Despertei com o sol e abri meu peito bem aberto pro dia que não volta mais, pulei da cama com sede de mundo e saí de bicicleta e headphone por rota que as pernas definem na medida que movem. Não demorou me deparei com o marrom da lagoa poluída, com o lixo transbordante das encostas do vidigal, com o esgoto vazando praia de São Conrado a dentro, com o triste desabamento da linda murada vermelha do antigo VIPs, vi isso tudo, vi bem, mas vi também o céu se abrindo em todo seu azul e beijando aos poucos a superfície do mar, e o mar brincando entre os verdes hora escuro hora claro enquanto as cristas de ondas gigantes formavam flocos de neve ao vento, vi o casal não dormido ainda rolando pela areia às gargalhadas, vi as senhoras da zumba rebolando sincronizadas no deck velho do kioske, vi atletas determinados e outros mais para lesados mas todos ali vestindo o uniforme dos seus baratos, vi a coreografia dos patos migratórios, ouvi a música dos pássaros da mata tão verde que até chuva caiu só ali beirando a encosta. E se o pior cego é aquele que não quer ver, eu quero ver, eu vejo até em demasiado tudo tanto, mas escolho absorver o que tem de mais belo nas coisas mais lindas do mundo, porque frente à uma realidade tão trágica quiçá só um peito feliz pode mudar o mundo
Tuesday, November 05, 2019
JB
Eu e minhas duas bolsas cheias de laranja lima e maracujá saímos do mercadinho do bairro já disfarçando a curiosidade narrativa de entender cada homem do grupo de coroas que tende a morar no banquinho de madeira no entorno da árvore da esquina - eles bebem, eles fumam, eles jogam damas e não sei mais o que, e de vez em quando eles parecem rir, sempre tenho a sensação de que eles acordam e vão para lá. A perna vai me levando para casa e ao fazer a curva em direção à praça sou atropelada pelo cheiro avassalador do mijo dos mil e um cachorros que moram no bairro, prendo brevemente a respiração e sigo atravessando a coroa de árvores com seus túneis de folhas verdes enquanto ouço a flauta vinda de um apartamento de fundos do prédio azul de dois andares, cheiro de maconha ruim. Uma barata perdida passa escorada na parede e eu me faço invisível por dois segundos até ter que pular um cocô esquecido por algum dono delinquente dos tais mil e um cachorros da vizinhança. Mais vinte passos e ouço o “ohm” em uníssono da aula de yoga na casa branca. Um casal ri alto e brinda de algum apartamento do outro lado da rua, a calçada estreita me faz ter que desviar de um pai e seu carrinho de bebê. Mais dez passos e jazz, muito jazz se esparrama de uma janela baixa logo se misturando a uma aparente mini-rave no segundo andar do prédio laranja, cheiro de maconha boa. Um homem sai todo emperequetado em seus trajes de corrida em direção à Lagoa, ele canta alto fragmentos de uma música que não deu tempo de entender. Um vizinho faz lições de piano e os gritinhos da criançada na praça entra em melodia com a música. Pareço ouvir um casal transando, quiça um trio até, tento ouvir melhor mas não, devo estar viajando. Já passa das 19hrs e tenho que subir a escadaria pois a neurose burguesa bloqueia com cadeado a entrada da praça para o meu prédio durante a noite, meus vizinhos tem medo dos próprios medos. Cinco adolescentes fumam maconha às gargalhadas na parte baixa da escada. Vou subindo e passo por um casal fumando maconha aos beijos no lance médio da escadaria, ô bairro para ter maconheiro... subo e subo mais e um vestido esvoaçante dançando pelas pernas de uma mulher que desce sem pressa invade o quadro da minha visão. Chego no meu portão, abro o vitral e volto para minha bolhinha. 50 metros de Jardim Botânico.
Sunday, October 13, 2019
Búzios
Ao fundo jazz, solo de sax, o vento passeia dentre o verde da era esparramada muro abaixo, cheiro de colorjet, quando em vez ouço o chacoalho da lata do Smael pintando suas telas na sala, duas, três de uma vez, a rede move lentamente e o peixinho de pano mostra os caminhos do vento num sobe e desce com o ar, um tudo de azul e amarelo paira por todos os cantos do olhar e ainda assim a grama cheira forte um verde mais claro que o da era do muro cinza. A casa dança no balanço das árvores e lá no fundo ainda tem o mar, as ondas, barulho constante de água contra areia. As crianças levantaram a bola ali do lado, vez em quando vejo ela cortando o céu em seu laranja-choque, ouço o bater dela em coxas, peitos, cabeças. O dia passa lento, é domingo com gosto de dezembro, janeiro, férias de verão.
