em mar quente. Ventava bastante e a correnteza sugava para pedra. Ondas grandes em mar mexido, fechando em sua grande maioria, mas não enormes. O arpoador logo ali ao lado, com ondas lisas e perfeitas, surfadas por cinco a oito surfistas a cada quebrada, prancha para que te quero voando sem prumo rumo aos surfistas mais desavisados, deixava água na boca mas não o bastante para a presepada. Caímos no Diabo. Era um bodysurfer e três surfistas quando entramos, mas isso durou pouco. Nunca fui mulher de buraco, já sou feliz com os meus, se posso escolher prefiro onda aberta e longa quebrando certinha para deixar deslizar brincadeira ladeira abaixo. Já os meninos gostam muito, há uma certa reputação toda construída sobre esse pilar, eles se jogam achando graça em onda que fecha em parede bem na cabeça e voltam gritando que “embaixo é só areia”, eufemismo para o ralador de pele que é a areia dura. Mas lá vamos nós, quatro ou cinco ondas abaixo só sorrisos, achando tudo selvagem e lindo demais, até que desço uma bomba, sou jogada contra o mar em explosão e afundo na montanha russa da espuma maligna - esse é aquele momento em que você não sabe o que é embaixo ou em cima, esperando deveras ansiosa pela resposta, mas o momento não se apresenta de imediato, chegando a se estirar um pouco além da sua expectativa. Finalmente, e de certo infelizmente, bato com a barriga na areia e sou arrastada contra o chão, apesar da falta de prazer nesse ato e no consequente ralado, ele ao menos me deu prumo. O ar já acabava quando afinal submergi só para descobrir com sorriso amarelo que lá vinha a tal série, da minha perspectiva enorme, bem em frente a minha cabeça demasiado chacoalhada e ao meu querido peito já sem ar. Tomei umas cinco na cabeça num exercício acidental de esvaziamento gradual de pulmão, até que voltando de uma, vi meu amigo me olhando assustado e parecendo em dúvida se vinha em minha direção. Eu estava cansada apesar de sob controle, mas de alguma forma a expressão dele imprimiu um pavor que me contagiou, “será que eu tô tão mal assim?” A dúvida gera medo que contamina com mais adrenalina ainda o que já está pulsando na veia e nessas horas medo é a última coisa a se regar. Eu sabia que eu não estava em real perigo, mas senti medo. E enquanto eu mergulhava até a areia para me proteger do turbilhão, lembrei da Costa Rica, de como passei os meses de inverno brincando de deitar na areia e soltar o ar aos poucos, de curtir o fundo tanto quanto a superfície, tá no pacote, eu só havia sido sortuda ultimamente. Tomei mais umas duas e consegui chegar até o outside. Fiquei uns vinte minutos quieta, furando bloco de onda antes de formar, sem descer nenhuma, só flutuando, assimilando o mar, conversando com o vento, as correntezas, o sol que agora saía, meditando sobre essa profunda conexão com a água que às vezes a fissura faz esquecer. Peguei mais umas três ondas menores e saí feliz com as lições de cada dia.

