Era para ser só mais um date despretensioso, pesquisa de campo da análise de arquétipos da minha biblioteca de vivências. Fui cheia de certezas de que ia dar em pouco, quiçá em nada. Nunca curti leitura de tarot, cartomante, nem em mapa astral eu embarco totalmente. Antes tivesse consultado para ter alguma pista de que daquele mato ia sair cachorro grande. Arrogante, achei já de primeira que tinha desvendado por inteiro – ao me deparar com tamanha gostosura, pisei na areia movediça dos preconceitos e não cheguei nem perto de conseguir mensurar o que preenchia tal serenidade. Mirei com erro e acertei no equívoco. Entendi tudo errado. Em meio ao mistério do que eu tinha mal enxergado, fiquei confusa, enfeitiçada. O busquei com bem menos sucesso do que esperava, quase desisti, sentindo que andava deveras ocupado, mas descobri que era preenchimento de si que completava o espaço. Depois que entrei, planei. Planamos juntos na plenitude do que não demanda esforço, do que é bom e fácil. Bonifácio. O Bruno é das pessoas mais elegantes que eu conheço. Vivo inebriada com a força gentil dessa potência de entidade entranhada nele. Deuso do meu Olimpo, anda em suspenso sobre nuvens baixas. Não corre nem quando tem pressa; sabe ser e estar presente como poucos; escuta mais do que fala. Quando elucubra, não se importa em ser interrompido, atropelado, ouve mais ainda calado, secundarizando o que tinha para dizer, desprovido da urgência da vaidade. Aprendi cedo a dar tempo aos seus tempos de fala, a não desperdiçar a sabedoria por trás de suas ponderações. É que ele é amante das pausas, dos silêncios, das profundidades, e quem acha que ele é sério é porque não desbloqueou o humor afiado que se disfarça no jeito quieto com que se carrega. É manso porque não precisa latir. Vai de pacífico à atlântico com a habilidade zen de quem transita da serenidade plena à atividade máxima sem uivo nem grito. Não ladra jamais. É tão grande por dentro que não tem necessidade de se impor. Tranquilo, assiste tudo com olhos de lince e ouvido de tuberculoso, mas prefere sentir do que dizer. E sente fundo, pensa mais ainda, e me dá esse amor com encaixe enzimático ao meu modo de amar. Eu, franca e libertaria (como o nome já diz), ele sereno e acolhedor (como o nome já diz); eu que tenho bocão e cabeção, ele que tem os dois maiores ainda; eu que sou galhofeira até o bagaço, ele que é sofisticado até quando galhofa; eu que já tentei criar três conflitos sem o menor sucesso porque quando um não quer dois não brigam e para ele a paz sempre é o melhor caminho. Para mim, ele é o melhor caminho. Oposto complementar a tudo que sou e preciso aprender a ser. E o nosso encontro me reensina o amor, me redesperta a inocência da vontade do para sempre há tanto esquecida, e o desejo de crescer junto de mãos dadas através do tempo sem perder a ternura.
Tuesday, February 04, 2025
Wednesday, November 13, 2024
Gravata de Seda
Amo porque é doce, porque é sólido, porque camufla na timidez a escalada do selvagem –– rasga bicho entre as frestas de frases baixas, explodindo nas pausas os galhos das tantas sinapses. Pensa fundo e fala lento. É quase silencioso. Escolhe as palavras, toma tempo. Não corre. Quando corre, voa. Rema com os ventos léguas em fibra de carbono. É peixe por cima d’água: encosta as pernas no aquático e desliza suas asas sobre o teto do mar. E o fulgor do sol treme em sua pele, clama pelas gaivotas, tartarugas ouvem seu chamado. Ele racha o dia ao meio e escoa fim de tarde.
Amo porque me engole sem pressa, mastiga, lambe, chupa até o caroço e sorri meus fiapos entre seus dentes matutinos. Eu, mochila portátil acoplada ao seu peito, pulo saltitos de criança adulta, abano o rabo enquanto derramo córregos esquecidos ou nunca despertos.
É a torre mais alta, farol guia para navios imensos, estrada do mar. Vulcão em erupção, ele queima. Eu lava, escorro por sua rocha e torno seu ventre em pedra, furacão dos sentidos. Ele projétil, afunda e se espalha. Eu fecho os olhos e entrego tudo, depois lembro de abri-los de novo para não perder a terra à vista, oásis dos sonhos, paraíso que me disseram só existir nas utopias. Mas ele tá aqui, ao alcance do pulo e eu me jogo, quico na brandura de seus músculos densos e amor terno, gravata de seda, sapato de couro para o traje que a gente combinou com o Leon para aquele dia. No nosso altar só tem sim.