Saturday, September 14, 2019
Felicidade
Comer bem
Fazer exercício prazeroso - surf, pedalada, yoga, altinha, corrida, acroyoga
Ver bons filmes
Me sentir demandada, reconhecida e realizada no trabalho
Conversas profundas
Beijo na boca/amor/transa
Carinho
Abraço apertado e inteiro mas só em certas pessoas pq nem toda energia é bem-vinda
Sorrir para pessoas que compartilham qualquer coisa comigo, do caixa a algum fodão-blábláblá
Ficar em silêncio na minha
Cuidar de mim
Banho longo, quente e cheiroso
Dormir bem
Andar de mãos dadas
Encontrar meus amigos
Dar gargalhada
Dançar
Cantar
Brincar
Vestir uma roupa que eu me sinta super hiper eu (estranhamente deveria acontecer todo dia o tempo todo mas aquela roupa que te põe lá encima não é tão frívolo
Cuidar das plantas
Mergulhar no dia com carinho pq ele não volta nunca mais
Sentir a natureza, a temperatura do dia, as cores do céu, as correntes de vento no corpo ao ar livre, a velocidade das nuvens movendo
Ver para onde move o céu
Lua cheia
Dia azul
Mar quente
Encontrar meu pai
Encontrar Bruno, Eva e Bia
Encontrar minha mãe
Bom humor
Wednesday, June 12, 2019
Pouco Muito
Quero crescer para caber melhor nas coisas grandes, quero ser grande, quero ser tudo que posso e mais um pouco sem pouco. Não quero tanto tudo, só quero muito tudo que posso com tudo que tenho. Quero ter o meu tamanho todo, inteiro, pleno, sem desperdício do eu, de mim, de tantos tantos que tenho nesse toco de gente que eu caibo dentro. Mas cabe tanto aqui dentro que fico achando que o que mais vale é justamente ser um tanto de cada tanto de mim que tenho. Não quero ser mais que do outro, o que esperam de mim nem nada disso, só quero ser tudo que posso, além do que já sou, porque nessa coisa de crescer por dentro, sinto que cabe sempre mais um pouco.
Friday, September 28, 2018
Mundial
Esse ano não competi, perdeu a graça, valeu muito mais entrar no mar com um bando de amigos, sem objetivo maior do que me divertir. Quando comecei a pegar onda de peito entrei numa de descobrir meus limites, precisava me jogar no mar mais selvagem, conquistar ressaca e vencer onda grande, aprender manobras, dropar os buracos mais cavernosos, cair em todas as lajes cariocas, dominar picos difíceis e desafiar meus próprios limites, e lá fui eu. Até que descobri a batalha que me vale, “basta a quem basta o que lhe basta...”, já dizia F. Pessoa, e pronto, deu. O destino me ajudou nessa virada da psicopatia para maturidade - por sorte tive que parar por quatro meses, à contragosto, e voltei cautelosa: bateu foi medo de osso quebrado e articulação torcida, deu receio com laje de pedra, coral e areia rasa demais, baixou uma cautela danada de enfrentar o desnecessário quando a recompensa nem compensa e passei a medir melhor o risco. Fui tomada pelo potencial da sequela, e quiçá ouso dizer sem demérito dos corajosos, ganhei a maldita maturidade da consequência e, te digo upfront, não tem volta - agora penso à frente em demasiado. Amo o mar, quero cair, me jogar, sonho com ressaca e gosto de mar que assusta, mas lá no fundo no fundo, no secreto do meu íntimo cada dia mais exposto, eu quero mesmo é onda amigável daquelas que abrem e mostram o trilho, prefiro curtir a rota longa do que fazer manobra na pressão, prefiro chegar até areia na intermediária do que fazer um drop radical no quebra-coco, prefiro me divertir do que impressionar. E de repente foi isso, não sei se com mais ou menos orgulho, acho que alcancei maturidade aquática e virei adulta – até um certo e mínimo ponto, fora d’água continuo a mesma criança curiosa.
Thursday, September 13, 2018
É Sempre Bom Lembrar...
