Saturday, January 03, 2015

Ilha Deserta

Chegar em uma ilha deserta nem sempre é tão fácil, ainda mais quando a ilha nem é tão deserta assim. 

Doze horas depois de uma van, um ônibus, duas barcas com baldeações, um taxi, um barquinho praticamente jangada em meio a ondas de sumir avião caído, e a tal ilha se revela à nossa vista. Bagagem molhada, corpo ensopado e quem ainda estampa sorriso é herói, haja jornada.

Já na saída de casa vale deixar as expectativas por lá mesmo.  Em jornada longa, qualquer jornada aliás, só anda para frente quem se adapta - é outra gente, outra cultura, outro tempo - decifra-te ou te devora. 

Viajar a dois é uma aventura, mergulho um no outro e mais ainda em si próprio. Cada dia um desafio novo se apresenta e lá vem obstáculo. É na desavença que o amor se esconde, vem no cuidado redobrado com as palavras, no carinho mesmo em meio a frustrações e raivinhas menores, vem no abraço como limite pro desgaste, vem no silêncio. Viajar a dois é se encontrar mil vezes, se desencontrar algumas, se conhecer mais a fundo e se amar mesmo assim, mais ainda. 

Chegar numa ilha (semi) deserta é ter afinal atravessado o mar, é se atravessar e chegar ao lado oposto do nós mesmos, é sair da nossa mente pequena, nossa casinha, nosso bairrinho, nossas picuinhas trabalhistas, e se abrir ao mundo lá fora pulsando estrangeiro. 

Viajar é assim, a gente pensa que se joga no mundo mas é o mundo que se joga na gente.

Sunday, December 28, 2014

Ed Mort e seu Bediai

Conheço o Ed a 36 anos, claro, além de tudo ele é também meu pai. A gente tende a pensar que conhece a fundo nossos pais, parentes, grandes amigos, amantes, mas a verdade é que não importa o quanto convivemos, pouco sabemos o que realmente se passa dentro dos segredos de cada um. 

Ed é acreano, cresceu em seringal, caçula de 11 irmãos, todos começando com a letra E. Perdeu tudo aos 6 anos de idade com a morte do pai e dali foi vender bala em ruas de terra batida pelas cruzadas de Rio Branco. Lá pelos seus 19 anos, juntou o pouco que tinha e tomou coragem de se jogar no mundo sem nem conhecer ainda o que era um elevador. Se formou no Rio como jornalista, escreveu em inúmeros jornais, foi preso político nos idos da ditadura e voltou a Amazônia em inúmeras excursões como jornalista, fotógrafo, e dê certo modo antropólogo, pois não há como viajar por essas bandas, quiçá nenhuma, sem acabar sendo um observador da alma e cultura de onde se vai. 

Passou anos em tribos e peregrinando a floresta. Quando nasci já vim com o imaginário de uma Índia, me contava desde muito pequena lendas de tribos e nos ensinava o canto de pássaros, o nome de árvores, como respeitar e andar em matas e cachoeiras. 

Acabo de terminar o livro "A Viagem de Bediai, o Selvagem, e o Voo das Borboletas Negras" o oitavo livro desse homem complexo que eu chamo de pai, e me encontro completamente emocionada com esse diário em prosa de uma das suas muitas excursões pela Amazônia. 

Não sou de xurumelas, quem me conhece sabe que sou sincera até demais nas minhas críticas, mas de fato, e independente de qualquer grau parentesco, é uma das histórias mais lindas que já li, escrita fácil e lúdica que te leva a uma viagem intensa pelos rios, matas, povos e mundos desse país. 

O lendo agora tantos anos depois de achar que tanto o conheço, me deparo com um homem ainda mais intrigante do que jamais imaginei. 

Parabéns, pai, você é um cara e tanto! Te amo demais e seu livro é de gargalhar e chorar quase que incessantemente. Que venham outros mais! 

