Saturday, October 29, 2016

O Menino e o Mar

O mar levou o menino. Ele que cresceu nessas águas, que conhecia cada pedra, cada canto, cada entrada e saída, se perdeu em um golpe do destino em meio a maré-baixa e passou a noite com o mar até encontrar seu pouso na praia onde sempre surfava. Foi Justo uma prancha, não a sua, mas uma prancha que veio em voo céu afora de encontro ao seu corpo. O menino afundou e não voltou mais.
Andava por aí com seus olhos puxados sempre brilhando, pele marrom-café da cor dos tubarões que dizem nadar por aqui, sorriso largo cheio de amor, e uma energia branca, limpa, sem o peso da maldade. Semana que vem ele faria dezessete. descansa em paz, menino bom.💫

Friday, October 28, 2016

O Que Vem Depois

Não te disse o bastante quanto fui feliz com você, preciso deixar marcado dentro do seu peito a sua força na minha vida, a importância do nosso encontro e dos tantos momentos incríveis vividos. Só guardo da gente o bom, só guardo de você amor. E foi lindo demais e ainda é e vai ser sempre te ter na minha vida. Nada diminui ou apaga o seu impacto em mim. Obrigada por existir, por cruzar meu caminho, por compartilhar tanto amor, por ser inteiro sempre e maravilhoso como ninguém. Te amo para sempre. Te desejo tudo que você pode sonhar e muito mais. Te guardo para com todo apreço no lugar dos afetos raros. Você é incrível e merece o mundo. Se cuida. E tô aqui sempre que você precisar. 

Monday, October 24, 2016

Desbravadores

Achei que ia ficar mais sozinha mas tá difícil não fazer amigos novos todo dia e mais ainda alimentar as amizades já feitas. Em cidade pequena todos os caminhos levam à encontros, uma passeada de bicicleta, uma ida ao mercado, um almoço por aí, uma tarde no mar, sempre acaba por virar esbarro que vira plano que vira tempo simples junto. Aqui nos encontramos para contemplar e conversar sem muito fru-fru. Imersos na simplicidade de tanto verde e azul, as horas passam assim, em meio ao barulho do mar, histórias contadas, muita risada e quase nenhuma grana gasta. A casa também não ajuda, é meu ponto de encontro comigo mas também com os outros, estacionada maravilhosamente no pico do pico, gera um tráfego constante de passagens para papear e deixar o tempo passar - a varanda tem sol ameno e brisa fresca, a cocina convida quem ama cozinhar, a casa toda tem uma energia solar, e tem as redes também, a churrasqueira, o bosque e seu passarinhos, as árvores dançando com o vento, as iguanas e agora Jasper e Million, dois cachorros com donos viajando, que mais adotaram a casa do que a mim - agora tenho cães de guarda, apesar de um ser um chihuahua. Ganhei o costume de ter sempre a ducha ao ar livre, uma toalha e um café para os amigos que vem direto do mar, tudo o que mais me conforta quando eu venho de lá. Aliás, sou puro conforto ultimamente, me conforto muito e a quem encontro tento também. 
E na medida que as amizades se aprofundam, todas histórias tem um ponto em comum, como um triângulo das Bermudas de viajantes de todos os cantos que querem se jogar em mais mundos do que os mundos do que já tinham antes e cada um busca com gana seu próprio formato. Terra de desbravadores. Queria querer ficar mais sozinha, mas tá sendo tudo tão bom que resolvi parar de querer e deixar ser. Mesmo porque seria um desperdício desencontrar.

Tuesday, October 18, 2016

Hippie

Chove muito desde a madrugada e ainda não sai de casa. Depois do banho na chuva com sabão debaixo da lua cheia ontem, resolvi fazer o inédito aqui e tomar um banho com xampu e tudo de manhã, mesmo sabendo que já já vou mergulhar no mar. Xampu digo o tal de "poo", porque inventei de experimentar cosméticos naturebas e ver no que dá. Então xampu agora é bicarbonato de sódio e condicionador vinagre de maçã diluídos em água, escovar os dentes termina com cúrcuma e óleo de coco para clarear, desodorante é limão em dias de chuva e bicarbonato com óleo de coco em dias de sol, hidratante para pele só óleo de coco mesmo, e hidratação capilar é banho de óleo de rícino com óleo de coco ou às vezes jojoba no cabelo e rosto. Cheiro a óleo de coco e limão. Daqui a pouco viro parte da terra.

Sunday, October 16, 2016

O Esquilo Maligno

A guerra continua, a guerra de um homem só. Na verdade de um esquilo solitário com um quê de psicopatia. Anteontem foi de uma coincidência tão absurda que beirou a ficção (ou a paranoia), quando vi reais traços perversos em um tão singelo roedor. Andando pelo bosque da casa com uma amiga, contava sobre a aparente hostilidade do pequeno animal silvestre e o último incidente do xixi aéreo e arremessos de amêndoa, foi quando começamos a ouvir a movimentação cabeça acima, olhamos para a copa das árvores já estupefatas com o suposto “stalkeamento” e rimos da própria paranoia quando vimos um pássaro preto brincando nos galhos, gargalhamos felizes, bocas escancaradas, abertas ao léu e veio então, como uma punição divina, o maldito jato grosso de mijo em céu azul perfeitamente mirado sobre as nossas cabeças – fechamos as bocas a tempo. Em choque, avistamos o demônio lá no alto já preparando seu segundo recurso de batalha, amêndoas, uma pequena mordida, assinatura do psicopata, e logo um tiro certeiro sobre a gente. Na terceira voltamos às pressas para a varanda coberta, indignadas com tal ousadia. Durante o dia o assunto voltava, ainda em choque com tal desarmonia de convívio. Dormi às oito e acordei às cinco com estampidos vindo de fora, soava como pedras jogadas no telhado da varanda do meu quarto, um estampido pesado e seco na telha de metal. Levantei receosa e abri uma pequena fresta da janela só para me deparar com uma amêndoa mordida rolando telha abaixo. Chucky descobriu onde eu durmo?

Saturday, October 15, 2016

Hay Caca Aquí

"hay caca aquí"💩, yes there is. The first time I stepped on this beach, I saw an American girl with a big dog walking past me, the dog stalled and took a massive shit a few feet away from where my sarong was laying while staring me straight into the eyes with a relieved smile. After it was all said and done, I asked her politely if the dog was hers and told her it had just pooped. She smiled and said "that's how they do it out here", reinforcing that it was a cultural thing. I looked at her puzzled and let her leave without further ado, while I was left with a mix of cultural shock and contempt, but also understanding that I didn't come here to fight for what I believe. I'm tired of fighting. So, si, niña linda, hay caca aquí. 