Quatro gaivotas planaram rente à espuma do mar mexido, ele olhou para o vasto e sentiu a imensidão. Andava engasgado, juntando os cacos, transbordando aos poucos bocejo travado que não deixava o nó no peito desapertar - mas tá melhorando, dizia ele, falta cada vez menos para dissipar. Talvez em pouco tempo bastasse um soluço para destravar de vez, sacudir a poeira e pegar no tranco. Talvez não. Sonhava com cautela passo largo de perna que acostumara a ser preguiçosa. Mas era mais, era forte, elástico, força bruta em corpo compacto e flexível, explosão e tormento, ternura e suavidade. E a mente inquieta pairava em mil poesias dos tantos detalhes de flores, folhas, rachaduras em rochas e todo o azul que o mar resplandece. Tinha dor de homem menino e encantamento de menino homem. Era de sal, de terra, sólido, raiz de tronco largo de seiva doce, pérola em concha, ouro raro em rio escuro, era um bando de coisa linda mas se disfarçava de areia fina e achava que passava transparência. Vinha cavando esse buraco em movediça fazia tempo, mas volta e meia vinha a maré cheia, enchia o copo de mar e o vazio ficava pleno pelo breve vagar daquele instante, e ele afinal entendia que era completo. Nesses dias via no espelho embaçado do banheiro o brilho lá no fundo do olho e lembrava de tudo, de quem era, do que queria, da força que tinha. Era grande.
Thursday, September 06, 2018
Botafogo
Chovia fino em Botafogo no fim da consulta, eu não tinha pressa mas quis me molhar. Passantes se protegiam debaixo de marquises, jornais, echarpes e capuzes. Acima das cabeças andantes eu assistia uma dança de cores em formato de guarda-chuvas, redomas de mundo como um fone de ouvido que te separa do todo e forma bolha. Não queria bolha, sorria baixinho pensando no meu pai andando comigo de mão dada pelo Leblon debaixo de chuva sempre bradando “eu lá sou de açúcar.” Caminhava assistida pelos olhos secos de quem se protege. A chuva mal molhava, não era pingo grosso, mas a constância assustava quem não deixava que a gota contasse a secura que tinha. E passo a passo eu olhava os rostos que se deixavam ver, me encaminhava pro metrô pensando nos mundos dentro de cada um, cada sonho, cada anseio, cada escuridão que mora ali dentro e seguia meu caminho. E nas quintas-feiras vou para Botafogo de metrô sem telefone, headphone nem guarda-chuva, animada com essa crônica constante que é reparar em humanos em seu habitat. Você já olhou à fundo para quem cruza seu caminho?
Monday, August 27, 2018
Desafeto
Thursday, August 16, 2018
Venho Sendo
Nem sempre acordo disposta. Cada dia faço o que posso. Volta e meia me deparo com minha própria cara e me assusto. Sofro com minhas questões, a tal da retenção de líquido - o que eu como reflete no meu rosto no dia seguinte, e dependendo do que for, shoyo, carboidrato, sal... desgosto total, mas tudo bem, trabalhamos com o que temos. Acordo feliz a não ser que algo grave aconteça mas nem sempre disposta. Tantas vezes me movo à contragosto, sei que preciso de mim para me mover para frente. Me aviso logo cedo que preciso sair por aí e o dia vai raiando e a urgência crescendo e vou fazendo um movimento avesso de criar o momento, me visto, top, legging/short, maiô, pé de pato, neoprene, vou fazendo os braços me vestirem pronta para toda e qualquer ocasião e, por um desgosto para com o planejado, saio por aí deixando ao gosto o que der na telha. Acaba que pedalo quando acho que vou nadar no mar, surfo quando saio para pedalar, corro na areia quando acho que quero mais é surfar, não tenho compromisso se não com a liberdade do desejo. Não marco tempo. Não sei até aonde vou ou fui, não tenho metas. Quero só começar o dia bem seja com o que eu puder me dar. Sei da diferença entre os cento e oitenta graus de céu azul versus as paredes brancas do meu apartamento, sei do barulho do vento no mar versus a vista da janela, e assim me jogo cedo no mundo nesse cada um dia que não volta nunca mais. E eu não volto nunca mais. Então que eu seja, e seja muito, muitas coisas. Venho sendo.