Tuesday, November 12, 2024
Dicionário dos Amores Inventados
Da ordem da ida dos que não chegaram; da presença dos que não vieram; miragens.
A - Astrofísica das fantasias do peito; asa-delta sem vento
B - Balão desinflado; bola sem jogo
C - Castelos de areia movediça; cena sem contracena
D - Drible da recíproca; dança da solidão
E - Espera sem chegada; esconde-esconde
F - Feijão ralo
G - Gelo derretido
H - Histórias mal contadas para si
Í - Ímpetos esvaziados; ilusões do plexo
J - Janela para paisagem perdida
L - Lua cheia sem mão dada
M - Mania de acreditar no que não é; má digestão dos anseios
N - Navegação em rio seco
O - Obscuro objeto do desejo não correspondido
P - Panela queimada; planos precoces
Q - Queixo caído para nada (que Xou da Xuxa é esse?)
R – Ralo entupido
S - Sonho que se sonha só
T - Tatuagem apagada
U - Uivo em noite frígida
V - Vela sem uso; vaca sem pasto
X - Xurumelas invertebradas
Z - Zombarias viciosas dos zumbidos do coração
Monday, November 11, 2024
Depravada e do Lar
Era para eu ser recatada, mas desde pequena já adorava ver os piruzinhos dos meninos. Nos intervalos das brincadeiras, chamava escondido pro canto e pedia para colocar a mão. Não tinha pornografia no desejo, era mais curiosidade mesmo e uma coceirinha na piriquita que deixava tudo quente. Crescer cercada de menino me deixava agitada, os amiguinhos do seu tio-avô querendo brincar de carrinho e eu chamando para debaixo da cama. A mamãe sabia, o papai fingia que não via, mas volta e meia me pegava aprontando e descia surra de cinto. Eu não me importava. Não à toa fui gostar de palmada — virava a bunda e pedia mais pro meu namoradinho. Aí veio aquela história de noivado, eu aceitei já sabendo que no altar eu não subia. Deixei eles acreditarem que eu tinha me rendido, mas no fundo sonhava com o bordel. Queria ser vedete, rapariga, a vizinha devassa, queria ser amante. Eles ansiando moralidade e eu aspirando ser puta. Sempre fui fascinada pela profissão. Ser paga por sexo parecia um sonho. Foi no primeiro bêbado desdentado que eu entendi que não era bem assim. Mas não deixei de gostar. Aprendi a botar a cara de outro no rosto de um e transava com meu imaginário. Aí veio o seu avô e meus planos foram por água abaixo. Ele parecia aquele homem sério, todo pomposo, mas na cama ele me pegava pela rédea e eu relinchava que nem potra no cio. Quando percebi, já era tarde. Desejei ser esposa a contragosto das minhas taras de devassa. Ele não era bobo, sabia de onde eu vinha, me jogava pro alto e me rasgava no meio — nosso quarto era regado de erotismo. Logo veio a sua mãe e, quando vi, estava fazendo empadão na cozinha de ladrilhos verdes que seu avô construiu com as próprias mãos. Logo eu, que me considerava libertária, acabei refém da minha própria caretice. Não posso reclamar. Fui feliz de outro jeito.
Tuesday, November 05, 2024
Para Sempre
Vejo o para sempre no teu olhar. Achei que tinha deixado na primeira infância, na mochila de sonhos que pesou nas minhas costas quando fui esquecida na escola. Foi mais tarde, na faculdade, depois no primeiro casamento, e nos tantos desencontros que foram esvaziando o torpor juvenil do final feliz. Mas em teus braços reviro novos jeitos de amar. Esparramada em seu corpo, desvendamos taras, brincadeiras eróticas, recito pornografias entornadas junto. Temos inventado rituais de cópula. Nariz, dente, umbigo, orelha, a curva do joelho, tudo vibra, tudo pulsa. Eu jorro, me abro, te dou a meu segredo e deixo rouxinol cantar poesias antigas de anseios caretas. Já te pedi em casamento. Outro dia falei em aliança. É que essa que uso comigo se expirou. Redespertei sonho de seguir caminho juntos. Tinha trancado esse desejo num cofre. Distribuí panfletos sobre independência, autossuficiência e todo aquele papo que criei por cansaço mesmo, ou por achar que não cabia no modelo do que dura até o infinito, só no infinito enquanto dure. Balela. Programava o fim para fugir de conceitos herdados, dizia eu. No fundo me protegia do desejo profundo de acreditar no amor. Contigo eu acredito.