Monday, October 10, 2016

A Volta

Cheguei na cidade como se eu nunca tivesse saído, os reencontros foram casuais como uma ida ao mercado. O caranguejo continua dormindo na mesma quina do banheiro e o esquilo solitário aqui do bosque deu mais uma clássica mijada direto do alto do pochote sobre a minha cabeça, com direito à três arremessos de amêndoa na minha direção, depois me olhou com descaso - ele já foi mais hospitaleiro. Alimento fruta às iguanas e ração aos cachorros perdidos que aparecem pela tarde, não rego as plantas porque em algum momento chove todo dia. No mais, fiz amigos novos já na minha primeira entrada no mar, meninos locais, pura-vida buena-onda e agora entro na água em bando com eles. Faço um funcional na praia com uma pessoal astral bem cedinho, surfo algumas vezes por dia e dou minha corrida quando a maré permite. Cozinho minha comida ou como casados de pescado por aí nas minhas idas e vindas na bicicleta vermelha. A casa da praia tem sempre música tocando, cheiro de café e fumaça branca, no momento falta água, mas isso é passageiro. Tenho feito tratamentos cosméticos com óleos e frutas e jogado linhaça e chia em tudo que é comida. Daqui a pouco tô dando nome aos macacos.

Wednesday, October 05, 2016

Sozinha

Viajo sozinha por tempo indefinido para uma cidade pacata em um país remoto, fora de temporada, em época de chuva e poucas ondas. Viajo sozinha para uma casa grande e vazia entre praias e montanhas e muitos bichos do mato.
Não tenho data, projeto ou plano. 

Saturday, October 01, 2016

But Now I'm Free

Fiquei olhando para o relógio, no meu trabalho espremo cada minuto para caber mais tempo. Fiquei olhando para relógio de pulso dourado deitado na mesa e pensei que não vou levar ele comigo. Pensei quantas vezes olhei para ele ansiosa, contanto os minutos, exigindo mais segundos do tempo, cobrando pressa para dar conta da demanda, tempo é dinheiro. Aí a música no fundo toca, “but now I’m free”.

Friday, August 26, 2016

Medo

Não se engane, estou morrendo de medo. Mas uma vez, contra tudo e contra todos, me jogo no mundo. Sigo adelante regando coragem em busca de algo que mora em mim e que ainda não sei como acessar sem movimento externo. Sigo com medo mesmo por caminhos indefinidos sem plano a longo prazo. Estou aberta ao presente e para onde isso puder me levar. Não quero objetivo, quero jornada. Me jogo ao léu disposta à tudo, mudar país, mudar língua, mudar cultura, mudar o que for se mostrando necessário, mergulho e mudo junto, é para isso que eu vim. E sei que não é fácil de assistir, dá vontade de julgar, de oprimir ou até descreditar. A minha coragem põe em dúvida muita covardia alheia. Eu me movo mesmo assim, me movo forte pela certeza desse chamado em grito que ouço no peito, é hora de ir de novo, de mergulhar sem fronteiras e descobrir aos poucos para onde leva o caminho. É hora do extraordinário, de não ter controle, de não medir destino, de dar um passo de cada vez, sem pressa de  chegar. É chegada a hora, e eu vou com medo mesmo.
(voa com cuidado, ama com coragem, te libertas para o mar infinito)

Thursday, August 18, 2016

Insatisfeita, Incompleta e Faminta

Vivo uma relação de amor saudável com um homem dedicado e companheiro, moro em um apartamento bonito em um lugar legal e tenho uma carreira sólida construída com muita determinação e amor, me encontro à beira dos quarenta tendo conquistado todos os elementos convencionais para um adulto vivendo na nossa sociedade contemporânea, ainda assim me sinto insatisfeita, incompleta, faminta. Sinto uma angústia enorme dentro do meu peito, como se eu não coubesse nessa realidade, olho para minhas roupas no armário, os gastos específicos no extrato bancário, o ser cool da zona sul, e acho tudo uma bobagem dentro desse meu momento. Troco as cifras por moedas estrangeiras. Não consigo me imaginar aceitando o stress e os temas que me cercam, sento na mesa dos mesmos restaurantes e acho tudo um pouco exagerado, fora de contexto, não acho tanta graça nas festas e noitadas badaladas, acho meio chato ser pop, cool ou in. Acho também a cidade linda, a temperatura amena, as cores do dia mudando deslumbrantes, gosto da minha casa, de comer bem, de conforto, dos meus amigos, do meu trabalho e do meu amor, mas não é o bastante. Ouço o chamado. Quero ter filhos, quero formar família, quero exercer e amar muito meu trabalho, e sinto que para chegar à esse lugar preciso atravessar um deserto de tudo isso. Descobri nos dois meses fora um lado meu mais calmo, mais paciente, suave, generoso, doce, e um bando de coisa legal que me fez mais legal para mim e para os outros. Encontrei uma frequência de pensamento, de resposta, de troca que me permitiu paz na escuta ao outro e a mim mesma. Destrinchei cerne de conceitos muito importantes para mim que não consigo ainda, por inabilidade minha, manter de acordo com tudo que sinto aqui em meio ao urbano. Sinto fome de mundo sem certeza, sem meta e mais caminho, sem ego, sem fama, sem olho por olho e dente por dente, sinto vontade de viver por alguns meses sem objetivo distante, só no presente. Não procuro encontrar o nirvana, também não é assim, mas quero ter agora uma jornada individual por lados meus que nem eu conheço, viagem sem data de volta nem plano à longo prazo, viagem para mergulhar no que o universo me oferecer e ver sem expectativa aonde isso vai dar. Tenho medo sim, bastante até, posso até querer voltar quando chegar, mas me sinto preparada com todas as ferramentas para encarar o que não sei com destreza. Estou pronta. E peço perdão pela quebra de quórum, perdão à tudo e todos que esperavam de mim outra coisa. Sinto mais do que nunca que serei sempre um humano muito feliz, cheia de entusiasmo para vida, mas também extremamente descontente, sempre atormentada com minhas questões filosóficas sobre quem sou e o que eu vim fazer aqui, como quero viver essa meu curto tempo na terra, quantos mundos cabem em mim? Vivo em ciclos, mudo de cidades, países e mundos internos, conquistando metas a longo prazo com compromisso e amor em cada lugar que escolho, mas sinto claramente o início, meio e fim desses ciclos eventualmente e a necessidade de começar outros. Será que inteligência emocional é saber fechar os ciclos com gentileza quando eles se findam e não estendê-los até uma quebra traumática. To tentando chegar lá. Tenho fome de experiências diversas, de culturas outras, de pessoas que pensem, falem, sintam diferente de mim. Quero agora mais do que nunca ter liberdade de viver sem controle do futuro, em outras cultura, outra língua, outro céu e mar, para que antes de me entregar ao ciclo dos filhos eu possa mergulhar de peito aberto e cabeça livre nesse ciclone que gira em meu peito.

