só quem se dispõe a sofrer é profundamente feliz, o resto boia na superfície.
Friday, June 21, 2024
Wednesday, June 05, 2024
Lista de perguntas que me faço
Tuesday, May 21, 2024
Amparo
Te escrevo mais essa carta extensa, explícita demais. Sem beirar qualquer capacidade de concisão, te peço paciência com a minha forma de me expressar. Te escrevo para te dizer que sei que você se dispõe a nosso favor. Vejo o quanto você se desdobra para caber na gente. Não menosprezo o valor desses pequenos grandes atos tão difíceis para você. Seria injusto dizer que você não se move em nossa direção. Ainda assim, te peço um, dois, alguns abraços. Te prometo que eles caem melhor do que soam. É aquela história do pai que dá uma bicicleta no aniversário, mas não consegue dar um afago –– cada coisa tem um valor distinto. E a bicicleta não era um pedido torto disfarçado do intuito de me entreter te entretendo, não era um interesse mal expressado, era só mais uma busca de te apresentar um repertório novo de felicidade. É porque gosto de te ver surpreso com o barato que é brincar, que nem na manhã em que você ficou mais tempo na cama antes do café e disse estar começando a entender essa história de curtir as coisas. E, às vezes, quando estou triste, irritada, nervosa –– assim como massagear teu pé é um bom caminho para acalentar seu coração congelado –– um abraço tende a ser o atalho mais rápido para o meu amparo. Se um dia eu evitar te olhar nos olhos, me dá a mão e me puxa (com delicadeza) para o seu peito; cola seu corpo no meu que minha vibração vira do avesso e eu volto a curtir a vida adoidado. Então é isso, eu aprecio profundamente seus saltos, suas doações, seus atos de amor, amo toda vez que te vejo vindo, mesmo assim te peço para me convidar a pousar nesse peito sólido para que eu possa descansar um pouquinho essa suposta força que todo mundo vê e que acabam esquecendo da proporção direta com a minha necessidade de ser abraçada também. Me ampara daí, que eu te amparo daqui e a gente vai andando juntos, de mãos dadas, como der.
Monday, April 15, 2024
Céu de Estrelas
Te encontro do outro lado. Naquele onde a força se dissipa e dissolve a frieza. Só sobra o doce ali. Te encontro nas estrelas que enchem seus olhos quando inteiro. Te encontro no enlace do abraço onde imerjo no calor do seu peito e danço a música do seu coração. Nos abraçamos e vamos rachando aos poucos a casca fina. Ontem te ajudei a sonhar. Você resistiu, mas bastou um empurrãozinho e a imagem saiu fácil da sua boca, a cidade, a casa, os cavalos, o filho, o amor, o barato, tudo ali em menos de um minuto desenrolando do seu peito pra fora. Não pareceu doer, você disse que não doeu, e que podia realizar o sonho no dia seguinte se quisesse, Tá tudo nas suas mãos. Foi bom te ver desanuviado. Nada é mais assustador do que os fantasmas. Eu disse, é tudo tão simples, você resistiu, é tudo tão complicado. A felicidade mora no abraço –– o desenrolar de um igarapé ao encontro do oceano.
Saturday, April 13, 2024
Mata Virgem
Se relacionar é a arte de se desprender de si e se reencontrar através do outro. Dá trabalho botar o coração na roda e baixar a guarda. É que o outro é diferente da gente e só isso já assusta. Quanto mais instaurado em si, pior – não dá para entrar na roda e querer se manter o mesmo, a coisa te gira e revira num bailar de frequências distintas onde nada é constância. Se relacionar demanda a quebra de um bando de certezas e muita autocrítica para se convocar a crescer junto. Se focar no que afasta, e tudo pode ser motivo, se perde. Já se entregando para o que aproxima, pro que eleva e transforma, a tendência é a transcendência. É desconfortante mesmo confortando. Mas quem quer ser sempre igual? Quem não quer amor? Dizem que o mundo é dos fortes, talvez seja mesmo dos que se permitem ser frágeis. Amar é um ato de coragem: há de se expor e se dispor a se desvendar. Se deixar vir à tona. E assim como tudo é luz e sombra, o obscuro tá incluído no pacote, não tem como correr dos revezes – os traumas, o medo, os modos emergem medindo a coragem. Há de se baixar as cercas, abrir a porteira e seguir o chamado; deixar o outro entrar na gente e entrar no outro, dispostos a se embrenhar em mata virgem sem mapa com destino certo. É sempre novo. É sempre diferente. Dá um medo danado. Tá com medo, vai com medo mesmo.