Sunday, October 06, 2024
Fata Morgana
Fixei os olhos para identificar miragem. Estiquei o braço e você me deu a mão. Venho apalpando muito além da sua carne, encontrando paraíso onde outros veem pele. É que por trás da superfície tem o salto num profundo que se abre aos poucos. Um rasgo no tempo formando um portal para outras paisagens que nossos pés desenham juntos. Nada está pronto. Tudo é fluxo que vai criando caminho a cada passo dado. Esse final de semana me joguei em seu peito e imergi mais fundo.
Friday, October 04, 2024
Miragem
Pisei no degrau do desconhecido, das coisas que a gente não controla. Fui ao teu encontro despreparada para bifurcação. Um sábado qualquer de setembro, e eu achando que retornaria para casa igual a quando saí. Foi o contrário. Te conheci e quando voltei já queria coisas diferentes das de antes. E confesso que fiquei tarada, empolgada, mas também receosa — quase sete horas de conversa, de te ver do outro lado da mesa de um jeito tão lindo, de curtir suas singularidades, que acabei sentindo mais do que queria sentir por alguém que conheço tão pouco. É que hoje em dia tenho cautela com as fantasias, mergulho no encanto tateando o contorno para entender o quanto é palpável. Brinco de me jogar nas possibilidades enquanto o peito hesita até avistar garantias invisíveis, como se sentimento tivesse garantia. Não tem. Mas antes o risco do que afeta do que o marasmo do que não comove. Ando encantada contigo sem saber se é miragem ou real. Me prolongo nas horas compartilhadas, encho a boca com teu gole e preservo na língua até digerir sua presença. Guardo o encontro no bolso e deixo os detalhes se espalharem por recantos escondidos. É que sua marca fica no meu corpo. A textura da palma da sua mão, da sua boca, do seu olhar, tudo continua latejando. Venho aprendendo seu jeito e gostando de cada detalhe: o riso que fica sério por um breve segundo e volta a ser riso –– fica parecendo que você se julga em silêncio. E eu rio, deságuo, oceano. Rio da ponta da sua língua que encosta nos seus dentes quando você descansa a boca. Ou com a virada do olhar terno de gota d’água para lobo selvagem quando aperto o botão da sua tara. O mesmo acontece com as suas mãos, que vão da carícia para pegada forte de cada pedaço, canto e curva minha. Você toca, eu derreto.
Então é isso, te escrevo não para dizer muito, só registrando essa coragem e cuidado que venho sentindo desde que te conheci, igual a quando eu entrava em mar grande sem certeza do que estava por vir. Eu respiro fundo, pego fôlego e surfo a nossa onda.
Monday, September 30, 2024
A Espera
Estranho ele não ter saído ainda. Uma semana nessa agonia. Acordei atrasado e ele não tava lá. Vim correndo pra esperar, o sol subiu e baixou, a água veio até as pedras, depois secou, e nada do sorrisão dele vindo na minha direção. Eu não entendo, a galera de sempre aqui, esperando na areia, curtindo, caindo no pau, fornicando até muitas vezes, e vai saindo do mar um depois do outro com prancha em punho, a gente numa euforia danada com a empolgação do reencontro, uns se mijam e o escambal, e nada do Dani. Será que ele se afogou? Será que ele entrou num barco e esqueceu de me avisar? Será que ele não volta mais, nunca mais? Cheirar o cu da Paçoca perdeu até a graça. Perdi as forças pra brigar com o Pirata também, botar banca sem a garantia do Dani apartando me deixa meio inseguro. É que essa história de ter fama de cachorro de madame me fudeu desde pequeno, sempre me sentindo afrontado, correndo atrás de moto pra me impor. Tamanho nunca foi documento, quer dizer, até o Dani não sair mais do mar. Agora eu olho pros maiores e me faço de sonso, vejo o bicho pegando e saio pela culatra porque, sem retaguarda em terra de cachorro grande, se eu ficar o bicho come. No meio tempo, eu fico aqui na beira, ansioso, confundindo qualquer cabeludo que sai do surfe com um possível Dani, mas a noite já caiu seis vezes e até agora nada. Tô considerando até fazer uma daquelas aulas de surfe de dupla, vi uma vez na TV com o Dani um campeonato no Havaí. Dou trela pra algum surfista solitário, me faço de querido, sigo por uma meia dúzia de dias, vou dando aquela forçada de barra pra entrar com ele no mar, pulo na prancha, dou uma enchida no saco, se precisar mando logo uma mordiscada acorda-maluco e, se ele for esperto, rapidinho entende que eu sou surfista, porra, óbvio até, né, quem vive na praia só pode ser do mar. Quem sabe eu não encontro o Dani lá dentro. Se precisar, espero pra sempre.