Wednesday, August 17, 2016

Tenistas e Coronéis

Sair do Leblon me privou das conversas acidentais com meu grupo de coroas favoritos, digo conversa deles porque eu fico só de ouvinte na mesa ao lado, disfarçando num jornal sem graça meu interesse pelo papo alheio. Um ano e meio passou e mais ainda para eles. O Décio continua popular e controverso, vestido de tenista mas agora sem a raquete, a voz evidentemente mais rouca, falhando, mas ainda performático, despejando sua gama extensa de palavrões enquanto conta suas aventuras joviais. O Coronel permanece quieto, se mantém recostando na cadeira, barriga e Rayban, fazendo raras incisões de sarcasmo e poderio. O Ronaldo apareceu empurrado por enfermeiro em uma cadeira de rodas, e sem a companhia de sua cadela pug, Juliana Paes, morreu de velhice eu ouvi, mas pelo menos ele parece ter passado a ser mais festejado do que zoado, deve ser medo de destino similar. Dr. Paulo trouxe a esposa Beth, eu nunca tinha visto uma mulher sentada na mesa deles, ela foi embora entre risos e enxotadas logo que cheguei na mesa ao lado e não deu cinco minutos o Dr. Paulo começou a falar do nível de "vagabundice" das passantes mais voluptuosas. Hoje eles não beberam café, só água tônica ou gasosa Perrier, mas falaram das tantas mesmas coisas, brigas do condomínio, gostosas do clube, problemas dos filhos, se zoaram sobre velhice e morte e gargalharam das piadas do Décio. Hoje sentei ao lado deles e pensei que o tempo passa sem parar de ser ingrato, será que eles também veem que eu mudei?

Saturday, July 30, 2016

Acomodados

Perdão à quem julga, à quem acha que sabe, perdão se a minha liberdade põe em risco a sua falsa segurança. É mais fácil caber em convenção aceitando destino semelhante aos demais. É mais fácil olhar para o outro e decupar através do próprio juízo as escolhas alheias do que encarar com coragem suas ânsias veladas. O que você sonha no silêncio do seu escuro? 
Vivemos em sociedade, eu sei, existem expectativas definidas sobre os formatos possíveis. Tem coragem de quebrar esses formatos, de buscar no escuro do peito, mesmo sob todo risco de rompimento com as certezas, respostas que tornam o percurso mais incerto, escolhas que quebram o silêncio do conforto e te jogam no risco do indefinido? 
Cada um tem suas respostas, alguns não perguntam muito, melhor não questionar o que ainda é suportável, melhor aguentar do que encarar o desalento do indefinido. Perdão. Não quero te incomodar. Mas vou continuar buscando o meu caminho mesmo que não se encaixe no seu conceito.

Friday, July 29, 2016

Coragem

Há tempos penso sobre coragem, essa força que gira vontade do avesso e move montanhas. Sinto sempre na minha história esse chamado da coragem, um impulso de mudança e a sensação de preparo para enfrentar não só os ímpetos,  mas o medo também. Na viagem senti diariamente essa relação entre coragem e cuidado no meu encontro com o mar, essa vontade de conquistar o que me assusta mas com o cuidado de saber onde pisar, a demanda constante de se jogar mas de estar também alerta, atenta, de ser consequente - acredito na verdade que isso permeia todos os encontros. Ontem tatuei esse chamado, e pedi para o universo que eu tenha coragem e cuidado para seguir meu caminho independente do medo que assola o peito e o entorno. 

Monday, July 25, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 58o dia (last day)

Sento aqui no Panamá na mesa de um hotel phyno tomando meu último desayuno antes da volta ao Brasil, meu corpo ainda dolorido das ondas, o cabelo uma palhoça branca de tanto mar, pele marrom, sorriso para lá de largo com dente quebrado e peito pulsante. Mudei de corpo, mudei de cara, mudei de pele. Achei que ia fazer uma viagem de experiências fotográficas e acabei fotografando pouco e experienciando mais. Vivi tantas coisas que pensei que não ficaria pronta para voltar, mas estou. Volto tranquila e curiosa com o que está por vir. Descobri aqui outros formatos, outras prioridades, outras vontades e mais do que nunca ficou claro que o meu caminho não é para ser trilhado em busca de sucesso, status, fama, dinheiro nem conforto, percebi que a maior riqueza para mim é sair da zona de conforto, viver histórias, trocar experiências, compartilhar momentos, conhecer pessoas e lugares, me jogar no mundo. Descobri com o mar que não tenho medo dos meus medos, eles são nada mais do que sinalizadores dos desafios a enfrentar, sem inconsequência, equilibrando coragem e cuidado ao mesmo tempo. Sei mais do que nunca que a minha fortuna são os mundos que encontro e compartilho e toda liberdade e amor que vivem em meu peito.
Amo trabalhar, mas não quero alimentar angústia, quero viver do que amo mas também entendendo que preciso de tempo e espaço para caminhar, para sentir e mais do que tudo para criar, que não posso me afundar em demandas da carreira e viver só esse lado guerreira sem direito a suavidade e liberdade. Quero leveza, calma, equilíbrio, quero tempo. Preciso encontrar outro jeito de me organizar.

Monday, July 18, 2016

Ben

Mostly under dark light, your hands would caress softly my mountains and valleys, fingers running slowly through my skin, just to grab tight to a harder curve. It was always warm, they walked miles through deserts on my neck, dunes on my breasts, oasis on my belly, stopping only to wander around my thighs, high tides. On the hips they would take longer, rolling slowly down my hills, naughtily spreading out my cheeks just to find rivers that ran into cascades. And there were your lips, soft and adherent, laughter and kisses, lost my myself into its details every time I dove in it. And that was just beginning, a whole body came with it, a playground, my piazza, trees and ocean too. I surfed your waves, I duck dived into your sea, I swam your currents and found myself a shore. And it wasn't just the warmth of your lips, the strength of your hands, nor the stars in your eyes, it was the texture of your skin against mine, the dance our bodies made when in contact, the tastes and smells, the sounds of your voice in my ears. Cum, sweat, tears, blood and love overflowing through our every touch, loving every minute. It all resonates on echoes within.  close my eyes and can still feel you right here, inside me.

Friday, July 15, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 47o dia

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Me mudei para um hostel perto da casa da praia e a rotina também cambiou. Novos ares, mais macacos e cachorros e agora tem os galos também. Meu bangalô é de madeira, tem uma rede na varanda e um bando de passarinho cantante. Sinto de novo a vontade de ficar sozinha, vontade de pequenos encontros e mais silêncio. Tanto som para ouvir, eu prefiro o das ondas. É bom quando o tempo passa. Ainda bem que eu fiquei mais para não querer ficar tanto. Tudo tem seu tempo.
Hoje eu fiz meu segundo salvamento aquático acidental, pela segunda vez um homem grande, panicado, sendo puxado pela corrente. Nunca bati tanto a perna. Consegui no sufoco uma bodyboard emprestada de uma menina e usei como boia salva-vida. Eu gritava em espanhol para ele bater a perna e ele mal conseguia se segurar à prancha. A corrente levando a gente para as pedras e eu lá puxando o strap da prancha vermelha, batendo o pé-de-pato que nem diabo foge da cruz enquanto ele me olhava assustado. Quando chegamos na parte mais rasa uma mulher nos ajudou. Nem sempre o mar é divertido.