Tuesday, April 09, 2024
A Rocha e a Flor
Andava à deriva, espalhada em cacos. Procurava por todo canto a parte que perdeu. Era ainda criança a última vez que viu, não sabia onde havia guardado. Às vezes, o sonho trazia a textura de volta – uma vez chegou a sentir até o gosto, vestígio de algo que não se lembrava mais. Despertava sem saber se de fato havia tido o que tanto buscava, quiçá mero fragmento de sonho. Mas a agonia do desencontrar sussurrava no passar dos dias. Seguia escutando as vozes de um passado trancado à sete chaves enterradas à sete palmos num jogo dos setes que não somava nada, menos ainda subtraia o vazio do espaço em aberto onde a parte que não lembrava havia morado. Não conseguia lembrar. Só recordava do nublado daquela tarde estranha e a notícia saindo seca da boca de seu pai. Ele chorava e ela, sem entender coisa nenhuma, lhe deitou em seu colo e deixou que soluçasse sua dor enquanto ela era esmagada entre o céu e a terra sem que pudesse se mexer mais do que o bastante para protegê-lo da desolação de adulto. Ali, ainda criança, sem saber o que fazer, decidiu que não podia chorar – alguém precisava segurar o mundo no peito sem deixá-lo transbordar e afogar em rio. Virou então uma rocha pueril que sedimentava a qualquer vento maior que batia, fingia gargalhar com as cócegas da brisa que a dissipava. Caminhava leve sobre pequenas pedras pontiagudas com o peso imenso de seus passos. Não sobrara muito daquela tarde senão o tanto que guardara escondido em algum lugar mais escondido ainda do que a parte que esquecera. Não sabia o que havia esquecido, sabia só que precisava lembrar ou achar alguma coisa nova que coubesse naquele buraco que a parte esquecida havia deixado. Não fazia sentido viver sem aquilo que não sabia o que era, mas que por certo faltava. Então deixava para as manhãs o silêncio de suas rotinas, ocupava suas horas com demandas para todo lado e assim ia atravessando o tempo na tentativa de distrair, sem sucesso, o furacão no centro de seu abismo. Havia um abismo e ela não havia criado nem pontes nem asas, nem mesmo em seus sonhos dormidos. Descansava na areia movediça das tantas angústias e quanto mais leve pisava mais mergulhava fundo. Era difícil não entornar. Ao se derramar, acabava sempre lembrando da parte esquecida que quando finalmente encontrada voltaria a dar sentido como quando a tinha, ainda na infância, num bolso qualquer de um vestido antigo que ficara curto demais. Depois daquela tarde nublada perdida no tempo, demorou trinta anos até voltar a chorar. Quando veio, chegou em torrente que a submergiu no silêncio ruidoso do que não deixara doer o bastante. Havia de doer, cedo ou tarde. E enquanto doía ela não sabia ainda que iria sentir seu couro rasgando a fio, sua pele descascando como cobra, de repente lagosta que crescera demais para couraça e ficara sem armadura nenhuma debaixo de pedra virando rocha pueril –– se aguentasse, virava pérola. Era difícil conceber tão precioso destino, o de pérola. Fora despida de tudo que a sustentava quando sua rocha ruiu. E assim, à deriva, ficou a vagar pelos segredos que escondia de si enquanto tentava nadar contra a corrente, se segurar em uma rede de pesca, âncora de barco, um pedaço de tronco despejado pela última tempestade. Se respaldava em destroços, brevemente segura, mas logo a correnteza a jogava de volta no redemoinho dos segredos que guardava de si. Não tinha azul que a salvasse das trovoadas asiladas à sete chaves enterradas à sete palmos somando zero que não é exatamente a ausência de um número, mas é infinito também. Achava que precisava ser leve como vinha sendo, ao invés de tentar escutar o barulho de dentro. Corria rápido demais, dirigia seu corpo pelo mundo em piloto automático, sem cinto nem tranca, e depois se assustava com a velocidade em que o asfalto se apressava por baixo de suas rodas suspensas sobre o chão de céu. O solo queimava seus pés descalços e ela alargava o passo querendo ser tão livre quanto achava que era ou que queria ser se conseguisse esquecer que havia esquecido justo a parte que era para ela primordial e ainda assim imemorável. Alguma hora ia precisar parar tudo até a ausência total de movimento e procurar a parte que esquecera sem distração. Ia precisar se ausentar de todos seus tantos por tempo indeterminado e voltar para a tarde escura na memória em que a notícia chegou aos seus ouvidos e seus olhos, boca e a terra pararam de girar. Não era só aquela tarde, era tudo antes também e tudo que vinha depois. Nunca mais fora a mesma desde que perdera a tal parte imprescindível para seguir jornada com o acalanto dos abraços dos que podem chorar juntos o tempo que for sem precisar se constranger ou se desculpar. Precisava poder se entregar para outros braços além dos seus, que foram seu único abraço naquela tarde em que sua mãe morreu. Já não era mais o bastante. Descobrira aos poucos que precisava de outras ajudas além das que traziam soluções. Havia procurado guias e encontrado até um certo conforto, mas enquanto não saísse de si e se relacionasse com o outro como um outro que de fato pudesse chorar junto sem se constranger nem se desculpar e em seu abraço pudesse ser frágil como as coisas invisíveis que se derretem umas nas outras por osmose. Se só pudesse contar consigo não abraçaria nunca nenhum outro senão as feridas de sua própria carne e todos mais seriam apenas reflexos de suas cicatrizes. Precisava sair de si e procurar algo novo, apesar do que fora esquecido naquela tarde porque aquela parte talvez nunca mais voltasse, ou talvez nunca houvesse existido, justo por ter virado outra coisa que ela, lá do alto de sua rocha, não conseguia ver – a flor.