Saturday, September 28, 2024
Bode Lear
Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bode Lear. Eu fico triste. Tô ligado que o próximo sou eu, outro dia foi o Orfeu. Vai um depois do outro. É só eles começarem a bater tambor que já sobe arrepio. O boato que corre é que eles deixam a gente sangrar. Para nada. Nem comem a gente. Deixam lá, às moscas. Um sacrifício. Quem faz isso? Onde já se viu oferecer quem não se ofereceu? Mas eu num vim ao mundo para morrer virgem, não. Tô dando meu jeito de fugir, já. Considerando as possibilidades. Uma hora dessas eu penso em alguma coisa. Aí eles vão ver, quer dizer, não vão, né, porque eu vou ter sumido, desaparecido, evaporado. Para cabra é só dar leite, não tem risco de morte. Já a gente tem a certeza. Nossa vida não é fácil. O pessoal pensa que é só comer grama, subir encosta, sair por aí gritando béeee. A diferença entre o que a gente diz e o que eles ouvem é gritante. Queria dizer que o problema é deles, mas acaba sendo nosso. Se entendessem o que a gente fala, tenho certeza de que iam pensar duas vezes pelo menos. Ou não. Não tem para onde correr. Aqui nosso destino já nasce traçado num vaso de barro, nem encosta tem. Quem passa o portão sabe que a hora tá chegando. A sacanagem é morrer virgem.
Parisiense
Tudo é muito novo. Só eu que não sou. Conheço isso aqui na palma da mão, mas nada mais é o mesmo. Todo dia um buraco novo para eu enfiar a ponta da bengala. As ruas descaracterizadas por essa gringalhada sem elegância, um vai e vem de gente feia. Paris se vendeu. Os donos de restaurante, as padarias, livrarias, mercados, tudo para gringo ver. Quem mandou? Maldita globalização. Bom era quando o mundo era grande, cada um na sua. Hoje não tem mais distância entre as coisas. As pessoas não sabem mais o seu lugar. É por isso que eu sempre fui a favor da guerra. Mesmo porque o planeta precisa de morte, acidente natural, desastre, essa humanidade tá perdida. E pior que o tal do futuro que tanto falavam não deu as caras, só esse trenzinho elétrico aí que eles chamam de modernidade. Essa hora já era para ter carro voando, gente se teletransportando, viagem à Marte, mas não, o que tem é essa mistura de línguas mal faladas, jogadas em gritos de bocas sujas, desconjuntadas, uma confusão só. A pior poluição dessa cidade é a sonora. O mundo ruiu mesmo. Chamam esse barulho de música. Ninguém respeita mais nada.
Heterotops
Deixa ela comigo. Vai ficar enrustindo, me ponho logo na roda. Não falta opção nessa cidade. Dou dois clicks no online, aliás dou logo uns dez, marco meia dúzia de date e como geral. Essa mulherada tá louca pra dar. Coloca o burrão na prateleira como se tivesse à venda, foto de biquininho, fazendo biquinho, tá querendo o quê? Eu levo para tomar coco, pago até uns drinks para ficar mais fácinha, mas não vem com essa de jantar, não, tá achando que eu vou gastar para transar? Nunca precisei disso. E as mulheres de hoje tão chata para caralho com essa porra de feminismo. Ficam enchendo o saco com papinho panfletário. Não pode mais nada. Tem que ficar escolhendo as palavras, só me faltava essa. Não é não é o caralho. Dissumuladas do cacete, pedindo pica e se fazendo de sonsa. Conheço bem, não nasci ontem, não. Agora ainda tem essa de ninguém solta a mão de ninguém, um bando de puta, isso sim. Vão tudo comer na minha mão. E não tem nada mais fácil do que fazer cair na lábia. Jogo aquele papinho de amor, brinco de romance, mas o que eu quero mesmo é fuder. Não vem como essa história de você é meu, não. Mandar um “sou toda sua” quando tá levando pirocada cai bem, mas que fique claro que eu tô longe de ser seu. Não sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem. Jogo um Tropicália para cima da gata e ela acha que eu sou alternativo –– só botar um Caetano, Djavan que tá no papo. Essas mulheres acham que dão volta na gente, mas certas paradas não mudam. Amor de pica quando bate fica. E isso eu sei fazer. Me escolei na fudelância desde pequeno, desda Cicciolina, dali em diante não parei de subir no ranking. Bati muita punheta para chegar onde cheguei. Comi muita mulher. Se tem uma coisa que eu sei fazer é fuder. Bato logo o pau na cara olhando no olho e o feitiço tá feito. Depois fica que nem muleca me chamando de meu amor, correndo atrás de mim. Não pode dar confiança para mulher que elas já querem abocanhar a porra toda. Quer ficar de oficial é contigo mesmo, mas não vem com ingenuidade de achar que vai ser a única. Porra, vou ficar metendo numa buceta só? Homem não foi feito para isso. É uma questão de necessidade mesmo, mulher não sabe o que é isso, ficam naquela parada de instinto maternal, pré-menstrual e o caralho, porra, a gente quer é fuder. Eu como até dizer chega, depois já engato em outra vagabunda para não ter tempo de mimimi. Se começar a me apaixonar, meto o pau em outra para não confundir as coisas. Piranha é para comer, não é para pagar paixão. E tem mais, ainda uso a mamata do não-monogâmico, coisa desse pessoal aí de esquerda, digo que curto relação aberta e tal, amor livre, saio pegando geral. Tô pouco me lixando para quem ela tá dando. Eu que não vou ficar de bucha. Tá pensando que eu sou otário?