Sua filha maravilhosa, beijos da Tailandia, e mesmo sem de dar um abraço de ano novo, to contigo sempre em todo lugar que eu vou! Chica

Tuesday, June 24, 2014

Vida de Set


Sentei no carro com um sorriso na boca, o dia tinha passado corrido mas sem pressa, fazia tempo que eu não lembrava de prazer desses. Sol nem raiado ainda e já ia eu, à beira de mais uma tarde, mais uma noite, mais um dia de trabalho. Hoje quando eu sai do set e sentei no carro com um sorriso na boca lembrei do meu primeiro dia, na verdade madrugada, dirigindo insegura pro trabalho novo, atravessando o imponente portão dourado, recebendo minha primeira credencial a caminho de uma cidade cenográfica, e me deslumbrando com um mundo ainda no escuro, pouco a pouco revelado, o dia amanhecendo, a luz batendo nas janelas de vidro dos prédios falsos, NY Street backlot se revelando aos meus pés, eu ali, em pleno Paramount Studios, toda a grandiosidade de estrelas hollywoodianas voando pela minha cabeça, Gene Kelly, Rita Hayworth, Greta Garbo passando em filmetes num meu sonho acordada, eu estava ali, aquela era eu. Era eu, e vastas memórias de desejos debruçaram sem rédea pela minha caixola, as minhas primeiras histórias ainda ditadas antes de saber escrever, a graça plena dos tantos anos no palco, a vontade involuntária de escrever poesia, conto, peça, roteiro, livro, escrever qualquer coisa, de viver histórias muitas vezes só para gerar escrita. Era eu ali, ainda de assistente de produção, aprendendo tudo na chibatada mas com excelência, carregando lixo cantando “She’s a Maniac” porque mama sempre falou para fazer da merda adubo. Primeira lição: nunca ande devagar no set! Sempre seja a primeira a responder o rádio! Faça antes de pedirem! Corra lôra, corra! Go, go, go!!! E eu ali com minha fome de imigrante, perrengue já ficando pro passado, tendo tão pouco e querendo tudo. Eu ali de olhinhos ávidos, brilhando, absorvendo cada passo, cada marca de cena, cada tom de voz, cada lente, cada técnica, cada jeito de contar história. Eu ali de assistente de direção achando que tinha que me formar fazendo, sendo maquinista, loader, set dresser, tudo e qualquer coisa para saber mais, eu quero mais, o mundo se abriu pros meus pés! Hoje quando entrei no carro com um sorriso na boca lembrei que o tempo passou e olha onde eu fui parar, num mundo de histórias contadas em imagens, com estrutura de profissa e possibilidades mil, que trabalho é muito mais do que o que paga nossas contas, e sim, no mundo ideal, uma extensão do que a gente é. E o melhor de tudo –ainda pagam a gente para fazer isso. Hoje entrei no carro com um sorriso na boca e lembrei do quanto eu amo o que eu faço.

Tuesday, June 10, 2014

36

Hoje faz trinta e seis anos. Ainda lembro do primeiro banho de rio no braço, jogando a boinha vermelha de cima da ponte e mergulhando ao léu em água doce com meu pai, eu nadava esbaforida e ele andava para trás, “vem vem vem” falava, eu tentava ansiosa, afoita pelo abraço. Lembro da primeira lembrança de tato, peito no peito de mãe nua, quente, textura só sua, coração batendo com o meu, sol banhando nós duas. Lembro do sorriso dela do alto da escada de madeira da primeira casa de Santa, das óperas e Piaf ecoando no seu tom pela sala do Raposão, de ser criança sempre de mão dada com meu irmão que me olhava com ternura e me cuidava feito homenzinho desde pequenininho, Bruninho sempre me protegeu. lembro das histórias contadas no escuro em que mama dormia primeiro e enrolava os nomes, fatos, lugares e a gente ria pedindo por mais enquanto ela sonhava em voz alta. Lembro do Ed cantando cantiga nada tranquila e me embalando a jato em sono leve, nunca fui de dormir bem, desde bebê, na ânsia de sair nasci em vinte minutos e ainda hoje sinto essa pressa, essa fome de mundo, de manhãs cedo, madrugadas varadas, tardes longas, noites muitas noites, nunca soube escolher entre a noite e o dia. Lembro também das histórias contadas, do meu um ano e meio regado a ovo cru, quando achada em galinheiro quebrando um a um na boca com sorriso, “égua, diaba lôra...” meu pai já dizia, mais tarde precisei do limite de quatro gemas por dia, se deixasse comia dez – sempre fui das quantidades, doze mangas seguidas, quarenta figos por tarde, sacos inteiros de pão, potes de requeijão, e pudim que eu fazia escondido em meio à mundo integral e comia inteiro de uma vez só para não ser descoberta. Lembro dos meses afora pelo nordeste com Bruninho, Ed e seu mundo de adultos, crianças, agregados e namoradas mil, nós mini moglis, desvendando cachoeiras e dunas de itaúnas, quilômetros a pé em praias sem fim, histórias de cidades tomadas por areia, cobras que comem homem inteiro, lendas antigas sem bicho papão, nunca dei bola para medo. Lembro do Ed falando “te criei pro mundo, jacaré” e da mama e sua voz quase rouca dizendo “que abundância é viver” toda vez que eu caia das nuvens, sempre gostei das nuvens, sempre aumentei as histórias e fiz escolhas mais fantásticas do que reais, mas me joguei de fato cedo no mundo e descobri vastidão em meu peito. Precisei ir para longe para entender que o que quero está muito mais perto do que qualquer distância, cabe dentro de um metro e cinquenta e quatro e meio e mora em cada segredo e vontade que nutro, das tripas coração. Trinta e seis anos e cada ano descubro que o que o que vale é abrir o peito pro mundo e mergulhar até o fundo, só o que vale é coragem, sempre sobra ar, sempre tem saída, sempre vai dar certo, “e andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar.” 