Monday, April 08, 2024
Freio
Dei dois passos para trás. Senti seu receio e freei. Ninguém joga ping-pong sozinho. Será que seu desejo de amor está mais para utopia e quando ele se apresenta você percebe que não sustenta ou que não pode tanto? Será que você funciona na insegurança, no desafio, na conquista e ao se sentir amado você se arma? Se você diz que não acredita na linguagem, suas palavras são da boca para fora? E eu escutando suas barreiras e repensando no salto do alto do desfiladeiro que dei quando acreditei no que você tanto pediu. O perigo é que o meu ajuste de voo é a defesa para poder planar em um pouso mais contido e o resultado é a perda da espontaneidade da entrega, do salto, do amor. Acabo segurando a rédea do mais bonito –– o imprevisível. Você se declara inteiro, mas ergue muro e eu fico confusa, achando que não dá para me entregar de peito aberto para bater de cara em parede. Se você quer espaço eu te dou em dobro. Se você receia, eu dou ré. Sofro desse mal, quando necessário, viro o leme pro lado contrário apesar do que sinto ou quero. Sei me proteger.
Thursday, March 28, 2024
Atlas
Deitada em seus braços ouvi uma história que começava assim: Depois de lutar contra seus tantos deuses, Atlas pousou seu mundo em mim. Descarregado de seu encargo, pôde arregaçar asas largas e alçar voo sem se queimar – Ícaro é outro homem, não ele. Esse tem peso de vulcão e, se ele incendeia, é no meu plexo com a intensidade de chama que quica no peito e mergulha alma adentro. Ele tem costas de prata e leveza acrobática de menino. Na extensão ampla de seus arcos, nadei o vasto de seu oceano atravessando pilares rumo à nossa cidade perdida. Senti seus dentes cravarem em meus ombros a voracidade da fome contida. Provei romãs em sua boca, ambrosias e todos os néctares que cicatrizam os cortes. Me assentei em seu corpo, transbordei pranto que nem eu sabia guardar e entreguei para ele meu colo – deita aqui no meu abraço e a gente descobre junto terreno esquecido, desconhecido, perdido dentre as tantas memórias e ideias novas do que pode ser o amor. Bem, esse foi só o começo da história que ouvi, o resto só Cronos pode contar.
Friday, March 08, 2024
Gole
Deixou um gole de água na garrafa. Bebi no gargalo para tocar na sua boca. Deixei sua última gota escorrer jorro goela abaixo. Fiquei com teu gosto encruado no corpo, com aquela risada pequena, de canto de boca, aquela que vi enquanto mergulhava num bando de canto do teu mapa. Desvendei vielas esquecidas, aportei nos picos, aterrissei meu peso no seu peito e derramei gargalhada. Um breve reencontro perdido no tempo, quase duas décadas entre ontem e a última vez que te vi, ainda assim, não pareceu ter espaço entre os dois, um momento entrelaçou no outro na ponte entre a cronologia das coisas. Há algo de precioso no destrinchar do tempo. Se passarem mais vinte, fora as bananeiras, aposto que acontece a mesma coisa.
Thursday, December 21, 2023
Edinho
Tuesday, December 19, 2023
Abismo
Se expandir é um exercício de desconforto. Cheguei aqui e precisei me despir de mim para me abrir pro novo. Não é fácil e, ainda assim, é por isso que vim. Me deparo o tempo todo com quem eu era e quem eu posso ser. Do acordar ao dormir me emociono com o que não conheço. Me relembro que vim para conhecer, me desconhecer e reconhecer. Deixei no Rio tudo que sabia, disposta a rachar minha carcaça e buscar o cerne. Sou aqui uma estrangeira para mim e busco o estranhamento justo para me desconcertar. A cada medo que atravesso me descubro mais um pouco. Vejo o abismo e salto. É que a beleza vai além dos olhos. O tal do encanto infantil de ver no simples o extraordinário, de abrir o peito pros encontros com tudo e com cada um. Me rasgo e me cicatrizo. Me fortaleço a cada passo que dou para frente ao invés de correr pro meu próprio colo. Para voar preciso saltar dos tantos desfiladeiros sem saber onde vou encontrar pouso, mas quando aterrizo sinto minhas asas ainda maiores. Não sei o que vai brotar disso, mas já tá dando em tanto que não precisa de mais. Me jogo nesse Rio amazônico tão barroso quanto as certezas e fluo. Quanto mais me quebro, mais inteira fico.