Saturday, July 09, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 42o dia


Million, the little chihuahua with Napoleon complex, has drastically changed his personality since his friend and so called "owner", Danny, left to Peru for five months. Million stays by the shore in front of the house checking to see if Danny may come out of the water, then he comes over by the kitchen and stays quiet, ears low, longing eyes, just staring adrift, probably wondering if Danny is ever coming back. Anthony, the nine year old boy, has left too but only to Monteverde for a week with his family and I find myself missing him just like Million misses Danny. How can such simple daily exchanges have so much impact? I really didn't expect to miss Anthony this much, but I do. I think he might have gotten back today, I saw his family's car back in the garage, perhaps, he'll stop by later.
Aside from that, I accidentally stepped on my foot after running for five meters and now I have a swollen and black ankle. Not being enough, I decided to grab some waves with just one fin, since my left ankle is pretty chubby and can't afford to wear one. After struggling like a mother fucker on the line up to paddle down a wave just with half of my legs' strength, I finally picked the perfect one, green, curvy and smooth, checked that is was clear, started going down with a smile inside, and that's when I was hit by a board and its American surfer who got late into the wave and didn't see me. All good, now I have a swollen head to match my foot. After a longer wait and some precaution, I went down a crappy little one and left back to the sand thinking that I really need to change my ticket and extend my stay two more weeks. Pura vida.

Thursday, July 07, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 39o dia

Eu gosto de aperto no peito, fiquei mais certa agora que doeu e sei que tá tudo vivo aqui dentro. Não tenho medo de angústia nem tristeza, tudo de passagem, sofrer é revolucionar, potencial de mudança. Vim para sentir, de todos os lados, terremotos e furacões, tempestades e calmarias, aguento tudo, quero mais. Gosto de mudanças. Não sei bem o que guardo tão grande em peito tão pequeno, mas sinto uma fome enorme, uma sede, essa avidez de sentir mais. Quero sentir. Quero me jogar sem saber e desvelar segredos, quero descobrir mil mundos que moram em mim, e sair por aí, me jogar sem olhar para trás. Quero mais mundo.

Tuesday, July 05, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 37o dia

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De manhã fui para o outside com os meninos e a Madisun e exercitei minha paciência. Costumo entrar no mar com fome, não converso nem espero muito, pego uma atrás da outra até não aguentar mais, exausta, sem prancha para boiar. Os meninos me chamam para curtir com eles entre as séries mas minha ansiedade me empurra jacaré onda abaixo.

Hoje fiquei. Hoje boiei em fundo verde, água cristalina, mar calmo logo atrás do quebra-mar. Boiei e vi céu azul com nuvens esparsas, bebi respingos grossos e finos de chuva, correntes diversas arrastando meu corpo para lá e para cá. Fiquei e tomei meu tempo, conversei, conheci pessoas e ao invés de pegar oito ondas medianas, escolhi três ondas grandes, longas e lindas. Sai do mar com um sorriso largo.

Cada dia me sinto mais segura.

Saturday, July 02, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 36o dia

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Corri na areia a contragosto, buscando energia onde só morava angústia. Me deitei na praia em frente de casa e deixei a chuva se misturar às lágrimas. O céu preto como o buraco em meu peito, dando nó apertado que vira tornado desgovernado, fiquei ali buscando caminho para me dissipar. Deitei na areia e chorei essa ânsia de mundo que mora em meu peito, chorei meus sonhos mais íntimos, meu desejo de vida e de histórias. Fiquei ali comigo tentando medir o tamanho do meu desejo. Quero mudar. 

E em cada encontro me encontro mais, descubro essa pergunta insistente que ecoa em cada troca, não paro de me perguntar o que eu quero de mim. Não tenho resposta exata, mas quebro a cabeça tentando encontrar maneira de encaixar todos os mundos que moram em mim, meu amor, meu trabalho, meu lazer e meu voo, unir todas as peças em perfeita sintonia, descobrir um caminho em que a minha frequência encontra paz, espaço criativo, e silencia a angústia infinita que me assola quando penso em me aquietar.

Tenho tido dificuldade com contratos, sinto as amarras das minhas escolhas, olho para tudo que criei e me pergunto para onde eu quero ir. Para onde eu quero ir?

Eu quero mais mundo. Eu quero acreditar que posso encontrar um caminho em que vivo em um sistema que me oprime menos e me inspira mais. Que há outras maneiras de se viver e de trabalhar e de ter lazer e de amar.

E se liberdade para mim é viver do que amo sem me tornar um instrumento de objetivos, sem precisar vender tanto meu mais precioso bem que é o pouco tempo que temos. Dias que correm e não voltam mais, tempo que fica para trás em pequenas férias e longos períodos de estiagem, deserto cálido em terra batida. Eu quero mais.

Como chegar lá?

Friday, July 01, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 35o dia

Anthony, the nine year old Peruvian kid and his baby bother have been stopping by to hang out. Just as his uncle Danny, he looks like a happy little Hawaiian. Yesterday we talked about flying dreams and modern inventions, today he wanted to tell me about the movie he watched last night. We hung by the shore watching the waves while I held the baby over my shoulders for a while. We talked about iguanas' tails and its caves and his surfing experiences. Anthony has a easy feeling about things, he thinks before talking and speaks slowly, soft and gentle, looking me straight in the eyes. He often asks questions and comes up with elaborated conclusions. Everyday he baby-sits his baby brother for an hour running his stroller around and playing with the animals on the bosque. Million, the little chihuahua with a rothwailler ego and full on Napoleon complex, walks with them chest high, king of the jungle, but makes the cutest face ever when he sees food, just to eat like a maniac a second later and try to sneak up on you with vicious bites after it gets dark. The trio comes around quietly and stays for a while. Corey, the hairy baby with big brown eyes, sits in silent on his stroller looking at things, he never complains or makes any noises, one time I saw him smiling. 

Tuesday, June 28, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 32o dia

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Mathieu fixed my water housing and left to Nicaragua early this morning to meet his girl who's also traveling the world alone. The day we met he figured out the problem with the water housing in between dubbies and great conversation. I had been breaking my mind and whosever I met to fix it. He fixed it and left. We didn't have a chance to get to play with it. People leave all the time in this village of mostly foreigners, they arrive too, but the leavening part it's always bittersweet.
I have two more weeks and it doesn't seem enough. It's that wondering feeling that's itching my skin, putting my heart adrift.
Should I go somewhere else?