Wednesday, July 25, 2018
Recomeço
Thursday, June 28, 2018
Medo do Mar
Re-Sentir
Não alimento mágoa, não guardo rancor, acho orgulho desperdício de tempo, vaidade. Assumo erro, peço perdão, acredito em desculpar. Busco mudar, seguir adiante compondo, agregando no que dá. Tenho meus tantos defeitos e procuro destrinchar um a um, achar o cerne, desatar nó e passar pro próximo. Não estou pronta, não estou certa, não sou definitiva. Busco caminhos, não verdades. Gosto de gente, de conhecer a fundo mesmo que só por uma conversa, gosto de perguntar detalhe, de ouvir histórias e volta e meia tenho umas para contar. Gosto de abrir cabeça ao meio e me deparar com o pote de ouro que mora dentro. Sou curiosa, exposta, um pouco invasiva e honesta em demasiado, busco com constância suavizar esses entre tantos outros pontos. Sinto que o tempo tá do meu lado, a busca também. Já quis o mundo agora quero chão, solo fértil, terra que brota. Enraizo meus pés, me rego, cresço tronco. Espero abrir galhos em folhas verdes e flores multicoloridas como a árvore de cinco cores daquela ruazinha do Leblon. Sou simples, quero o simples. Não piro em status, em fama, nem nada que ostenta. Gosto de abraço, beijo longo, mão dada e noite bem dormida. Gosto de mar, de céu azul, comida boa, risada rasgada e música para dançar. Sou ainda essa criança, sinto todo dia o seu pulsar. E bola para frente, o resto a gente segue construindo.
Sunday, June 24, 2018
Estranhos
O sol saiu, bateu em nas folhas secas de árvores antigas e eu continuo vazia. O sol amarelou a manhã inteira mas meu peito é cinza. E não tem mar, areia, barco ou céu azul que aliviem esse aperto. Estamos separados desde que nos unimos, nos encontramos na beira e não houve mergulho, a cabeça nem molhou em poça rasa. E eu to aqui, na sua cama farta e lençóis brancos, eu me banho no seu mundo e vou perdendo o meu, vou perdendo o eu que você não vê. Não tem banho de sol que limite o amargo que sobra na boca depois de tanto beijo frio, interrompido antes do começo. Não estamos bem. Nunca estivemos de verdade na verdade. E não tem amor que seja o bastante quando o peito não enche.
Thursday, April 05, 2018
Sete Blocos
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Sunday, February 18, 2018
Turistas
É meio dia e quarenta e nove e eu me estico na cama com os pés de areia para fora. Um pós-adolescente argentino me fita do outro lado da piscina enquanto seca as pernas, sua mãe grita sobre o almuerzo listo e ele se seca mais lento. É o meio do dia e o sol racha amarelo-branco por toda parte, a areia vira espelho e o mar lente de aumento para cada raio - a pupila cerra para não cegar. Eu espero o sol baixar revezando entre rede, sofá e cama enquanto leio Sapiens e paro para pensar na vida. Olho o Paco roncando ao meu lado e lembro que somos todos animais, penso em Darwin e na evolução do Homo, na revolução cognitiva e mais tarde agrícola e industrial, assisto esse Leão da Rodésia enorme dormindo e penso nesse caminho todo que fez para chegar até aí, ele me olha de lado e volta a colar o rosto no chão. Meus amigos estão em maioria fora da cidade, as ondas vão bem e eu sinto gosto de ciclo encerrado. A rede vai balançando e eu vou pensando no presente e no passado. Vim, vi, e me venci aqui. Foram três vezes: dois, quatro e agora um mês e pouco. Na primeira me separei, na segunda me encontrei lá no fundo e por fim constato agora que acalmei essa fome de mundo. Encerro esse encontro com o peito pleno de tudo que descobri. Me atravessei, virei do avesso e desvendei segredo que nem eu sabia, agora to aqui na rede assistindo os vizinhos gringos e pensando que com todo esse ócio e tanta naturaleza fica pra lá de propício volta e meia bater essa onda psico-filosófica. O pós adolescente argentino se joga na piscina e a mãe ralha mais alto sobre o almuerzo, e a iguana se esconde apressada no ralo porque lá vai o Paco e tudo transcende menos o instinto.