Monday, November 27, 2023
Rédea
Sexta-feira você me olhou diferente, sorriu riso aberto olhando no olho, disse tudo que eu queria ouvir sem nenhuma palavra e atravessamos a rua mais juntos do que até então. Você me segurou pelo pescoço, pelo ombro, pela cintura, me regendo pela calçada na direção do seu caminho. Eu me deixei levar, entregue à sua música, assim como havia previsto a rédea dada. Tinha te reparado ainda de dentro do táxi, calça clara, camisa escura e seu jeito firme de sustentar seu corpo no mundo. Você tem as costas largas do rey da Prússia, eu tenho as costas largas da floresta amazônica, nós dois temos o mar. Nesse encontro de dois (mil) mundos, há tantas costas para gente desvendar. Esse final de semana, pela primeira vez, dormi em teus braços, rolei na grama macia do seu peito em meio a sonhos eróticos e acordei pro tal café da manhã que te contei por escrito. E a gente segue assim, se expandindo juntos, se estranhando e se expandindo mais ainda. Dois polos opostos com o cerne parecido.
Thursday, November 02, 2023
NadaR no Mar
Tuesday, October 24, 2023
Branco
Vi tudo branco. A blusa. O cabelo. A luz. Senti o sopro da sua brisa em meio a leds e neons. Assisti no fundo do seu riso o menino dentro do homem. Todo seu torpor estampado no verde dos teus olhos largos. Provei teu entusiasmo preenchendo o espaço com a torrente de palavras que desencadeou, eu já nem lembro mais – a gente falava de mar, de escrita, de mundo e mergulhava noite a dentro sem olhar pras horas escorrendo entre os dedos. Você me perguntou onde a gente podia dançar. Uma conversa. Um estalo no tempo abrindo uma porteira nova na estrada. Adentramos o portão. No caminho, melodias enviadas por satélite, voando até o céu e trocando de mãos, o tesão se costurando na harmonia das tantas histórias cantadas e escritas. E veio o tal do sorriso que atravessa o peito por trás da rotina dos dias, o barato do desvendar aos poucos o outro, ir descobrindo os detalhes e o todo. Aí teve a transa que começou no encaixe do abraço que virou beijo e, antes mesmo de você me adentrar, eu já transbordava. Coisa de pele. Depois veio tudo mais. O peso do teu corpo, seu cheiro, nosso gosto misturado, a troca, o riso. Um bando de barato. Aonde vai dar, não sei. A gente nunca sabe. Eu prefiro o presente.
Sunday, October 15, 2023
Abraço
Abre os braços bem largos, expande o peito além do limite, rasga o cerne ao meio e deixa caber mais. Deixa as extremidades se esticarem pro mundo e abraça o céu, as estrelas, a porra toda. Respira fundo o entorno, absorve o que te comove e anda junto. Sabe aquele lugar que sorri dentro da gente e pulsa abundância por inteiro? É um botão que a gente aperta num canto de si e que desperta o que dorme lento nos dias anuviados da mente. Uma lente. Um jeito de olhar para tudo e qualquer coisa e deixar que os sentidos toquem o mundo com dedos de pétala. Tudo são flores, mais ainda os espinhos que apontam o contraponto das escolhas desalinhadas com o que pode ser bom. Qual o sentido das coisas se não nos fazer sentir? Se transforma com o ar como o vento voa em correntes quentes e frias, as marés altas e baixas. Não nada contra. Não se afoga. Não se afoba. De sempre só o hoje. De eterno só o agora. De tudo, só a vazio que a gente vai preenchendo com a gente que a gente cria em si e no encontro com o outro. E se o outro não é só alguém, é tudo, as plantas, as águas, as coisas, a temperatura e textura do dia, noite, madrugadas à dentro peito à fora; se nos relacionamos com tudo e todos o tempo todo e o silêncio é só a ausência de voz humana externa, porque a interna quase nunca para, nem dormindo, nem sonhando; se o silêncio é só o barulho ruidoso dos detalhes invisíveis que quase nunca prestamos atenção, o pequeno ronco do infinito que mora em cada segundo, cada escolha, onde fica a paz se não na habilidade do encontro com o sublime? A solidão é barulhenta, a gente que escolhe a música numaa dança com os movimentos internos. Em que frequência você toca?
Tuesday, September 05, 2023
TEMPERANÇA
Você se move lento, às vezes até o olhar fica com preguiça de se abrir por inteiro. Disse que é timidez, quiçá uma idade antiga que permeia sua juventude. Já eu olho e acho que é seu jeito de se proteger da dor, de olhar pro terror com a isenção de quem se defende, a tal calma que você mencionou quando o mundo se despedaça e você é tomado por temperança. Você que lida com o desespero no dia a dia e entra em cena para resolver o trágico, se educou a ser forte. Mas se proteger da dor é também se proteger do encanto. Você é a solução do outro, no mínimo a opção mais sensata. Qual é a sua solução para si?