Saturday, April 01, 2017

Sobre Grandes Amizades e Despedidas

Sentei com a Veri em meio à malas e caixas no quarto desfeito. Ela prestes a se jogar no mundo junto à um amor novo e profundo ainda em formação - aí você me pergunta, mas não estão todos os encontros, mesmo até os estagnados, ainda em formação? Ela que se apaixonou e criou força para ter coragem e coragem para ter força de sonhar alto o bastante para começar a escutar o barulho dos desejos arquivados na gaveta do que seria bom mas a vida não alinhou. Ela desempoeirava as gavetas com as mãos e repetia para si que a vida alinha sim, só faltava ela se encaminhar, e portanto já se encaminhando, ela me mirava olho adentro e filtrava de novo o já filtrado, em busca de tornar o menos em menos ainda. Veri com sua força da produtora que sempre foi, mesmo antes de fazer disso ganha pão, acumulou móveis, objetos e mementos pela estrada. Em cada canto da sua casa havia dez mil pedrinhas do passado, digo bem no simbólico mesmo porque iam de pilhas de revistas a pequenas coleções de headphones, câmeras, cabos, canetas, cartões, isqueiros e por aí vai. Veri que há mais de década vinha ganhando roupas e acessórios de marcas, arrecadou pelo caminho um guarda roupa infinito de sapatos, bikinis, óculos, cintos, chapéus que, em sua grande maioria, ficariam lindos algum dia em alguma ocasião que ainda não havia se apresentado nos últimos anos, mas se acaso viesse a se apresentar estaria tudo em mãos, e daí você entende o eis da questão. Ela me perguntava e eu dizia que não precisava de nada que não coubesse em uma mala, mesmo que massiva, e uma bolsa de mão, mas que também não era para doer demais, que o caminho sozinho ia revelar o que era peso morto e o que era indispensável. E lá ia ela de peito aberto e coração apertado, abrindo cada mala já fechada, repensando cada item filtrado do todo e buscando com olhos de passarinho aprovação no meu olhar para manter certas amarras, e empurrão para se livrar de tantas mais. Ela perguntava com brilho de lágrima rasa, "disso aqui eu não preciso, não, né?" E a pergunta já se respondia. Volta e meia a gente chorava em meio à risada de emoção. O chão estava duro e nossos corpos cansados, mas as horas iam passando com a gente se olhando a cada item e se entendendo no incômodo do impacto do que dava para ir e do que precisava ficar. O amor dela veio ficar com a gente, ele já com todas opniões expostas, a olhava com ternura enquanto assistia de olhos atentos a grande transformação da mulher que aprendia cada dia a amar mais. E ali aquela mulher virava mais mulher ainda, enquanto a pilha do que ficava para trás crescia a sua liberdade se expandia - quanto menos tinha mais podia voar, cada objeto, cada roupa, peso de pedra em mala que mesmo com rodinha é esforço, âncora pesada em solo vasto e indefinido, justo para os dois que buscam um caminho itinerante, sonham juntos sonhos compatíveis e complementares de uma jornada em aberto mais do que um destino exato, e não vai ser setenta kilos a mais de passado físico que vão atravancar um presente que demanda leveza material e equilíbrio emocional. Haja coração. Assisti feliz aquele amor, vi os dois ali dos seus jeitos abrindo o mar ao meio e criando caminho para atravessarem vales e desertos até alcançarem o oásis que já tinham em mãos, só faltava desestruturar o que não cabia mais para dar espaço ao que tinham lá dentro. Já estavam o fazendo, e eu no meu egoísmo velado, chorava por dentro de saudades antecipada, mas transbordando admiração de ver minha amiga crescer assim frente aos meus olhos, deixando o casulo e abrindo aos poucos as asas de um verde como o mar que quinhentos anos atrás aproximou Portugal do Brasil e agora separará nossos abraços mas nos encostará quanticamente através de suas partículas aquáticas quando nele mergulharmos. Boa viagem, Veri. Como já dizia Júlio Cesar em sua conquista de território e o Pedro muito bem adaptou, "vim, Veri e venci" e melhor ainda, "quem viver, Veri", então vai amiga, vai que a vida é sua para sonhar e realizar! E que você se encontre lá dentro de você mesma, sem precisar de mais nadica de nada, se não se fazer feliz.