Monday, June 27, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 31o dia

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Choveu bastante e considerei brincar na lama, mal súbito de velha infância, aqui tem dessas coisas.
O fim de tarde veio sem onda, foi assim o dia todo, e na fissura de um mar aberto nos jogamos no outside de peito e pé de pato. Pro lado da montanha nuvem pesada, cinza escura, não demorou a descer, veio sem raio nem trovão, só água mesmo batendo pingo grosso em mar chapiscado, sons, tons, cores, meu olho emoldurando tudo em foto. Senti falta da câmera. Fiquei ali em meio a ondas grandes e chuva forte vendo os meninos curtindo, rindo, vendo as tantas curvas e sombras do mar, vendo pequenas montanhas que se formam e explodem em avalanches de espuma branca, vendo mil variações de luz em cada movimento, vendo tudo tanto, e eu ali pensando que nunca mais vou esquecer esse gosto na boca de mar e chuva.

Sunday, June 26, 2016

DIARIO DE VIAGEM - 30o dia

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Leo and mike got the first bus to nowhere and left. Dave got the same bus but destined to Florida. And then they left.
The day I met Dave things changed drastically without any try. Until then I had chosen a little loneliness for the mind and then it came Dave, with his unpretentious tenderness. Dave made me want to meet more people without realizing, and everyone I met through him has become part of my little family.
So life goes on and we stay, movemos adelante, no hurry or worries but with that sense that things come and go and some people you meet just stay in your heart.
So I'm sorry Dave, I know you're low profile, don't like much fuzz, and even less to be portrayed in pictures, but I couldn't help but trying to capture at least a tiny bit of the peace and greatness you give away, and I know no picture will ever capture even half, but I tried.
Much love in your path.
Adios amigos, hasta luego❤️

Saturday, June 25, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 29o dia

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Passei a noite estreitando meu relacionamento com um mosquito. Acordei seca de tanto sangue chupado, ele voando baixo, gordito que nem um cabrito bem mamado. Considerei matá-lo mas deixei ele em paz, cada um com seus fardos.
Levantei meio lenta, provavelmente fraca, coitada, depois de tão singela doação sanguínea.
Pela manhã o vento batia mais forte na praia, corria com pressa sob a areia. Fui entrando passo a passo na água, bem devagar, areia mexida no mar transparente formando reflexo de nuvem, espelho do céu. Entrei deixando a água subir molhando cada centímetro sem pressa. Fiquei ali submersa sentindo a corrente, pés ainda tocando o chão. Fiquei ali toda toda, achando que era uma boa hora para escrever poesia na mente. E de repente, não mais que de repente, senti o mar me sugar para o fundo como se fosse descer ralo abaixo, toda água sendo puxada da praia mar adentro, força monumental do que me parecia um mini tsunami, meu corpo lutando com esforço contra corrente sem a mínima chance de me segurar. Havia chegado a série do dia, e eu bem ali no coração da tormenta. Consciente da minha impotência, larguei o corpo na tentativa de guardar energia e deixei me levar. Eu de repente já lá no fundo, mar revolto, fúria de titãn. Lembra, não se desespere, lembra. Relaxei o corpo, olhei para os possíveis caminhos, vi três ondas grandes se juntando à beira de formar uma só a poucos metros da minha cabeça, me joguei junto adelante por baixo de toda sua força, me empurrando na sua inércia de movimento e em meio a muita espuma e explosão, comecei a voltar, precisei de mais três para chegar até algum chão. Foi puxado, literalmente.
Sai do mar de peito aberto, e rabo entre as pernas. Todo dia uma lição.

Thursday, June 23, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 28o dia


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O tempo passa rápido por aqui, dá um aperto pensar que não demora muito acaba. Nunca me senti em paz assim, não me lembro. Aqui da rede ouço os pássaros nas palmeiras e as ondas quebrando na areia, o mar subiu, o sol continua ameno.
Hoje não quero sair, vou ficar por aqui mesmo comigo e meus botões, muito agito tem sido, de repente me peço um certo silêncio. O esquilo desce sorrateiro o galho, outro dia deu um salto mortal e quase caiu na minha cabeça, tem coco também que volta e meia desce céu abaixo sem análise de risco, quando em vez ouço o vai e vem das motos checando o surf, surfistas em bando e sozinhos, mal fazem barulho, ficam só ali olhando o mar, o pico é quase dentro do meu bosque. Mudo de rede na medida que o sol muda de lugar, ouço macacos por perto com seu grunhido grave, uma família de cinco vive no entorno. Eu fico por aqui mesmo, sentindo a brisa, no balanço da rede e a calma que só encontro comigo.

DIÁRIO DE VIAGEM - 28a noite

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Gosto da cadência arrastada da risada do Dave, ele acaba de rir e sempre penso em pedir bis. Gosto do sorriso largo do Martin que enruga o rosto todo e sobra só o azul do olho, do charme da magreza francesa do Mathieu com seu bigode fino e olhos verdes, só falta a boina e o pincel. Gosto da doçura do rosto inteiro do Danny, e da piscina transparente que mora nos olhos do Ben. Gosto do olhar que penetra e te racha no meio da pequena Leo e do enigma nas poucas palavras do Tom. Vejo cada um em detalhe sem precisar prender muito o olhar, colcha de retalhos de pequenos retratos guardados na memória. Conviver é uma infinitude de afinidades e diferenças, cada dia um pedaço a mais se encaixa - ou desencaixa.
Hoje Il Principito nos brindou com um jantar improvisado para seis, comemos bem, falamos relativamente pouco, ficamos juntos sem precisar de muito, e mais uma noite se vai, mais um dia que não volta mais e fica, sem dúvida, para sempre.

Wednesday, June 22, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 27o dia

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 I realized today I've been back to dreaming in English, and thinking too it seems.
Today we added tree to our bunch and headed to Cabuya, Leo, our little Brooke Shields from Germany traveling Central America alone, Mike, a guy from her city she met a couple of weeks before, and Hayden, the tattooed Australian and his big SUV. We went over dry rivers and a small accident, a wry green forest and an open road of dirt leading to trails that lead to Cabuya.
Today I got into my first rock bottom break, thought was going to be worse but they were kindly smooth on the feet. All the boys were there and it looked easy enough from the outside. Well, I didn't really expect myself to go in but I did, I swam what showed to be easier than the beach break in Santa Teresa and I then found myself looking at them all there, easy faces, quiet, paddling slowly, seating back, watching the ocean pulsing, searching for the right time, the right wave.
I couldn't get any big waves, I almost dropped in on five but they all seemed they would close in and I could picture the rocks grinding at me on the bottom. I swam around for a while enjoying the moment, watching the boys in silent.
Right by the time I decided to leave a bit frustrated with my incompetence to paddle down the big ones, I finally realized I could get the middle set, a bit closer to the beach, a bit shallower but smaller waves, and even though I was already tired I made a point of going down two. I went down two waves on rock bottom.
It was a good day.