Disse ainda que não se apaixona faz tempo, mais de década, cercado de um mundo sem brilho em que o olhar atravessa sem mergulhar no profundo. Ah, a temperança... Fiquei ali te ouvindo, encarando sua tristeza dentre sorrisos e perguntas. Te vi inteiro na melancolia que mora em seu olhar – você disse que vem de ter poucos amigos, da solidão, e eu que amo a solidão, convivo com ela desde sempre e a defendo com unhas e dentes, ainda assim não conheço tanto a constância da tristeza, e sim o mergulho no profundo a que ela me leva e que depois me quica de volta pro mundo mais forte e disposta ainda. Então tendo a achar que é mais sobre uma lente pras escolhas do que sobre ser solitário. E pensa bem sobre suas escolhas. O que te moveu até aqui foi tudo além da comoção, e digo no sentido exato de comover, correlacionar, de ser impactado pelo encontro, pelo encanto, e de se transformar através do que te revira do avesso? Você não escolheu avessos, você escolheu um trilho, botou seu trem sobre ele e foi tocando para frente, conquistando parada por parada um troféu atrás do outro, agora descobriu que não é o bastante. Não bastam as vidas salvas, as férias, as conquistas, os one night stands. Não basta. Algo te falta. Seu olhar grita pela força do que vai além do controle, pelo brilho que tilinta para além de qualquer escuro. É que o preço da frieza é o frio. Há a temperança.
E talvez, arrisco aqui dizer, que o caminho seja se jogar no que você não domina, no que te assusta, no que te tira do trilho, da segurança das suas tantas habilidades adquiridas. Talvez seja sobre ter menos a rédea em suas mãos, e “indomar” seu leão, ou escorpião, sei lá. Mas se jogar sem saber onde isso vai dar, se arriscar a errar, a perder, a se estraçalhar para se descobrir mais inteiro do que nunca, porque cada vez que a gente se racha em mil, a gente descobre de quais pedaços somos feitos. Quanto mais me quebro, mais segura fico do que sou, e mais pronta para me quebrar de novo por saber que nunca me perco de mim, pelo contrário, me construo cada vez um pouquinho mais.
Talvez se perdendo um pouco de si, você se encontre mais do que nunca. Mas quem sou eu para saber... Meras impressões de um breve encontro.
Monday, August 28, 2023
Xadrez
Em minha mão, te despedaço. Antes do tamanho do meu corpo, agora uma ínfima pedrinha craquelada, seca, te desfaço em poeira entre meus dedos. Nunca é bom despertar esse meu lado. Me descolo da ternura e visto armadura. Estraçalho sua força em grãos de areia. Te espalho, desentendido do que pelo foi acometido, achando que saia por cima, voltou por baixo, desconcertado com o próprio desatino. Detesto jogar porque sempre ganho. É chato para mim. No terreno do poder tenho ferramentas demais. Domino a arte da articulação emocional, controlo o leme do barco. Te rasgo no meio, viro do avesso e descarto o que sobra justo quando sentia em tuas mãos a rédea. É porque detesto deselegância, esse modo juvenil de se impressionar com o próprio reflexo na paixão do outro e se sentir superior. Nada sexy. Achar o outro menor justo por te desejar. Talvez tenha razão, o outro só pode estar louco, cego, bobo para te achar que vale tanto - o objetivo é não ser querido, aí sim faz sentido. Então te trato assim, como uma peça qualquer de um jogo vencido. De rei a peão no tabuleiro do desencontro. Te embaralho em minha mão e te descarto em uma solitária que minha vó me ensinou, e a vó dela ensinou para ela e que se houvesse mesmo Eva teria sido desde então, ou dos macacos mesmo que também regem seus bandos com jogos de poder. Bato o olhar e desvendo até o fim a coreografia das suas cartas. E é sempre a mesma coisa, basta eu montar meu xeque-mate pro outro se deparar com a rota que escolheu. Tarde demais. O vaso se quebrou em mil cacos, as flores se despedaçaram pelo chão. Pego a pétala mais linda que restou inteira, a olho com atenção, a mastigo entre meus dentes até engolir só o que espremi do teu bom, e cuspo seu bagaço na calçada violeta por onde meus pés pisam a caminho da feira.