Ele disse que vai ligar. Duvido, né, quem liga é velho, mas mensagem tenho certeza que ele manda. Ainda mais porque ficou na vontade. Deixar homem na vontade é tiro e queda. Eu não ia dar mole de dar de primeira, depois vai ficar pensando que eu sou piranha. Mesmo assim, me raspei todinha, vai que eu não aguentava a pressão, não ia querer que ele achasse que eu sou xexelenta. Pior são essas meninas de suvaco cabeludo... Deus me livre ser feminista, sair por aí de peito de fora, distribuindo panfleto. Não tem mais o que fazer, não? Vai malhar, minha filha, pintar essa unha descascada. É bom que sobra mais para gente. Quer ter homem bom, tem que se cuidar, malhar, cuidar do cabelo. Um homem desse não sai com essas hippongas, não. Me levou para tomar coco e tudo, andar na praia, todo romântico, esse dá para namorar. Eu gosto de homem assim, doce, direito, que paga as coisas, me leva para fazer coisa legal. Eu que não vou namorar duro, né. De dura basta eu. Eu gosto mesmo é quando paga jantar caro. Tinha um que eu saia só para isso, coroa já, perto dos quarenta, ficava me levando só para restaurante bom, me dando presente, mas eu não dei para ele, não, fiquei pensando naquele peito com cabelo branco, pele de velho, sei lá, me deu irca. Era até bom de conversar, eu gostava de sair com ele. Mas depois do quinto date sem dar, ele desistiu. Nunca mais ligou. Tudo bem, a fila anda e o app não para. Cozinho um depois do outro, fico instigando até abrir vaga. Já criei até a lista de prioridade dos que eu quero conhecer. Gosto quando tem foto de carro, de viagem, de barba na régua. Tem uns caras muito maltratados, cruz credo, como é que eles não têm vergonha de botar aquelas fotos bisonhas. Chama um fotógrafo, faz com um fundo maneiro, uma lancha, uma piscina, tanta coisa bonita no mundo, aí coloca foto no sofá? Se for dirigindo então, já penso logo que é Uber. Ah, não, não faço progressiva para isso, ficar saindo com Uber, eu quero sair de Uber, só Uber Black. Eu chamo um Uber para você, amo quando eles mandam essa. Aí, sim. Fica claro que sabem cuidar de uma mulher, não são esses pangarés que levam para tomar lanche, que lanche o quê, me leva pro Pepê, para Olegário Maciel, me chama para Barra, honey. Me leva no Vips, comer sorvete naquele quiosque de nome inglês lá na praia de Ipanema, um que tem fila. Quero foto no por do sol com drink colorido. Me chama para viajar, pegar avião, paga meu silicone, aí sim eu vejo futuro. Então foi isso, não dei mesmo. Posso apostar que hoje ainda ele manda mensagem, se bem que se mandar hoje ele paga de ansioso... amanhã ia mandar bem se mandasse, mas acho que como ele é todo gostosão vai demorar três dias, me deixar ansiosa. Depois eu demoro tanto quanto ele demorou para responder. Mas se demorar muito mando logo mensagem pro próximo. Tá pensando que eu sou otária?