Tuesday, June 21, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 26o dia



Formei minha mini familia com os cinco surfistas que encontrei através do Dave from Florida, todos bem diversos dentre si: Martin "il principito" norueguês, nosso muleque piranha que se jogou no mundo cedo e por hora, agora aos seus 24 anos e lourice nórdica, parou nessa cidade, Ben, o italiano que vive mudando de continente de três em três meses, Matteo, o francês que já está viajando há quase um ano e meio sozinho pelo mundo e só tá começando, o próprio Dave que aparece menos porque surfa mais, e o Tom, um coroa norueguês para lá de maluco que não surfa mas volta e meia cola na gente e ainda estamos tentando decifrar, às vezes aparece o Danny, um peruano com cara de havaiano que é conhecido por ter o melhor restaurante de tacos da cidade e muitas muitas amigas...
A gente curte juntos entre sessões de surfe, dubbies e comida. Eles vão pro outside e dependendo do dia não consigo chegar lá, na fissura de mar eles entram em qualquer buraqueira.
Hoje o dia terminou sem surfe mas com a gente brincando dentro d'água, os meninos curiosos com meu madeirite. Mergulhamos, nadamos, tentaram descer algumas, mas sem pé de pato ficou difícil e por fim saíram todos da água e ficaram lá sentados na areia me assistindo pegar onda com meu brinquedo. A praia vazia, o mar revolto, só eu na água e eles ali sentados assistindo. Queria ter tirado uma foto desse momento, acho até que devo ter tirado com a minha mente para sempre.
Desci umas merrecas divertidas, eles cheering from the outside, achando tudo o máximo e eu ali pensando na doideira daquilo tudo. Eu que vim para cá para ficar sozinha, até quem sabe para aprender a surfar com prancha, termino meu dia performando jacaré onda abaixo, assistida pelo meu pequeno bando de surfbuddies, cada um na sua e todos juntos querendo aprender meu bodysurf.
Terminamos jogando frisbee e batendo uma bola para lá de ruim no por do sol que não veio mas que valeu mais a pena do que muito futebol de areia maneiro que já joguei.
O dia foi lindo. E cada vez mais, tenho achado ser feliz bem simples.

Thursday, June 16, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 19a tarde


Fui dar uma olhada nas ondas aqui na frente de casa e encontrei com o Dave from Flórida, surfista das antigas lá para os seus 50 anos que me lembra uma versão albina do Crocodilo Dundee, corpo de touro, cabelo branco até o ombro, olho azul quase de vidro, rosto enrugado do sol, pele cheia de sarda queimada e uma cara de gente boa até dizer chega. Em cidade pequena nenhum rosto é estranho.
Daí que passa um amigo de Dave a la Tarzan, barba e cabelo grande, peito de rei da selva e começamos a conversar sobre as ondas, Tarzan estava voltando do mar depois de uma hora e meia remando e as ondas fechando, não pegou nenhuma, estava cansado. Falavam que ia estar maior lá em cabuya, Dave falou que já ia com os amigos de quadriciclo, quando Tarzan respondeu que não tinha huevos pra enfrentar ondas tão grandes. Fiquei pensando nisso, eles também sentem medo. Aqueles homens enormes, preparados para gigantes e trovões, leões marítimos, sentem medo. Tarzan se foi e eu falei pro Dave da solidão de entrar sozinha no mar, respondeu dizendo como era bom olhar pra um amigo e dizer "we gonna die" para logo depois sair do perrengue rindo. Ele também pensa "we gonna die"...

Fiquei pensando nessa muralha viva, cheia de correntes e ondas surpresas, series longas, caldos mais longos ainda e esse desejo comovente de enfrentá-lo, de aprender incessantemente essa harmonia inconstante entre o medo e a conquista. 
Dave foi para Cabuya e eu fiquei mais segura por não ter medo sozinha, de saber que todos nós ali juntos e separados passamos por momentos de alerta e entrega o tempo inteiro, que o mar vai ensinando pequenas e grandes lições a cada braçada, cada mergulho, cada onda descida. Agora confortável com meu medo, me sinto mais preparada pra me jogar. (Calma, mãe, lembrando, perspectiva de semi-anã)

DIÁRIO DE VIAGEM - 19o dia

Tenho dormido com um caranguejo. Acredito ser sempre o mesmo, basta alguns segundos da porta do quarto aberta e ele volta para a mesma quina fria do banheiro, o ponho para fora antes de dormir mas na noite seguinte lá está ele no mesmo lugar, já é a quarta noite, daqui a pouco tá ganhando nome, diz o Pedro que já já eu to chamando bola de vôlei de Wilson. 
De fato passei a ter relação com as coisas, por aqui cada encontro deixa um rastro, seja com as iguanas comendo as cascas das frutas que separo para elas, com os dois cachorros perdidos que passam no fim da tarde, com o garoto local Danny e sua morey boogie ou com Silvio Berlusconi, o papagaio que vem tomar café comigo, todos são encontros que ficam. 
Não faço planos, os dias andam em aberto, malho cedo na areia num treino muito doido que descobri daqui, às vezes alongo, as vezes medito, às vezes corro, ou pego onda até dar vontade de fazer outra coisa, tem dias que tomo três cafés diferentes e almoço quando dá na telha, como peixes, frutas, sementes, grãos, óleo de coco, daqui a pouco cresce cabelo debaixo do braço (calma, não é para tanto). Vivo descalça ou de bike, sozinha para lá e para cá desvendando minhas coisinhas, quieta dentro d'Água com meu pé de pato em meio a mil surfistas.  Faço amigos queridos, nos encontramos, mas busco constantemente a solidão. Tenho gostado bastante de mim.