Sunday, August 27, 2023
RABISCO
Sublinhei uma frase num livro e escrevi seu nome com sobrenome para ter certeza de em quem pensei quando primeiro a li. Já me despedia, prestes a começar a jornada do esquecimento, quando te engaveto no lugar do que atravessa e não fica. Me despeço precipitada do que se afasta. Sinto a distância se expandir e corro para o lado oposto passadas largas. Corto com a faca amolada das grandes escolhas seu gosto e ponho no pote do que se esvazia. Fecho a tampa sem permitir que suma por inteiro. Guardo em vidro grosso o que sobrou do encanto para que ele se reste assim na prateleira das memórias. Nunca gostei do amargo, então deixo que o doce sobreponha qualquer outra lembrança. Aquele último pedaço da sobremesa deixado no prato propositalmente para não findar de vez com a ternura que, por um instante, às vezes tão breve quanto uma mordida, senti na boca. Preservo em silêncio a imagem do que foi, como um retrato amarelo de um álbum com poucas fotos. Só floresço na reciproca. Deixo chover todas as gotas do seu rio e selo a fonte com cimento fino. Te deixo ir. Não pergunto. Não insisto. Apenas te assisto indo e me despeço, como que observando o brilho de uma estrela esvaecer até desaparecer por trás de uma única nuvem que escolhe aquele pedaço de céu para nublar primeiro, eu que botei ela ali para cegar tua imagem o quanto antes, para mantê-la sempre ainda como aquele primeiro sorriso, é ele que escolho guardar da gente.
PIXELS
Se soltou do abraço e atravessou o céu um bando. Desenhou um triângulo entre três continentes com sua rota pelas nuvens. Ela, lá no primeiro ponto do desenho, voando alto sem sair do lugar. Ainda assim pulsavam juntos um tambor que só bate dentro do peito. Dançavam um baile entre corpos longínquos, juntos mesmo de longe. Bastava fechar os olhos, mesmo abertos, para se abraçarem no escuro das memórias que se reinventam em retratos de um possível futuro. Lembrar era imaginar lembranças novas, ainda nem se quer vividas e que, quiçá, jamais serão. Ainda assim, valia a pena sonhar. No fundo, era inevitável. Foi o que sobrou daquele breve grande enlace –– química que move mares sem painel de controle, apenas dois barcos que navegam suas rotas sem jamais precipitar que podem vir a desejar um porto em comum. E quem controla pensamento se não os afetos?
Te vejo transitar por terras distantes. Assisto curiosa fragmentos de você por ondas de satélite que saem de mim até o céu, chegam até você, e vice versa – amor pixelado até o próximo abraço. Quando te penso, ouço a frequência das nossas ondas tocando ao fundo em uma rádio que só nós ouvimos, músicas que ainda nem escutamos.
Monday, August 14, 2023
Visita
Seu sorriso do outro lado da porta.
Um beijo.
Um beijo que se estica e a gente brinca de pular a corda do tempo num desenrolar do entrelace dos corpos.
Cabem mil horas no nosso breve.
Sua superfície se adere à minha pele, acende fogueira e derrete o entorno.
A gente se despede.
Ouço o ecoar do seu riso no elevador.
A música continua tocando.
Saturday, July 29, 2023
Casais
Uma mesa de bistrô de shopping, Ella toca nos auto-falantes enquanto os quarenta minutos até a peça passam mais rápido do que o tempo que eu gostaria de ter para comer. Um casal decide ir embora sem pedir nada, apressados para o teatro. Aviso do tempo até a peça e o garçom diz que meu pedido cabe na janela. O senhor da mesa ao lado me diz que todos no bistrô estão indo à peça das 20hrs, “deve ser boa”, alheio aos três teatros diferentes com peça às 20hrs. Sua companheira de mesa me olha com um sorriso entediado. Ele tenta engatar mais umas duas amenidades e eu me fecho com gentileza, evitando adentrar sua programação de sexta. Ele volta a atenção para sua companheira e eu entendo então sua tentativa de conversa. Ela, monossilábica, não engaja em nenhum assunto. Não importa o que ele pergunte, o quanto ele sorria e tente engatar uma história, se mantém desinteressada, à deriva em seu silêncio. Me pergunto se está chateada, mas ela solta um “o crepe tá uma delícia”, e ele abre um sorriso generoso como se tratasse de uma fala engajante. Se encoraja em contar mais duas coisas relativamente engraçadas, ela nem esboça sorriso. Me assolo com o aparente abismo entre os dois, imagino que ela seria mais feliz com um homem menos simpático, e ele cairia em êxtase com uma mera gargalhada de uma mulher. Imagino se um dia seus olhos brilharam um pro outro ou se engataram por uma gravidez indesejada em família careta, um casamento armado pela expectativa alheia, ou se se mantém juntos só pelo comodismo de pensar que a vida poderia ser pior ainda sem o outro. Ele olha pros lados, busca seu olhar, ela continua fechada. Mergulho em minha dramaturgia me perguntando se ela se delícia com algo além de crepe francês. Até que ele paga a conta, se levanta, espera gentilmente ela levantar, abre espaço para ela andar na frente e, já ao longe, dão as mãos. Me perco com o vazio de tal visão das mãos frias entrelaçadas, mas sou rapidamente arrebatada por um novo casal de idosos que se aprochega no lugar deles, dão um selinho antes de sentar, ele segura a mão dela sobre a mesa enquanto combinam a próxima viagem para Toledo.