O Caranguejo
Outro dia vi ela trocando de roupa, foi mais bonito até do que ver ela tomando banho. Foi o jeito que o vestido caiu, fez um barulho invisível, eu ouvi. Se ela soubesse metade do que eu sinto. Mas não, basta me ver no canto que já me empurra com a vassoura que nem expulsam visita chata. É quando duelo com o ímpeto de me agarrar aos seus pés, de deixar que pise em mim como bem entender contanto que me toque. Ainda tento hipnotizá-la com o olhar, levanto os olhos, os abro bem abertos, mas, nervosinha, só quer saber de me colocar para fora. Se for parar para pensar, é legal essa coisa de deixar ela nervosa também, de alguma forma eu causo impacto nela. Finjo que me resigno, fico ali, à espreita, me escondo no buraco da Jaqueira e assim que ela esquece a porta aberta, o que acontece toda hora — inclusive, isso me faz pensar no quanto ela no fundo quer que eu volte, quase uma relação tóxica: me enxota e depois deixa espaço pro retorno, morde e assopra. Mas eu gosto, amo ainda mais, sempre fui de me afundar em paixões indefensáveis, castelos de areia — enfim, entro sorrateiro e me escondo no mesmo canto do banheiro, é geladinho ali, melhor lugar do quarto. Lá fora tá um inferno. Esse verão que seca a cidade toda, cada moto que passa para checar o mar levanta a poeira da rua inteira. Mal consigo andar na areia sem um maldito de um cachorro tentando me comer. Outro dia um quase arrancou minha pata. Não é porque eu tenho dez que uma não faz falta. Esse pessoal não tem coração. Minha sorte é a agilidade, sou conhecido por isso. Somos, né. Mas tenho visto pouco a galera. Mal tenho ido à praia. Essa história de se apaixonar afasta a gente dos outros. Não é a primeira vez. Verão passado foi a mesma coisa, fiquei obcecado. Mas era um casal que ficou no quarto. Eu fechava o olho toda vez que ele ficava nu sozinho, mas confesso que quando se jogavam um no outro, no maior rala e rola, eu gostava de olhar. Eles fazem de um bando de jeito, são criativos. A gente só tem um. Devia era ter prestado mais atenção e aprendido alguma coisa para essa temporada.
Thursday, September 26, 2024
Queda-abraço
Exercício oficina Andrea del Fuego
escrever conto inspirado no video:
(Video Pina Bausch – casal se abraçando e se desencontrando)
https://www.youtube.com/watch?v=3WLazG0bQPI
Caí tantas vezes que eu mesma já me jogava. Ele desistiu cedo demais, não aguentou, se jogou das nuvens e caiu na esquina onde sempre se esconde. Conheço teu jeito de dizer tchau, mas hoje foi diferente, seu lábio de cima não fez a curva do canto que sempre fez quando o tempo abre e a gente alinha junto a andada do trilho. Você não estava aberto. Não sobrou nada. Só a mesa de madeira e os cacos do que já foi.
Tonal
Exercício oficina Andrea del Fuego
escrever conto inspirado no video:
Música tonal – Central Park in The Dark
https://open.spotify.com/intl-pt/track/43GOpN6T53ng3endnhxeyt?si=3731c22d62ad4ef4
Uma noite qualquer. Não sabia para onde ia, mesmo que fosse ficar parada na mesa do canto, não sabia. O mundo dele escancarado e o espaço que ele não preenchia mais latejava. Havia ficado invisível. Dissolvido entre as páginas vazias daquele fim de noite. A saia de seda amassada contra a cadeira. Sentou por tempo demais no abismo. Ele não ia chegar. Não importava o recado dado. Ele não ia chegar. Era de outra ordem para ele. Não amava mais o amor. Se escondia pelas frestas dos pequenos atos e só deixava na mesa a migalha do pão. Ela colava os cacos do que já foi em um mosaico na mesa do canto. Juntava tudo que lembrava num balaio só e sorteava a próxima memória. Ainda estava tudo ali, sem caminho tomado, arregaçada como uma puta exausta e sem saída. Olhou para porta como se ele fosse abrir. O calor apertando sua garganta. Uma hora iam ter que se olhar. E talvez fosse melhor não dizer nada. Deixar que o buraco falasse por eles. Se cavasse mais fundo chegava no avesso e não queria entrar nesse território. Preferia guardar no bolso a época em que ainda tinha certezas.