“...mundo mundo vasto mundo, mais vasto é o meu coração”
Drummond

Friday, June 06, 2014

Um Dia Pro Outro

O dia amanheceu anuviado, vento de lado em crista de onda, corrente puxando pro sul. Ainda era cedo às seis mas não sobrava azul, só cinza do peito para fora,  cinzas céu adentro. Hoje de manhã só vi rosto triste pela rua, velhos calados com suas enfermeiras, casais sem mão dada, criança birrenta dentre pedras portuguesas, atleta com frio demais para entrar na água. Hoje ninguém se jogou na manhã sem peso que engole, cada um afogado em solidão e pão na chapa, tristeza ecoando pelas esquinas de Copacabana, Ipanema, Leblon, orla inundada em angústia e mágoa.  E não ouvi passarinho nenhum, nem gaivota veio dançar com o ar, só uns pombinhos cagando baldes em cabeças cheias de vazio. Hoje de manhã o ar estava quente e o dia transbordando desamparo, jornal esvoaçava notícias ao léo, bicicleta sem roda parada no poste abandonada, nem o café quente calou o frio, quem se importa, o que importa, enquanto o sol não vem, melhor guardar dia para madrugada.

Enquanto isso, galáxia a fora,


Ontem a lua deitada grávida sussurrou para noite sonhos longos, estrelas cadentes rolando em suas bochechas, contou pros sete ventos histórias de noites escuras, longas demais, noites que insistiam em não amanhecer, seguravam o sol pela rédea, preso em armadilha pro dia, não haveria tarde, só noites em seu gradual do azul escurecendo universo adentro, buraco negro. Ontem a noite a lua amarela gritou pros quatro cantos em silêncio, falou com meteoros, galáxias siderais, anéis planetários segredos intergalácticos que só ela guardava dos dias em que esperava o sol descer para subir, e todo mundo ouviu em meio a universo estático, parado em suspenso por um, dois, milhões de segundos perdidos letra a letra desperdiçada boca a fora daquela lua agora cinzenta, em meio a uma única nuvem fina, quase cenográfica, quem botou você ai? Gritaram lá do fundo. E o dia amarrado, pulsava ansioso por vir a tona rosa, amarelo, laranja, rasgar o céu a fora, correr pro abraço, esbanjar verde e azul em cada mar, banhar as montanhas com luz, dar sombra de presente para árvore. Não era tarde, já vinha a tarde, mais tarde, era só questão de tempo.

Wednesday, April 09, 2014

Aquele Abraço

Aqui de longe tudo continua perto, dentro um do outro, nada muda, tudo é teu e nosso. Aqui de longe não há distância entre o que mora em cada pelo e poro do meu corpo do teu, nos encostamos por trilhares de partículas vizinhas dentre espaço sideral onde a nossa galáxia não se dispersa em buraco negro, e sim poeira de estrela que forma planetas e asteroides orbitantes de um mundo que existe na nossa frequência, nos nossos peitos, no nosso abraço. Sinto saudades sim, mas sua presença não me faz falta porque ela mora em mim, então se joga no mundo que o teu feliz é o meu feliz, e quando o tempo for pro nosso tato, não é preciso pro nosso amar.