Thursday, July 27, 2023
Bola de Gude
No meio do disco um arranhão, um descompasso sutil, uma bola de gude perdida nas frestas de um chão antes de cimento liso em construção. Uma mera bolinha de gude que ecoa sua queda em um som mais alto do que seu tamanho, imprimindo sua ínfima linha por onde rola. Ela é palpável. Basta botá-la na palma da mão e guardar no bolso para virar memória, memento, token dos pequenos arranhões. Vi a bolinha numa frase tua, “Aquele tipo de encantamento que não sinto há anos, nem sei se ainda posso sentir de novo.” Foi como se tudo nosso até ali tivesse sido trivial, sem impacto maior do que a tal bolinha de gude rolando pelo chão. Para mim sempre houve encanto, além de toda diversão. E o tempo merece tempo para ajustar seu malabarismo com as bolas grandes e pequenas do caminho. Ainda ouço os sons do encontro. A música continua tocando.
Saturday, July 22, 2023
Prioridades
Ontem você ficou mais do que queria. Hoje despertou com o gosto expirado de prioridade posta de lado. Acordou com pressa, se disse exaurido, cansado, poeira de si. Fiquei ali ouvindo o silêncio dos seus planos secundarizados, vi em seu semblante o véu fosco da culpa sobre a escolha tomada. E pode ter certeza que te entendo, conheço esse gosto na minha própria boca, gosto do que não atendi em mim, do que relativizei e empurrei para debaixo do pano só para crescer bola de neve no peito. Não quero ocupar seus espaços preenchidos, menos ainda distrair seu foco. Existo para agregar mundos, somar caminho, sem querer virar desvio de nada. Não gostei de te ver à deriva do seu porto bem ali do meu lado, saudoso do que não fez. Gosto de compartilhar desejo sem jamais sufocar pulsão. Não alimentemos sacrifício, nem gosto de obstáculo, só entrega plena, sem culpa. Dá próxima vez que te sentir assim, prometo que te deixo ir sem propor nem pedir, me fala também. Sei que foi bom e tals, mas prefiro você saudoso de mim do que comigo com saudades de algo. Prefiro ver seus olhos brilhando, sempre.
Tuesday, July 11, 2023
BIG BANG
Uma pedra rompe a superfície da água, estilhaça o invisível, atinge o secreto. Entre as coxas um monte quente vibra, se espreme, se aperta e enrijece até perder de todo o controle e se render por completo. Um descarrego de sons, gemidos, mil gritos internos ecoam a sinfonia do transe. A pedra desce lenta abismo à dentro espalhando gradualmente suas ondas em transborde. Do ventre às extremidades, reverbera pequenos espasmos eletrizantes, pulsa seu tremor em espiral. Nós dois ali, jogados um sobre o outro no mansidão do que vai além. Seu mel esparramado em meus vales, o meu ainda dançando na harmonia do seu gosto. Você crava seus olhos nos meus, a gente se atravessa, nosso intenso se derrete.
Monday, December 12, 2022
Sobre o Amor
Com uns treze anos me apaixonei por bob marley, eu soltava o verbo com suas letras políticas e uma de amor ecoava junto, bastava cantar “I’m willing and able, so I throw my cards on your table” e a frase ficava girando na minha mente. Eu entendia as palavras, mas minha tradução ainda não alcançava o tamanho do sentido. Alguns amores mais tarde, seu significado foi se alinhando e desde então eu carrego comigo esse conceito de estar disposto e hábil para se jogar na mesa, para se colocar integralmente num encontro como base do relacionamento. Vai mais ou menos assim, se sinto terreno fértil não me disfarço, não me escondo, não me mascaro, me apresento do jeito que sou - ponho as cartas na mesa. E sei que não sou fácil: não acredito em para sempre, em metade da laranja e defendo ainda que não existe futuro, sei da estranheza que isso causa, mas de fato é como penso. Para minha defesa, acredito no hoje, no que podemos construir com a nossa história a cada dia, acredito em se ouvir hoje, em se entender e transformar desentendimentos em entendimentos hoje. Acredito em pedir desculpas, em abrir as sombras, em buscar crescimento no feedback do outro e terminar abraçados porque não se deixa problema mal resolvido pro dia seguinte. Acredito em cada um viver sua individualidade, ter seu mundo próprio e se encontrar no meio, alimentar o terreno do à dois com todo carinho e respeito sem destituir o nosso direito do à um. Acredito em se abrir, em se expor, em se deixar ser vulnerável e ver o que se dará no outro. Nossa, mas isso assusta… e que assuste mesmo o quanto antes os que não se identificam com o modo. Não me abato com a indisponibilidade do outro, entendo que naquele solo não cresço e sigo. Acho bonito quem tem a visão romântica do amor eterno, mas sei que amor não é o bastante. Amor incondicional então, vixi, não creio mesmo, fazer o outro feliz demanda saúde e isso implica em várias condições favoráveis. De gente boa o inferno tá cheio, ser legal não é o bastante. Se não houver afinidade e saúde no modo o encontro vira desencontro.
Amar é estar disposto e hábil a se entregar, mas também a não se perder de si.