Wednesday, September 25, 2024
Troféu
Já não sabia mais o que queria, havia sonhado com aquele momento antes mesmo de saber que podia sonhar, agora ali no pódio da própria conquista, nada fazia mais tanto sentido. É que era mais gostoso caminhar do que atravessar a linha de chegada. Agora com o troféu na mão, para onde ela ia? Tantos anos de esforço, que a vida correu sem olhar a hora. Seguia um dia atrás do outro dando conta do próximo passo, da próxima página e de repente o livro inteiro materializado, diagramado, com capa dura e prefácio, bem ali em suas mãos. Mas não tinha gosto de vitória, nem de solução. Era só mais um final de capítulo. Ia precisar sonhar de novo, começar do zero, se revirar do avesso e, para piorar, com uma expectativa que até então não precisava dar conta. Já tinha descoberto isso quando conquistou o emprego dos sonhos e percebeu que não era o bastante. O quanto é o bastante? Depois largou tudo e mergulhou no que achava que tinha que ter feito desde o início. Agora, tendo virado aquilo tudo que tanto queria, entendeu que fome não tem fim. Digere e começa de novo. Foi quando percebeu que era feita de salto. Nada bastaria se não o percurso. Jamais se saciaria. Encheu o peito e seguiu adiante.
Sunday, September 15, 2024
Bom e Fácil
Mesmo te conhecendo tão pouco, te senti desde que te vi –– já lá naquela foto em meio a um mar de rostos, o seu. Depois, na luz fria do restaurante, você inteiro. Noite adentro, mil palavras. No fim, durante o breve mergulho em seus braços, comprovei o que havia sentido. Sei que não sei de nada quase, mas gosto do que vejo, gosto da sua doçura, do seu jeito de olhar lá dentro e falar suave, da força do seu abraço e dos barulhos que saem da sua boca quando imergimos um no outro. Gosto mais ainda das trilhas que percorrem sua cabeça enorme. Você é vasto, grande para caramba. Hoje é seu dia e te desejo que continue emanando essa luz terna das manhãs tempranas, do céu azul que carrega no peito largo, do sol que mora no dourado da sua pele, do luar de prata refletido em seus grisalhos. Estar contigo é bom e fácil. Bonifácio. Não sei onde isso vai dar, pouco importa. Por hoje, o que vale é te celebrar. Vida longa para você e toda sua beleza. Feliz aniversário.
Tuesday, August 27, 2024
NOSSA LIBERDADE JUNTOS
Ando embriagada desde que nos conhecemos, num torpor incessante dos bêbados nas madrugadas febris. Tenho caminhado em saltitos voadores, repleta da felicidade quase infantil das novas descobertas. Já na mesa peruana de um bar carioca me encantei com os seus mínimos detalhes, me deixei ser atravessada pelos tantos oceanos dentro dos seus olhos enormes, tão grandes quanto o peso do seu corpo sobre o meu, quanto o prazer do acalanto que encontro em teu abraço. É que subimos de mãos-dadas nessa montanha russa, mesmo com seu medo de altura e minha falta de capacete pros saltos gigantes das minhas pernas tão pequenitas. Se vivesses aqui, te quereria para sempre comigo, do jeito que fosse, amigo, amante, namorado, não importaria, contanto que continuássemos nadando sem pressa braçadas largas, às vezes elegantes, às vezes desconjuntadas, de dois animais que se conhecem tão pouco e sentem tanto juntos. E, ainda assim, contigo me constrinjo e expando em ondulações tão intensas quanto a lua quando enche e me rasga ao meio e depois esvazia, ou o transbordamento dos períodos férteis e pré-menstruais das onças nas florestas remotas em meio aos rios amazônicos. Sangrei em tua perna achando que era gozo (era também), entornei mistura líquida do que transborda pelas arestas quando em contato com a ciência inexata do que vai além do entendimento. Não tenho medo. Sei que nosso encontro tem data e hora marcada de expiração, mas sua existência cravou em mim tatuagem, talvez de um barco que aporta no meu porto e se despede rumo a um novo destino deixando marca funda na madeira fina da minha pele. Fica em mim o cheiro do seu suvaco, do seu pescoço, o roçar da sua barba na minha boca. Ficam as tantas palavras, conversas, gargalhadas e lágrimas e todo seu sarcasmo que se anuncia em riso de canto de boca antes mesmo de chegar, ou o sorriso escancarado de criança quando alinhamos nossas melodias. Juntos abrimos e fechamos bares e restaurantes, andamos por ruas velhas que me pareceram desconhecidas. É que contigo olho o antigo com a inocência do nunca visto antes. Confesso que queria mais tempo, que me despedir dói demais, e saber que amanhã não te vejo mais no Arpoador procurando peixes e baleias me deixa triste que só. Do Diabo vou olhar pros Flintstones e te assistir no vazio do espaço que deixastes, sua presença lá inteira, me olhando de longe. Confesso que queria também poder ter te entregado mais meu corpo, brincado mais nos playgrounds secretos que não nos demos acesso, tido tempo de construir tantas outras histórias juntos porque você me faz feliz até mesmo quando fico triste. Hoje conversei com o céu e agradeci por nos esbarrarmos dentre as vielas aleatórias das nossas vidas paralelas. Vou te guardar numa esquina secreta do peito, sonhando que tenhamos a sorte de sermos jogados de novo ao mesmo tempo no mesmo pedaço de mundo. Obrigada por tanto. Obrigada por tudo.