Thursday, March 13, 2014

Deixa

Há cinco semanas eu não ligo o rádio do carro, sigo em riste, mão no volante, olhos vidrados no trânsito, seu rosto clicando em flashes na minha frente, eu ainda sonhando – sou muito mais pensar em você. Sei cada detalhe dos seus detalhes, quantos fios tem o teu cabelo, quantos cílios moram nos teus olhos, quantos pelos vivem na sua sobrancelha. Sei cada imperfeição dos seus dentes, cada riacho que corre nas mil linhas da tua boca, e cada sua montanha, onda, penhasco – e não sei nem nada ainda, nem comecei.

Eu sei bem também das nossas diferenças desde daquela segunda tarde, não só o que você me contou, que já bateu, já doeu, já não doeu, e se dissolveu na relevância do que realmente importa, mas sei também do que mora além das palavras, no nosso silêncio, as coisas que não precisam ser ditas para serem notadas. Sei do mundo que te escolheu e do que você escolheu para si, desse abismo entre nossas ambições. Você diz para não pensarmos sobre isso enquanto põe o tema sobre a mesa de jantar, você diz para vivermos no presente enquanto quem questiona o nosso longo prazo são essas sinapses dentro da sua cabeça grande, você diz que não quer viver a mesma história enquanto ensaia a mesma discussão antiga com uma mulher nova, as vezes parece que você fica se convencendo que é de menos para nós dois, e sem perceber, deu para tentar me convencer. Para vai. Por Favor. Para tudo. Eu sei de tudo isso, claro que sei, sei de tudo tanto e nada tanto importa.

Eu te escolho além das nossas escolhas, escolho por que você me faz feliz, porque você me acolhe, e me faz ser mais terna, mais calma, é tão doce isso tudo que me faz querer compartilhar meu dia a dia contigo, minha vida, até minha comida! E bem na mentalidade do drogado “só por hoje”, deixa o futuro pros adivinhos e me faz feliz só essa manhã, só essa tarde, só essa noite e a gente vai assim, dia após dia, escolhendo um ao outro para o resto dos dias. O resto é resto.



Thursday, February 13, 2014

Surpresa


Dos pés à cabeça, veio surpresa. Diz ele que já sabia, já me via, andando pela areia, por aí, de passagem na paisagem, amiga de não sem quem, acompanhada ou sem ninguém... vi nada disso não, vi foi num fim de tarde para lá de amarelado, muito do nada, um homi todo todo, cheio de si, que numa audácia sem noção do olho do furacão, meteu o bedelho meu olhar à dentro, atravessando íris, retina e o escambal, e invadiu espaço privado sem ser chamado. Deixou foi pulga atrás da orelha, Deu nem três horas e já tinha devassado minha rede, adentrou fotos, presente, passado, até mensagem ousou com intimidade de conhecido antigo - a pulga só cresceu. Semana mais tarde apareceu puro sorriso em beira de praia, se abriu num fôlego desatado seus todos e cada porém, discorreu teses cientificas, questões filosóficas e urológicas, sorriu, suou, até de cromossomo falou, eu ali tonta com tanto. Se jogou no mar quando o sol já se ia e voltou num abraço tão apertado que toda minha defesa quebrou em cacos no encontro com seus braços, eu, ainda zonza, entreguei as pontas, e dali perdi a conta de onde isso vai dar. Deixa estar.

Friday, June 28, 2013

Retorno


Te senti tão distante que voei para longe, apertei o botão vermelho e me ejetei. Tão longe que quis que voltasse sem que te buscasse, que viesse vindo por saudades mesmo, sem alarde de covarde. Te senti tão por onde lugares que nem sei e nem importa saber, só sabia que nao era por aqui, nem sinal de vir. Nao te vi nem ouvi por mil léguas submarinas, me afoguei em espera que nao alcança nem descansa, e perdida à deriva me entreguei à canto das sereias do desencanto, resolvi nao querer mais te querer. Agarrada à ponta de rocha submersa descansei, ressequei em mar salgado sem terra à vista, abracei pedra vulcânica e corri de baixo d'água, mergulho livre, desbravando corais, correntezas colossais, atravessei caverna de tubarões martelo e confabulei, me avisaram que mar é vasto e haja pedras no caminho, mas estrelas do mar tão para extinguir, não esquece da que mora em teu peito. Subi em cavalo marinho e galopamos oceanos, me deixou à margem de estrela cadente e num trote eu escalei. Atravessamos céu aberto, galáxias e universos que tinha esquecido de ver, dei salto pra meteoro vasto, só nós dois naquele abraço, desvendando anéis de saturno e côncavos lunares, me deparei com o mais claro do meu escuro e respirei. Não precisava mais esperar, tinha me achado. De peito limpo ao meu leito retornei.