Sunday, March 19, 2017

Ressaca

Acordei cansada depois de uma noite de insônia, na dúvida se me jogava no mar. O verão termina amanhã mas o inverno já chegou - dormi pela primeira vez sem ar condicionado e despertei para uma manhã cinza e chuvosa. A insônia deve ter sido o prenúncio do tamanho das ondas que me esperavam. Desci para encontrar o pneu da bicicleta furado e sai descalça mesmo pela rua, andando contrariada até a praia. Odeio andar, não tem movimento humano que me dê mais preguiça, acho chato, me põe para correr, nadar, pular, voar, saltar, pedalar, dormir, qualquer coisa menos andar, pedalo mesmo que seja menos de um bloco. Mas lá fui eu com meu pé-de-pato e handplane em mãos, já ouvindo piadinha dos meninos do Big Polis, Edilson debochado como de costume (deve ser karma do nome) me gritou de longe, “que isso aí, hein, dona Chica, standup de boneca?” enquanto os coleguinhas caiam na gargalhada, dei um tchauzinho sacana com um sorriso enrustido e lembrei da minha bicicleta que não dá tempo para essas intimidades. À meia quadra do mar já ouvia o barulho das ondas, elas soavam como prédios implodindo e uma brisa fria com garoa arrepiou toda minha espinha em câmera lenta. Andei pela orla e fui parada mais duas vezes para explicar a tal da pranchinha de mão de madeira, interagi com sorrisos enquanto alimentava em silêncio o saudosismo nostálgico da minha tão querida amiga silenciosa, bicicleta. De longe avistei as ondas do pontão do Leblon, fui andando e contando as tantas cabecinhas dentro d’água, quatorze surfistas, cinco bodysurfers e um fotógrafo. Já na areia me surpreendi com a força e tamanho de algumas séries, o mar estava grande, selvagem, o dia frio, minha cara amassada, minha noite mal dormida e nenhum conhecido para me entusias-mar. Pensei, repensei e me falei o que sempre falo quando o mar me assusta, “não precisa pegar onda, só de estar lá no fundo com o mar assim já tá valendo o desafio.” Me aqueci, pedi licença e fui. Tenho a política da boa vizinhança quando entro na água, sou só sorrisos e distribuo bom dia para quem me olha, mas os rostos pareciam aflitos e meio confusos com a minha chegada. Um bodysurfer chegou mais perto e perguntou se eu era do Rio, que por aqui só tinha mais uma ou duas meninas que ele tinha visto pegando onda de peito em mar assim. Um outro bodysurfer voltou assustado de um caldo, “caracaa, voei uns dois metros no ar só para ser mastigado depois, o mar tá sinistro!” Eu esperava ainda o momento certo. O outro apontou para a galera nas pedras, na areia e no mirante do Leblon assistindo, “com esses paredões dá até plateia.” Lembrei que não estava sozinha, que eles também sentem medo, que faz parte, e mais do que tudo me assegurei no quanto me sinto confortável a me adaptar às surpresas do mar, me preparei para isso. Fui fazendo amigos. Depois que peguei a primeira bomba os meninos começaram a gritar para eu ter prioridade nas outras em que eu estava melhor posicionada e comemoravam quando eu voltava de uma boa, nessa brincadeira peguei cinco ondas lindas em uma hora de mar. Me chamaram para surfar com eles na laje de Ipanema, contaram do whatsapp de bodysurf, mas acabei saindo da água morrendo de frio e com o estômago resmungando de fome. Encontrei um dos surfistas com a prancha quebrada na areia, inconsolável.

Cheguei em casa e recebi essas fotos, a cara não tá das melhores mas acho que condiz com o que eu vinha falando aqui. Mas sobretudo fico muito agradecida pelo momento compartilhado com novos amigos e feliz por ter coragem de alçar meus voos com consciência e disposição para conquistar meus espaços.