Wednesday, June 15, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 18o dia


Os meninos viajaram norte hoje cedo em busca de um swell que tarda em entrar, quase quis ir só por fome de estrada, mas envolvia dormir em barco pequeno e desempolguei antes de levar mais a sério a possibilidade. 
Fiquei sozinha com a casa de varanda para o mar, eu e a casa, as palmeiras, as iguanas e macacos, os esquilos, as corujas, os cachorros soltos e um milhão de caramujos. Na iminência da ausência faço novos amigos, a bicicleta vermelha com a cesta enferrujada me demanda constante calma e cuidado sob as crateras e poças de terra batida, nunca gostei de pedalada lenta, ultimamente ando adorando. Tem a rede colorida com vista para um céu de palmeiras e os livros velhos da estante deixados por antigos viajantes, tem também meu pé de pato havaiano e meu madeirite que me auxiliam no estreitamento da relação com o mar, sem eles aqui não teria passado do flerte. 
Ontem passei o dia com o oceano, dediquei a tarde a ele, entendi melhor as mudanças de cor sob o leito inconstante de verde e azul, os ciclos de tormenta e calmaria, senti mil vezes as séries passando sob a minha cabeça, eu sentada lá no fundo no chão de areia, brincando de prender o ar sem pressa, de sentir o resquício dos gigantes penteando meus cabelos com sua espuma enfurecida, eu sentada no chão, mão presa a areia, mundo marinho, conchas e peixes. 
Ontem peguei a maior onda da minha vida. Vi ela se formando enorme, verde que te quero ver, crescendo macia milimetricamente posicionada para meu corpo descer, ela me olhando dentro do olho e me chamando em sussurro. Respirei fundo no centésimo de segundo que tive para tomar coragem e fui preparada para ressaca abaixo, fui segurando o corpo firme contra sua força, e foi quando ela me mostrou com ternura sua curva mais íntima,  ela quebrando perfeita, meu braço direito para fora dela pressionando o madeirite contra seu côncavo, meu corpo sendo suavemente projetado metade para fora, eu ali de olho aberto vendo tudo, descendo alucinada o que para mim parecia um desfiladeiro macio de água salgada, eu ali planando em perfeita sintonia, dividida entre o dentro e o fora d'Água, meus dois mundos favoritos unidos em um só acontecimento, eu ali tão feliz, e assim suave como começou ela terminou. Peguei mais vinte. 
Namorei o mar até o sol se por, eu e ele lá, horas e horas em silêncio nos contando segredos, mostrando detalhes, formas e cores, o sol se pondo, meus dedos enrugando, e uma sensação de sintonia completa com esse planeta. 
(PS: calma mãe, elas eram enormes na perspectiva de uma semi-anã)

Sunday, June 12, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 16o dia (dia dos namorados)

Chove desde que as meninas foram embora, meu egocentrismo me faz acreditar que os dois eventos estão conectados.
Voltei a dormir depois do café na companhia de duas moscas e acordei suada. Lembrei do mar, do céu e me levei com pressa até a praia, me joguei de pé de pato nas marolas da beirada mas não deu em muito. Hoje o mar não estava para peixe.
A chuva voltou a cair, apesar de lá no horizonte o céu estar azul. Decidi mover minhas pernas rápido sob ondas rasas até cansar, mas me distrai com pedras semi-pirotécnicas e acabei esquecendo da chuva, da corrida, e me dediquei a elas. Catei, lavei, examinei, separei uma de mil, a praia vazia, só tinha eu. 
Voltei devagar, decupando a uma de mil  com o tato, punho cerrado, dedos devassando cada centímetro frio, quase afiada. 
Sentei com ela na areia molhada debaixo de chuva em frente de casa, nós duas ali olhando o mar, imaginando o que cada uma tinha passado (meu egocentrismo de novo falando). Nos alongamos, meditamos e quando eu estava quase indo embora, resolvemos ir juntas para casa. Amiga nova.
Essa vai comigo até a Gávea.😳❤️

DIÁRIO DE VIAGEM - 16a noite

A mudança de casa me trouxe dois amigos novos. Música folk se mistura com o som das ondas e da colher de pau em panela no fogo. Da janela da cozinha todos os tons parecem graduais de azul e verde. Spanish por favor, around here they speak English. As ondas quebram ali na frente enquanto o céu vai roseando. Dois ventiladores dançam com o vento para lá e para cá, eu gosto do som. Eles gostam de chia, linhaça e meditação. Pela manhã fazem duas horas de técnicas avançadas de respiração no estúdio de yoga vazio em cima da casa. Ouço baixinho o som da cítara saindo da caixa de som lá em cima. Espero ansiosa um convite. 
Faca na tábua, pingo de chuva, cebola que grita enquanto frita, água caindo da torneira pesada. Tommy cozinha o jantar enquanto Pol empunha o violão sem tocar, imitando comicamente seus pais filipinos. Pol é um showman zen, Tommy é mais quieto, e eu surpreendentemente falo pouco ultimamente. 

Saturday, June 11, 2016

Diário de Viagem - 15º dia

Hoje o mar acordou do avesso, maré alta logo cedo desafiando o comodismo das semelhanças, meu peito com ele embrulhou e transbordou sentimento de todas as cores. Noa se foi e com ela um bando de mundo, eles se foram e outras portas se abriram. Bateu uma tal de angústia, tristeza também, cortinas de fumaça para o medo que mora por trás da coragem, tormenta de emoções avessas, contrárias mas congruentes. 
Hoje eu mudo de casa. Eles se foram e o mundo se abre. 
Às vezes me dá um enorme aperto no peito, ainda estou tentando entender, deve ser dor do osso quando cresce, ferida que coça em processo de cura, será? 
Começo a me deparar com sensações primárias, vontades simples, desejo do anti-complexo. A viagem segue e eu sigo junto, corro e paro, nado, caminho. Vasto mundo. Vim para isso, para me encontrar com o que mora em meu peito, quiçá gasto meio diñero e fico mais tempo.


Friday, June 10, 2016

DIÁRIO DE VIAGEM - 14º dia (meu aniversário)

E se meu peito for feito de terra batida, cerne gradual de tantos verdes, nenhuma folha é igual. E se for também feito de mar que me entrelaça em suas correntes, assolada de céu, mergulhada em brisa amarela de fim de tarde, dormindo com a chegada das estrelas, sorriso para lua de prata, luz do luar. E se cada tronco, cada pedra, cada concha for nada mais do que extensão do meu peito transbordante de ondas e estrelas do mar. E se o ar me cai melhor ali no fundo, submersa, entornada de azul e cor, desvendando mistérios aquáticos, mil léguas submarinas. E se sou na verdade isso tudo, corpo que voa em braçadas largas, teto de nuvem, raio roxo de sol tardio, já descansado, pronto para assentar qualquer nó no peito. E se o grunhido dos macacos, o canto de cada pássaro, aquele branco e azul anil que posou em meio a café e mel hoje cedo, posou ali ressabiado, me encarou dentro do olho, disse tudo em silêncio sem nem tentar, sorriu duas vezes, bicou o pão, e se jogou em céu vasto. Eu ali debruçada em maré baixa, noites quentes, ventos febris, manhãs demasiadas tempranas, dias arrastados na música lenta do balanço do mar, e eu ali, repleta de mim. Ah mar.

Tuesday, April 05, 2016

A concha e o Caramujo

Todo dia quando acordo mergulhada em sua temperatura, encosto sola do pé na tua pele e afundo em textura de sono leve, despertando enrolada de sonho, preguiça espreguiçada. Todo dia você caminha levemente a palma da mão sobre minhas costas, minha bunda, e a gente ainda de olho fechado se aperta rindo, se amassa sem pressa antes do dia ruir luz pelas nossas frestas. Você me puxa para perto, me envelopa de lado, meu porto seguro. E em concha a gente fica, eu de caramujo no refúgio, quieta em teu canto, gargalhando por dentro, nessa ternura que mora em seus braços. Mais tarde na sala, logo antes de você ir pro mundo, te assisto aí na mesinha de madeira, luz da manhã hoje nublada derramada no seu rosto, pescoço, torso, te vejo me olhando e te olho mais fundo, percebo o profundo nas águas rasas dos teus olhos e te amo mais ainda.