Thursday, June 27, 2013

A Arte do Desencontro

Mas também pera lá, na tentativa de acolher a diferença do outro, há também de se velar pelo o que é mais importante para si, o acolhimento, o zelo, o tato, se não fica tudo no vácuo, vazio, silêncio que ecoa mar em concha, eco que não se ouve em lugar nenhum se não dentro do próprio desejo desnutrido, não regado, e aí, deixa para lá...

(de milho em milho a galinha enche o saco)

Sunday, June 09, 2013

Paraquedas

Dizia que paixão era palavra pesada demais, alegórica, flerte com o fantástico, disse que é bom de amar, isso sabe, “ama muitas mulheres” falou chegando num posto de gasolina numa meia noite carioca, horário de abóbora, mas eu falava de paixão mesmo, vontade de mais histórias, mais memórias, mais encontro, encanto em meio a gozo e risada, e não digo feitiço, aí não vale, não conta, castelo de areia, atalho pra lugar nenhum, não falo de começar já do topo, sem tropeçar em pedrinha nem escalar pedregulho, sem achar as frestas certas pro tamanho do dedo, falo de encanto arrastado, de conhecer cada pinta primeiro, de saber a cor do castanho do teu olho de cor, de entender o calor abafado que seu corpo sopra, de ter te querido tanto com tudo antes de poder entender a fundo teu profundo. Te conheço aos poucos muito, ritmo ralentado, intervalos longos e doses homeopáticas cavalares de pele, de língua, suor, chuva que escorreu do seu rosto em curva cinza cheia de esquinas em que a gente não entrou em nenhuma, seguimos reto, em frente, para frente, seguimos, enquanto pingo grosso escorria da sua mão e pingava na minha assim de longe, sem encostar por que mão ainda é ruim de dar, mas dá outras coisas vai, sabe que ele dá, dá assim sem jeito, meio travado, contrariado, dizendo que não sabe fazer o que mais sabe, que não sabe tocar, conversar, interagir e para mim parece que sabe tanto, tudo. Pediu desculpas hoje a tarde e eu ri assim comigo, ri pensando na peça pregada, na realidade que nos foi apresentada, momento turbilhão, olho de furacão aí e eu aqui em maré baixa, vendo de longe seu tudo tão difícil e querendo chegar junto. Deixa que vento sopra e maré leva tudo pro seu devido lugar.

Tuesday, June 04, 2013

Ah Dois

Quando sua boca crava com força seus dentes na minha nuca deixando cicatriz de ímpeto inconsequente e sua mão imprime em vermelho seus dedos em meu quadril depois que bofetada não premeditada estala minha nádega na medida exata e treme tudo em mim que ainda se resguardava.
Quando seu cheiro entranha da ponta do meu nariz ao meu cabelo, todo meu diâmetro invadido sem parâmetro, cada molécula sua cavando terreno em minha pele, plantando ferormônio malandro que me enlaça em sua dança no decorrer arrastado do que vem depois da gente.
Quando sua língua quente lambe meus dentes, brinca com os cantos, corre mini montanhas e pequeninos vales sem pressa, me devassa frente e avesso e mergulhado dentre minhas pernas,
afogado em curvas e coxas, perdido na vastidão de cada detalhe, nada milhas em centímetros.
Quando teu corpo, devagar, entra todo delicadeza, e adentra de abrupto com firmeza o cerne do mais íntimo, e de repente, de relance, seu riso alcança meu olho bem ali em meio a gozo, extasiada, entrego as rédeas mais que antes e o tempo se desintegra em partículas meteóricas, pairando suspenso em universo paralelo à tudo o que não diz respeito à nós dois a dois.