Thursday, February 15, 2018
Reset
Bora se perder de vez para ver no que dá, donde fica, como é. Me perde que eu te perco, se perde de vez desse eu aí que você trouxe para mesa e traz outro, eu trago outra e a gente cozinha tudo de novo, aperta essa massa, assa a carne por fora e se deixa cru por dentro, sela esse medo e se faz ceia à mesa. Vamo parar por aqui, dar um basta nisso tudo que já foi e começar do começo, tudo de novo só com novo sem nada repetido. Tira a mão do bolso, descalça os pés, abre esse peito e vem cá, vamo lá, bora juntos. E se tudo pode ser diferente que seja, infinito enquanto dure, inteiro até o talo, que não sobre nada de fora, que não nos falte alento, que nos demos tudo que temos um pro outro sem freio de mão, de pé, de cuca, de peito. Que seja longo, que passe lento, que vibre lindo.
Thursday, November 30, 2017
Um Corpo
Quanto Cabe em Teu Peito
Noturna
Sobre os Prazeres
Monday, October 23, 2017
A Estrela, a Nuvem, e o Raio Roxo
Friday, August 18, 2017
Impressões Matinais
Wet Suit
Tuesday, April 11, 2017
Diabo
Saturday, April 01, 2017
Sobre Grandes Amizades e Despedidas
Sunday, March 19, 2017
Ressaca
Acordei cansada depois de uma noite de insônia, na dúvida se me jogava no mar. O verão termina amanhã mas o inverno já chegou - dormi pela primeira vez sem ar condicionado e despertei para uma manhã cinza e chuvosa. A insônia deve ter sido o prenúncio do tamanho das ondas que me esperavam. Desci para encontrar o pneu da bicicleta furado e sai descalça mesmo pela rua, andando contrariada até a praia. Odeio andar, não tem movimento humano que me dê mais preguiça, acho chato, me põe para correr, nadar, pular, voar, saltar, pedalar, dormir, qualquer coisa menos andar, pedalo mesmo que seja menos de um bloco. Mas lá fui eu com meu pé-de-pato e handplane em mãos, já ouvindo piadinha dos meninos do Big Polis, Edilson debochado como de costume (deve ser karma do nome) me gritou de longe, “que isso aí, hein, dona Chica, standup de boneca?” enquanto os coleguinhas caiam na gargalhada, dei um tchauzinho sacana com um sorriso enrustido e lembrei da minha bicicleta que não dá tempo para essas intimidades. À meia quadra do mar já ouvia o barulho das ondas, elas soavam como prédios implodindo e uma brisa fria com garoa arrepiou toda minha espinha em câmera lenta. Andei pela orla e fui parada mais duas vezes para explicar a tal da pranchinha de mão de madeira, interagi com sorrisos enquanto alimentava em silêncio o saudosismo nostálgico da minha tão querida amiga silenciosa, bicicleta. De longe avistei as ondas do pontão do Leblon, fui andando e contando as tantas cabecinhas dentro d’água, quatorze surfistas, cinco bodysurfers e um fotógrafo. Já na areia me surpreendi com a força e tamanho de algumas séries, o mar estava grande, selvagem, o dia frio, minha cara amassada, minha noite mal dormida e nenhum conhecido para me entusias-mar. Pensei, repensei e me falei o que sempre falo quando o mar me assusta, “não precisa pegar onda, só de estar lá no fundo com o mar assim já tá valendo o desafio.” Me aqueci, pedi licença e fui. Tenho a política da boa vizinhança quando entro na água, sou só sorrisos e distribuo bom dia para quem me olha, mas os rostos pareciam aflitos e meio confusos com a minha chegada. Um bodysurfer chegou mais perto e perguntou se eu era do Rio, que por aqui só tinha mais uma ou duas meninas que ele tinha visto pegando onda de peito em mar assim. Um outro bodysurfer voltou assustado de um caldo, “caracaa, voei uns dois metros no ar só para ser mastigado depois, o mar tá sinistro!” Eu esperava ainda o momento certo. O outro apontou para a galera nas pedras, na areia e no mirante do Leblon assistindo, “com esses paredões dá até plateia.” Lembrei que não estava sozinha, que eles também sentem medo, que faz parte, e mais do que tudo me assegurei no quanto me sinto confortável a me adaptar às surpresas do mar, me preparei para isso. Fui fazendo amigos. Depois que peguei a primeira bomba os meninos começaram a gritar para eu ter prioridade nas outras em que eu estava melhor posicionada e comemoravam quando eu voltava de uma boa, nessa brincadeira peguei cinco ondas lindas em uma hora de mar. Me chamaram para surfar com eles na laje de Ipanema, contaram do whatsapp de bodysurf, mas acabei saindo da água morrendo de frio e com o estômago resmungando de fome. Encontrei um dos surfistas com a prancha quebrada na areia, inconsolável.