Thursday, March 16, 2017

Calçadão

Sentei no quiosque que divide a Praia de Copacabana da do Leme enquanto esperava a equipe chegar do deslocamento, o dia parecia ameno, mas durou pouco. Já no segundo gole do coco, sentou um casal mineiro na mesa à minha frente. Ele, pangaré com marra de garanhão, chegou botando banca, "desce dois cocos e se não tiver bem gelado eu devolvo," ela, gata sensual no limiar do boazuda para roliça, shortinho atochado e viseira da hora, tentou amenizar em um meio sorriso constrangido, "nuuu, António Augusto, como cê é bruto!" "Eu sou é macho e tô pagando," relinchou mostrando os dentes. A atendente, que à primeira vista 
havia me parecido emburrada, trouxe os cocos com um sorriso doce e ainda deu dica sobre o moço do chapéu que já devia estar para passar. A namorada levantou toda catita e ameaçou tirar a blusa para botar um vestido de crochê, daqueles que as turistas compram na areia e desfilam todas iguais no calçadão, "ê, ê, ê, pó parando, nem pensá!" "Que isso, môzão, mas por quê?
"Porque eu tô dizendo, uai. Tá toda se achando aí. Tá é abusada só porque tá no Rio de Janeiro."Ela voltou para cadeira sem embate, vestindo a cara da decepção. "Ô, fia..." ele deu duas batidinhas na mão dela que se estendia sobre a mesa, "seu mozão é muito bom procê, né, não? Só te leva nas boa. Quer tomar aquele picolé que cê gosta?" Ela esboçou um sorriso triste. Nisso, fomos interrompidos por um cracudo descamisado vindo do acampamento improvisado na sombra dos coqueiros, ele pediu um isqueiro e depois um cigarro – cada pessoa que parava no quiosque o ritual se repetia. Um segundo cracudin veio sorrateiro por trás e tentou puxar um barbante com uma chave que ele tinha na mão, aí sabe como é, começou uma briga lenta de dois homens inebriados que não tinham controle o bastante do corpo, nem rapidez de movimento para engajar de fato com violência ou ao menos chegar a uma solução. Os dois emaranhados, cambaleando em pé na areia, se balançavam para lá e para cá em solavancos preguiçosos enquanto seis polícias conversavam em um círculo displicente do outro lado do calçadão. Durou uns quatro minutos nessa câmera lenta, até que uma pretona gorda com cabelo desgrenhado e um bebê choroso enganchado na cintura, interviu aos berros e foi quando o mais novo conseguiu pegar a chave. Éramos uns seis clientes no quiosque hipnotizados pelo impasse. Ainda gritaram poucas e boas um para o outro até que o mais velho atravessou o quiosque gritando, "filho da puta! Não tem essa de ser filho, não, seu merda. Quero mais é que se foda! Vai lá agora no depósito buscá pó, vai! Volta esse rabo para Bangu mermo e fica lá pedindo dinheiro para comprá cigarro! Fica aí vendendo cocaína e maconha, tem mais é que sê preso mermo," ele gritava o mais alto possível enquanto um dos policiais mostrava algo demasiado engraçado no telefone que demandava toda a atenção dos outros. Volta e meia uma brisa quente com cheiro de merda se soltava dos coqueiros e invadia o nariz sem aviso prévio. Um casal mais velho de alemãs desavisados suava profusamente, o pantone de pele rosa e cabelo platinado colado à testa, enquanto disponibilizavam para os malandros interessados câmeras supersônicas presas aos pescoços. Eu, na dúvida se falava algo ou ficava na minha, tive meu olhar roubado por uma mendiga magrela e bem disposta que atravessou o quadro aproveitando a distração da atendente e pegou um coco do cacho preso ao quiosque, "adoro coco, tenho paixão," ela gargalhou. Ela se afastou um metro da gente e num gesto selvagem jogou o coco com toda força contra o calçadão. Deu mais uma olhada sensual checando o público, e numa risada rasgada em que a cabeça chegou a ir para trás, repetiu o ato mais três vezes às gargalhadas. O coco mostrou uma fissura, ela descascou com o dente a casca grossa, levantou os braços e jogou do alto a água em cascata até a boca, deixando derramar pela bochecha e pescoço a la Tieta. Avistei um pivete chapado disfarçado atrás do poste me assistindo escrever esse texto, olhinhos fixados no meu telefone, olhei para baixo e senti um calafrio espremer meu ar para fora do peito. Sem pensar, voltei o olhar para dentro do olho dele e dei sem querer um sorriso lento e largo, ele me olhou meio confuso e sorriu sem jeito, virou o olhar, me olhou mais duas vezes e saiu por aí pelo calçadão. No meu último gole, quando esqueci de tudo, e avistei o mar, a equipe chegou. Mais uma tarde quente de fim de verão no calçadão.

Monday, March 13, 2017

Fila de Banco

Eu aqui jogando meu sudoku na fila infinita da caixa econômica, tive a sorte de fazer amizade, à contragosto, com Dona Zélia, uma faxineira cearense sessentona para lá de retada. Eu tentava me concentrar quando ela chamou minha atenção para o ódio que tem de mulé que vem para o banco com marido, "dá vontade de dá logo uma facada. Sai para lá jaburu, me deixa" disse ela, "odeio homi me perseguindo para lá e para cá. Credo! Minha patroa aqui do Leblon, toda bem cuidada, fica dando mole prum mané de vinte cinco que tá lá só mamando nas tetas, sabe quantos anos ela tem, tem sessenta, toda linda e pagando despesa de garotão, onde já se viu?" 
"Não é fácil, não" respondi, "mas sabe como é, Dona Zélia, cada encontro tem suas moedas de troca."
"Ih, minha filha, essa moeda aí só dá prejuízo, prefiro no rotativo!" 
Ela espera na fila ressabiada, comentando todos os pormenores de quem chega e sai com pérola atras de pérola, até que ela manda, "eu quero é sentar o cu na cadeirinha daquela caixa alí ó, sapatão. Adoro sapatão! Resolvem tudo com a marra do homi mas a compreensão da mulé." E com essa a sapatão a chamou com um olhar enviezado e um sorriso meia-boca. Tem dia que eu adoro fila.