Friday, August 16, 2024
Primeira Lembrança
EXERCÍCIO CURSO “ESCRITA DE SI” - TATIANA SALEM LEVY: Sem parar para escolher o rumo, na certeza e confiança de que ele há de se encontrar sozinho – e se isso não acontecer, pouco importa o começo: a primeira lembrança:
Um casarão antigo de Santa Teresa, casa da minha mãe. Nós três – eu, ela e meu irmão – nos banhávamos nus na luz do sol que entrava pela janela. Deitada, ela fumava em seu cachimbo-passarinho ervas que só mais tarde eu descobriria. Bruno brincava com o ar, eu brincava com as palavras fazendo do corpo da minha mãe minha primeira musa. Vi em suas curvas desfiladeiros; seus peitos, duas montanhas; na cintura sinuosa, declive; seus pelos, gramado de vasto campo; seu cabelo, cascata derramada pelas esquinas dos ombros. Uma entidade mitológica à distância das minhas mãos. Minha primeira poesia transbordou em versos o imaginário infantil dos meus três anos encantada por aquela mulher gigante, deusa do meu Olimpo. Ela não era uma só –– tantas cabiam em cada pedaço seu. Mulher vento, fogo, terra, ar já não sei. Ela puxou um caderninho e escreveu meu transe na velocidade das frases que se formavam sem objetivo maior senão o de contar o que eu sentia ao enxergá-la. Minha primeira poesia foi minha mãe.
Tuesday, August 06, 2024
Salto Mortal
Jogou tudo pro alto. Saiu só com a roupa do corpo. Entre as pernas, desejo de mundo.
Correu com o tempo. Cortou o ar com garfo e faca, abriu sua boca mais enorme, esgarçou os cantos. O passado, talher de plástico –– de agora em diante só comia com as mãos.
Não tinha pressa. Só tinha salto. Se esticou pré invertida e quicou grupado pinote de ginasta. Andava convencida de que sabia dar mortal. Tinha morrido tantas vezes que não era uma cambalhota que ia brecar o caminho. Ainda ouviu ao fundo o desalento dos que desejam que o outro desdeseje para não terem que encarar o fracasso de nunca terem desejado tanto. Me deixa que é com a dor que eu voo, pego impulso no que rasga ao meio e decolo mais alto do que da vez anterior. Cada vez que quebro fico maior ainda. Não confia em quem não conhece o fundo do poço.
Era ainda criança quando escalou o primeiro. Caiu lá embaixo e adormeceu com o eco de seu choro. Rasgou o barro com as unhas, escrevendo as palavras que faziam do plexo multidão. A poeira rasgou as pontas de seus dedos. Cravou os caninos na carne viva e chupou a pontinha das falanges. Foi a última vez que curtiu o gosto de sangue.
Horas, dias, meses registrando nas paredes tudo que não conseguia ouvir, menos ainda dizer. De teto só o céu.
À noite conversava com as estrelas e achava que talvez houvesse mesmo os deuses, cada brilhinho fosse um, que nem na história da Odisseia que a mãe lhe contava para dormir, em que o divino morava nas nuvens.
É que dá trabalho sonhar.
No dia em que se esvaziou de si, avistou a escada pro alto. Você sempre esteve aqui? Perguntou aos degraus.
Nenhum poço foi tão fundo quanto o primeiro. É que quem descobre que não morre de dor, aguenta tudo. Basta encontrar muro para escrever rio que vira oceano e a angústia dissipa em braçada larga. Tchau, viu. Chorei bastante, mas levantei maior. Me deixo o legado da coragem de sentir sem me esquivar. Pobre de quem não entrega tudo. Eu tô pronta para próxima.
Sunday, July 21, 2024
Micro Contos
- As palavras bateram como um soco. Subiu na bicicleta e se esvaziou pelas pernas.
- Pros céus, pediu um abraço, um vira-lata ouviu e se sentou ao seu lado.
1º exercício - FOTO Monte Vênus em erupção:
2º exercício - FOTO casal assistindo a casa pegar fogo.
3º exercício – VIDEO: homem andando debaixo de chuva pela noite de uma cidade vazia
4º exercício - FOTO em preto e branco: idosos de um vilarejo se aglomeram curiosos para assistir algo que acontece fora do quadro
5º exercício - FOTO mulher colada num espelho olhando pro próprio reflexo