Era para ser só mais um date despretensioso, pesquisa de campo da análise de arquétipos da minha biblioteca de vivências. Fui cheia de certezas de que ia dar em pouco, quiçá em nada. Nunca curti leitura de tarot, cartomante, nem em mapa astral eu embarco totalmente. Antes tivesse consultado para ter alguma pista de que daquele mato ia sair cachorro grande. Arrogante, achei já de primeira que tinha desvendado por inteiro – ao me deparar com tamanha gostosura, pisei na areia movediça dos preconceitos e não cheguei nem perto de conseguir mensurar o que preenchia tal serenidade. Mirei com erro e acertei no equívoco. Entendi tudo errado. Em meio ao mistério do que eu tinha mal enxergado, fiquei confusa, enfeitiçada. O busquei com bem menos sucesso do que esperava, quase desisti, sentindo que andava deveras ocupado, mas descobri que era preenchimento de si que completava o espaço. Depois que entrei, planei. Planamos juntos na plenitude do que não demanda esforço, do que é bom e fácil. Bonifácio. O Bruno é das pessoas mais elegantes que eu conheço. Vivo inebriada com a força gentil dessa potência de entidade entranhada nele. Deuso do meu Olimpo, anda em suspenso sobre nuvens baixas. Não corre nem quando tem pressa; sabe ser e estar presente como poucos; escuta mais do que fala. Quando elucubra, não se importa em ser interrompido, atropelado, ouve mais ainda calado, secundarizando o que tinha para dizer, desprovido da urgência da vaidade. Aprendi cedo a dar tempo aos seus tempos de fala, a não desperdiçar a sabedoria por trás de suas ponderações. É que ele é amante das pausas, dos silêncios, das profundidades, e quem acha que ele é sério é porque não desbloqueou o humor afiado que se disfarça no jeito quieto com que se carrega. É manso porque não precisa latir. Vai de pacífico à atlântico com a habilidade zen de quem transita da serenidade plena à atividade máxima sem uivo nem grito. Não ladra jamais. É tão grande por dentro que não tem necessidade de se impor. Tranquilo, assiste tudo com olhos de lince e ouvido de tuberculoso, mas prefere sentir do que dizer. E sente fundo, pensa mais ainda, e me dá esse amor com encaixe enzimático ao meu modo de amar. Eu, franca e libertaria (como o nome já diz), ele sereno e acolhedor (como o nome já diz); eu que tenho bocão e cabeção, ele que tem os dois maiores ainda; eu que sou galhofeira até o bagaço, ele que é sofisticado até quando galhofa; eu que já tentei criar três conflitos sem o menor sucesso porque quando um não quer dois não brigam e para ele a paz sempre é o melhor caminho. Para mim, ele é o melhor caminho. Oposto complementar a tudo que sou e preciso aprender a ser. E o nosso encontro me reensina o amor, me redesperta a inocência da vontade do para sempre há tanto esquecida, e o desejo de crescer junto de mãos dadas através do tempo sem perder a ternura.