Friday, February 06, 2015

SOBRE O SUCESSO (Uma História de Amor)



Já flertei com a fama, já brinquei de status, participei das festas mais glamorosas ouvindo orgias no quarto ao lado, sei quais são as alianças importantes e os contatos fundamentais, e tendo virado adulto em plena Hollywood, conheço bem os perigos do sucesso. 

Tive o carro da hora, a casa, o namorado dourado, o dinheiro que sobra e empilha, o trabalho que todo mundo acha o máximo - e mesmo assim me sentia sozinha. Você pode conquistar o mundo e nunca ter o bastante.

Lembro quando quis trocar meu carro simples demais para os vallets de LA e meu namorado rico e bem-sucedido me disse, “cuidado com o status, ele é perigoso”– não troquei, quer dizer, só um ano depois quando nos separamos, e descobri que o problema não era os vallets, muito menos o carro. Volta e meia lembro daquela frase.

Voltei pro Brasil em busca de algo que nem eu mesma sabia - achei que era temporário. Queria um pouco mais de calor, abraço apertado, nadar em mar verde, falar besteira com amigos antigos, beber um sakê no BG, ou um coco que não fosse de caixinha.

Achava que havia encontrado minha casa em Los Angeles, que nunca mais deixaria de viver fora, e como a gente acha um bando de coisa até viver o contrário do que achava e ver que estava tudo errado. Como eu podia ser mais feliz e nem sabia.

Vim para o Brasil e entrei na mesma roda, trabalho trabalho trabalho, jogo de alianças, egos e status, atire a primeira pedra quem não sabe do que eu tô falando.

Cheguei e quis crescer, queria ser dona do mundo, empolgada pela empolgação alheia, vi num mundo para lá de competitivo minha nova casa. Mas é um mundo difícil, feliz de quem tem garganta para descer num gole só, para mim não é raro descer rasgando goela abaixo. 

Não me entenda mal, amo muito meu trabalho, amo tanto quanto sempre amei ser atriz no palco e não fora dele. Minha vida sempre foi contar histórias. Amo decupar um texto, conceituar formatos, fazer parte de reuniões com uma equipe de mentes pensantes em prol de excelência, amo estar no set e trabalhar em conjunto curtindo cada minuto, e mais do que tudo, amo trabalhar com atores e diretores que admiro, acho mágico fazer parte desse processo criativo de uma história. E ponto final.

Digo isso por que acho que de resto é tudo uma baita besteira. Quando a demanda termina, me desamarro e vivo a minha história separada do todo, e ela não tem nada a ver com status.

Já em Los Angeles mentia sobre minhas férias, ninguém aturava saber da vida de uma mulher que viajava pelo menos quatro meses por ano sozinha para lugares remotos sem nenhum outro plano se não descobrir o que não sabia. No Brasil encontrei a mesma conjectura, quantos foram os colegas de trabalho me confidenciando na encolha que minhas fotos felizes al mare ou in love geravam inveja e energia negativa, “guarda para você”, me davam a dica embasada.

Comecei a me perguntar bastante que mundo é esse que eu tinha escolhido viver desse jeito.

E aí veio o Pedro. Não podia ter sido mais a contragosto. Todo o perfil colidia com tudo que eu tinha aprendido, afinal se apaixonar envolvia um pacote escrito a mão com uma lista infinita de qualidades e conquistas no qual ele não parecia se encaixar. Sim, sim, a tarde era dourada e o homem para lá de lindo, mas estava determinada a me proteger contra os males de um encontro “menor”, era hora de encontrar um parceiro para vida, e aquele garoto não parecia caber nos meus planos.

O Pedro veio de supetão. Já no primeiro encontro me desnorteei com sua série de defeitos discorridos em prosa enquanto o sol se punha, falou em risos sobre suas neuroses e limitações, me contou sem pudor seus medos antes até do primeiro beijo e não foi nada tímido quando tentou me abraçar pós mergulho. Não cedi. Eu sabia que não queria um encontro qualquer. Mas foi no segundo frio que eu não consegui esconder que veio abraço apertado demais, aquele que eu vim lá de longe para buscar no Brasil, ele me deu. E foi ali, já as onze horas da noite do dia seis de fevereiro, que sem perceber eu desabei em seus braços por segundos, minutos, horas que eu esqueci de contar e dali pro beijo foi um pulo, não demorou dois dias para eu entregar tudo. Lembro ainda sorrindo do meu pacto tácito de não beijá-lo de primeira no dia seguinte quando nos encontrássemos casualmente na praia, “não me exponho nem a pau,” e foi só ele chegar com aquele sorriso de orelha a orelha e olho apertado, puro brilho, que eu entreguei as rédeas e corri pro seu laço.

O Pedro veio quando eu menos esperava. Estava mergulhada em futuro quando ele me surpreendeu com seu jeito de estar aqui e agora e tudo foi mudando de forma. Bastava dar a mão que o dia clareava, ou fosse num dia estressado, uma onda juntos mar abaixo e eu mergulhava em beijos e gargalhadas. As noites a dois ficaram mais longas e os dias passando arrastado quando separados. E não dispersei, fui é mudando de foco. Ficou mais legal ser feliz em duo do que em festas badaladas, fui querendo brigar menos por tudo e amar mais, aos poucos fui secundarizando conquistar o mundo, olho por olho dente por dente, e querendo mais é viver um bem estar muito mais simples que eu havia esquecido. E fui descobrindo com o tempo que o jeito é fazer a mesma coisa de outra maneira.

O Pedro veio sem tentar mudar nada e mudou tudo. Com seu jeito de amar puro coração me apresentou a uma felicidade a dois que eu achava que já tinha conhecido mas não havia de fato vivido a longo prazo.

E se posso ser mais piegas ainda, e usar o terrível termo “amar é”: amar é saber que o caminho dele é dele e o meu é meu, que não temos que consertar nem salvar um ao outro, mas seguir de mãos dadas em busca da realização pessoal de cada um e esse é o nosso caminho junto. Que não existe um pacote, ou nenhum quesito em especial que gere felicidade se não um grande encontro real entre duas pessoas que estão de fato abertas a se conectar, crescer, amar sem nenhum outro grande motivo se não se fazerem felizes.

Hoje completando um ano de um encontro tão lindo, sei mais do que nunca que sucesso não tem nada a ver com ter ou alcançar algo. Sucesso é ser feliz.  Afinal, "fundamental é mesmo amor, é impossível ser feliz sozinho..."
            “Segue o teu destino,
          Rega as tuas plantas,
             Ama as tuas rosas.
             O resto é a sombra
             De árvores alheias.”

             Fernando Pessoa