Thursday, March 09, 2017

Sobre as Tristezas

No caminho, mil pedrinhas. Meus pés correm em pisadas fundas, batucada em chão de areia. O dia é lindo. À frente pedras coloridas, grandes e pequenas de todos formatos atravancam meu caminho. Elas passarão, eu passarinho, diria Drummond. Mas não quero desvio nem atalho, não fujo de suas pontadas secas, piso sob todas que se propõem aos meus pés e sigo buscando equilíbrio. A dor um atravessamento de si, vale a pena. Mantenho o passo, movo adelante, sigo em frente e avante sem medo de percalços, faço dos obstáculos tentáculos de possibilidades de rota. Às vezes piso rápido sobre pedra tão magnífica que volto atrás e levo comigo na mão, a aperto contra a palma, sinto toda sua força magnética vibrar meu sangue adentro, desvendo cada curva com cuidado e tatuo sua textura na minha pele. Não escolho, elas me escolhem dali, me olham dentro do olho como todo e qualquer obstáculo e eu viro recíproca verdadeira. Essas levo comigo, guardo no peito com apreço tudo que me marca. Respeito cada e toda pedra que a vida me deu, acredito na beleza do que dói, na revolução que tudo que é difícil gera, aprecio o desconforto das reviravoltas e incertezas, e sei que se me locomovo pelo coração e razão, os dois de mãos dadas, que se escuto seus sussurros com atenção, minha rota sempre se adequa e alinha. O dia é lindo e não volta mais.
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Tuesday, February 28, 2017

Minha Carne É de Carnaval

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O Rio cheirava mal. Pedalei as duas quadras até a praia atravessando um túnel de brisa estagnada. Um vento morno reluzia no contraluz a fina camada ressecada de suor e mijo no asfalto, pele árida de uma cidade em rebordosa. O dia raiava. Enquanto eu despertava minhas pernas a cidade ainda estava acordada desde sexta-feira e hoje já é terça. A praia, refúgio de zumbis, se tornara acampamento de mil ambulantes e bêbados já não tão engraçados. Não sobrou glamour, talvez um vestígio nas penas roxas de um cocar grande demais para cabeça do mendigo mal dormido. Uma senhora gorda sentada no chão do calçadão gritava nervosa no telefone que já tinha mostrado tudo que tinha no uatszap, o que mais ele queria? Duas meninas bonitas desfilavam sem pressa seus peitos pintados e maquiagens borradas. Um turista ensopado abraçava uma traveca com meio mamilo exposto e um fio dental que não deixava dúvida nem para os mais desavisados. Eu pedalava invisível dentre bandos de pivetes estranhamente conformados e foliões vencidos pelo cansaço e álcool. O Rio cheirava mal como as penas de um urubu velho, faminto e exausto. Eu olhava para cidade suja e queria lavar seu rosto, enxugar suas lágrimas e limpar o resto de vômito seco que sucumbiu a mais mil goles de álcool fermentado. Ainda assim gaivotas distraídas voavam rente ao mar hoje tão escuro quanto os buracos cavados na areia pelos cracudos de Copacabana. Eles pareciam felizes, os cracudos, curtiam a onda debaixo de coqueiros secos e areia quente, tinham banheiro, motel, cozinha, tudo à céu aberto, faziam ali uma zorra total daquele bairro antes burguês agora cheirando a rebordosa e lixo. Um bebê nu batia no vira-lata preto amarrado a um dos coqueiros, os cracudos riam. Um bombado tatuado cambaleava pela ciclovia em toda sua grandiosidade, seus músculos anabolizados, inchados de água e ar, pareciam prestes a desinflar frente a mais pequena agulhada de uma seringa usada, contaminada. Uma mulher gargalhava no telefone aos berros, “eu tô é no calçadão de Copa, cabrita.” O Rio cheirava a peixe podre e cerveja quente e não havia vestígio da beleza que eu fui buscar me madrugando para o dia. Pedalei por alguns quilômetros sem sinal de uma alma sóbria e rezei calada para que chovesse muito, chovesse forte e lavasse cada rua, todo o asfalto manchado, que o céu chorasse seu mais exausto choro e quando já me perdia nessa imagem de enxurrada me deparei com o despejo humano largado pelas calçadas, lembrei do lixo acumulado pronto para escoar e entupir cada bueiro, deixando para o sol o desgosto de ferver essa sopa de dejetos e detritos num caldo ainda mais fedorento dos nossos restos. Mudei de reza e pedi para que quinta-feira chegasse logo. Às sete a rua fechou e fugi da camada de areia presa à ciclovia, armadilha para derrapada. Uma das cinco senhoras andarilhas, perdidas na manhã carnavalesca, gritou enfadada por eu estar pedalando na contra-mão da rua fechada, achei bonito que em meio ao caos ela ainda pudesse se preocupar com a minha direção. Já no retorno, entrei na minha rua e me deparei com um corredor bem-ajambrado de porteiros uniformizados lavando as calçadas mijadas em uma coreografia digna de Xixiland, um já suado gritava sem riso “esse cheiro dos infernos não sai nem por um...” A carne pode até ser de carnaval, mas o Rio, coitado, não fica igual.