Thursday, May 23, 2013

Esboço

Dizia que não sabia conversar, não tinha o hábito, falava mesmo era com música. Tocar também não era seu forte, tocar em gente dizia, namorava instrumentos. Mão dada dera uma vez numa tarde ensolarada de um passado que fechara o olho para lembrar, havia tempo, havia tudo tão ficado para traz e ele se fechara pro que morava do peito para fora, guardava ali dentro desalento com gosto de lágrima salgada e doce também, que pouco sabia mas muito era doce, de dar água na boca tinha dia. Na palma grande com seus dedos pequenos morava ternura crua, bela adormecida em meio a campo minado, coroa de espinhos que carregava o peso dos comprometimentos que achava que tinha, do lugar que assumira, do papel que escolhera. Não tinha que nada mas controlava tudo, queria ser o dono do próprio destino, maestro de sua partitura, não deixava o vento levar, mania de nadar contra corrente. Andava mesmo era preocupado, havia tudo um pouco desandado, pé descalço sobre caco de vidro em grama molhada, bolso furado. Vivia a urgência da potencial iminência de algo grave, lhe faltava tanto ali à margem de seus trinta anos e tanto tinha nas mãos, na cabeça de homem-gigante que era, do alto de seu tamanho enorme, do peso de seu corpo entregue numa cama bege de uma cidade quente com uma lora livre lhe dando a mão. Ele dominava a rédea, ela confiava no caminho, ele controlava o passo, ela entregava ao léo o desejo ardente do seja o que for, ele cedia, ela oferecia. E via nele mais do que a dor, mais do que a angustia, mas do que nuvem cinza, via era céu azul, via sol para lá de amarelo, via pingo de chuva em rio de água doce, sabia bem das pedras no caminho. Não tinha pressa, era só o começo.

Sunday, May 05, 2013

A Parede


Onze e quarenta e oito e os minutos não cessavam, se arrastavam em segundos, sessenta deles, compassados. Onze e quarenta e nove e mais um baseado, calcinha desfiada renda rosa choque, buraco pequeno escapando da encruzilhada da costura, e a medalha de ouro no peito.

Onze e cinquenta e uma moeda corria entre seus dedos com destreza, circundava o entorno e parava no fim. 

Ele nunca parava no fim, parava muito antes, nem chegava ao meio. Ele de calça na cama, meia colorida listrada, copo de água gelada no chão. 

Ele acende um cigarro, e ressabiado, vai para janela.

Onze e cinquenta e um e baseado apertado. Ela olha pro céu nublado e procura estrela. 

Ela vai para janela.

Ele sopra fumaça.

Ela acende.

Ele olha pro lado.

Ela para frente.

Ele a vê, perfil prata de lua.

Ela lambe o indicador e o polegar e circunda o beck com saliva.

Ele olha com cuidado, quer ver os dois olhos virados para ele.

Ela olha pro lado. Leva um susto, mas não esconde o baseado. 

Ela ri.

Ele ri.

Eles se olham por mil segundos em um só. 

Eles ficam parados.

Ela olha para frente rindo, olha para ele rápido, faz oi com a cabeça e mergulha de volta no quarto.

Ele espera três, cinco, dez segundos. Ele amassa a bituca com força no cinzeiro de vidro, bebe o copo inteiro d’água e volta para cama.

Ela no quarto ainda taquicardiaca.

Ele sozinho na cama ainda em seu prateado.

Ela dormiu mal.

Ele dormiu bem. Homem tende.

De manhã ela pulou da cama e olhou pela janela, se debruçou para ver por dentro, mas cortina fechada não deixava rastro.

Foi no domingo, ela entrou e virou pro espelho – quem será que tava ali hoje, se preparou – foi quando a grade do elevador já em movimento voltou atrás e deixou a porta abrir de novo.  

Ele entrou e levou susto.

Nela subiu foi frio na espinha, gota de suor escorreu da mão.

Os dois se olharam. 

Sorriram. 

Abaixaram a cabeça. 

Se olharam. 

Sorriram. 

Abaixaram a cabeça. 

Os dois sorriram olhando para baixo sem levantar a cabeça, e a grade se abriu de supetão, era o terceiro andar, uma porta dois destinos.

Duas portas. 

Cada um para sua. 

Ela na frente. 

Ele ao lado.

Naquele instante antes da chave virar, os dois se olharam e o ar sumiu. 

Ela entrou e fechou a porta.

Deixa para lá.