Cheguei em casa e recebi essas fotos, a cara não tá das melhores mas acho que condiz com o que eu vinha falando aqui. Mas sobretudo fico muito agradecida pelo momento compartilhado com novos amigos e feliz por ter coragem de alçar meus voos com consciência e disposição para conquistar meus espaços.
Thursday, March 16, 2017
Calçadão
Monday, March 13, 2017
Fila de Banco
Thursday, March 09, 2017
Sobre as Tristezas
Tuesday, February 28, 2017
Minha Carne É de Carnaval

O Rio cheirava mal. Pedalei as duas quadras até a praia atravessando um túnel de brisa estagnada. Um vento morno reluzia no contraluz a fina camada ressecada de suor e mijo no asfalto, pele árida de uma cidade em rebordosa. O dia raiava. Enquanto eu despertava minhas pernas a cidade ainda estava acordada desde sexta-feira e hoje já é terça. A praia, refúgio de zumbis, se tornara acampamento de mil ambulantes e bêbados já não tão engraçados. Não sobrou glamour, talvez um vestígio nas penas roxas de um cocar grande demais para cabeça do mendigo mal dormido. Uma senhora gorda sentada no chão do calçadão gritava nervosa no telefone que já tinha mostrado tudo que tinha no uatszap, o que mais ele queria? Duas meninas bonitas desfilavam sem pressa seus peitos pintados e maquiagens borradas. Um turista ensopado abraçava uma traveca com meio mamilo exposto e um fio dental que não deixava dúvida nem para os mais desavisados. Eu pedalava invisível dentre bandos de pivetes estranhamente conformados e foliões vencidos pelo cansaço e álcool. O Rio cheirava mal como as penas de um urubu velho, faminto e exausto. Eu olhava para cidade suja e queria lavar seu rosto, enxugar suas lágrimas e limpar o resto de vômito seco que sucumbiu a mais mil goles de álcool fermentado. Ainda assim gaivotas distraídas voavam rente ao mar hoje tão escuro quanto os buracos cavados na areia pelos cracudos de Copacabana. Eles pareciam felizes, os cracudos, curtiam a onda debaixo de coqueiros secos e areia quente, tinham banheiro, motel, cozinha, tudo à céu aberto, faziam ali uma zorra total daquele bairro antes burguês agora cheirando a rebordosa e lixo. Um bebê nu batia no vira-lata preto amarrado a um dos coqueiros, os cracudos riam. Um bombado tatuado cambaleava pela ciclovia em toda sua grandiosidade, seus músculos anabolizados, inchados de água e ar, pareciam prestes a desinflar frente a mais pequena agulhada de uma seringa usada, contaminada. Uma mulher gargalhava no telefone aos berros, “eu tô é no calçadão de Copa, cabrita.” O Rio cheirava a peixe podre e cerveja quente e não havia vestígio da beleza que eu fui buscar me madrugando para o dia. Pedalei por alguns quilômetros sem sinal de uma alma sóbria e rezei calada para que chovesse muito, chovesse forte e lavasse cada rua, todo o asfalto manchado, que o céu chorasse seu mais exausto choro e quando já me perdia nessa imagem de enxurrada me deparei com o despejo humano largado pelas calçadas, lembrei do lixo acumulado pronto para escoar e entupir cada bueiro, deixando para o sol o desgosto de ferver essa sopa de dejetos e detritos num caldo ainda mais fedorento dos nossos restos. Mudei de reza e pedi para que quinta-feira chegasse logo. Às sete a rua fechou e fugi da camada de areia presa à ciclovia, armadilha para derrapada. Uma das cinco senhoras andarilhas, perdidas na manhã carnavalesca, gritou enfadada por eu estar pedalando na contra-mão da rua fechada, achei bonito que em meio ao caos ela ainda pudesse se preocupar com a minha direção. Já no retorno, entrei na minha rua e me deparei com um corredor bem-ajambrado de porteiros uniformizados lavando as calçadas mijadas em uma coreografia digna de Xixiland, um já suado gritava sem riso “esse cheiro dos infernos não sai nem por um...” A carne pode até ser de carnaval, mas o Rio, coitado, não fica igual.