Sunday, November 15, 2020
Nagô
Monday, November 02, 2020
Segunda-Feira
São 10:47 de uma segunda-feira e o copo tá pela metade. Entre conversas sobre a política americana e análises do último crime passional no estacionamento de um shopping carioca, me distraio com sua meia branca alta e a bicicleta encostada do lado de fora do corredor de madeira. Ele se move pouco e pensa muito, o olhar se divide entre os passantes e um aparente mergulho interno. Algo o assola. Ed pede mais um pão na chapa e chamo sua atenção para a solidão do vizinho de mesa. “Bebendo essa hora, deve ser filósofo...” Ed, esmero cronista da fábula da vida alheia, solta seu sarcasmo do canto da boca “...ainda mais com essa meia da Nike e corpo de atleta.” Para o Ed todo magro tem um quê de atleta. “Antes fosse o Les Deux Magots e ele um Sartre a espera de sua Simone, mas os tempos andam escassos ultimamente...” adiciono rindo enquanto peço uma água de coco, “A solidão do homem moderno, minha filha.” São 11:02 e seu copo se esvazia de uma cerveja não tão gelada como uma noite de sábado. Assisto as pequenas bolhas gasosas se esvaecendo com os minutos passando e ele põe o fone de ouvido. Será que ele já pedalou, será que ele ia pedalar mas desistiu ao parar no sinal vermelho e olhar para cadeira vazia do bar? Assisto de longe seu indicador repetir a mesma ação no celular, imagino um site de encontros, rostos e mais rostos perdidos, maquiados, de biquini, frente à uma praia deserta, uma lancha ao fundo ostentando uma realidade não tão atraente, ou talvez uma ponta da Torre Eiffel desenquadrando a multidão de turistas, uma nadada com golfinhos quiçá. É novembro e logo Dezembro e o fim de ano vem com gosto de mais um fim de tantos fins, mais um ciclo fechando dentro dos ciclos finitos de cada um. Os comerciais de natal já já tomam os muros e outdoors da cidade, seu copo se esvazia. Me despeço do Ed e sigo pro banco, para banca, farmácia, hortifrúti, a semana começando e atravesso a faixa de pedestres de volta e ele continua ali, sozinho às 12:07. Ele me olha, eu finjo não ver e viro passante. Ouço de longe ele pedindo mais uma cerveja.
Wednesday, October 14, 2020
Sus
Movida pela proximidade, mas sobretudo pelas saudades das Sus, resolvi tomar um segundo café da manhã na Rio Lisboa. Já cheguei sendo bullinada, zoaram minha magreza, falaram que eu tava que nem Bruna Marquezine, beirando a anorexia e que os carboidratos processados da padaria estavam me fazendo tanta falta quanto a presença delas. Tentei me defender, sem sucesso, “desce mais uma tapioca com ovo”, mas me fizeram dar voltinha, apertaram meus detalhes, perguntaram o peso, que aliás continua o mesmo, “magra de ruim, essa diaba.” Sueny sempre bem informada pelo tal do “Fofocalizando” que agora virou “Triturando”, contou sobre o mundo flex dos galãs de novela, comentou a possível volta da Xuxa para Globo, os últimos detalhes de uma separação pública do mundo sertanejo enquanto Suzana ouvia se fazendo de desinteressada, com a usual cara de deboche, não sem deixar de complementar as fofocas com o que sabia – menos que Sueny sempre, crítica ferrenha dos pormenores do entretenimento. Sueny gosta de novelas turcas do You Tube dubladas em espanhol, descobriu que por lá eles comem legumes com chá no café da manhã e homem não toca em mulher, ao contrário da libertinagem do reality da TV de Cristo que até beijo gay envolveu. Suzana é mais descrente do glamour, com seu senso crítico afinado, prefere debochar da burguesia passante enquanto Marlene gargalha lá do caixa, falando toda cocota que tá na flor de idade, Sueny não perdoa e a chama de Dona redonda, todas gargalham. As duas apertaram minha bunda, eu as delas, gritaram “sai, capeta!” pra coroa tentando se engraçar com piadinha, sentaram junto pro café e ali em uma breve parada no antigo quintal, janela aberta para cozinha luso carioca onde tantos encontros furtivos eu costumava ter pré-quarentena, tantas conversas sem pressa ao balanço da fumaça do café preto. Saudades da vida normal.
Saturday, August 22, 2020
Cheio de Ar
Me deparo com o tempo. Andava tão sumido, todo mundo reclamando sua falta e ele aparece sem aviso, sem um telefonema anunciando sua chegada, sem dar tempo para me organizar para o tempo, o interfone toca e pede para não descer, o tempo vai subir. De repente me deparo com o presente em uma caixa embalada com fita vermelha e nada dentro, cheia de vazio. E se o copo está cheio de ar, sempre esteve, agora só resta transpirá-lo em algo novo. Outro dia meditando senti a pulsação do todo, a cada respiração inspirava um pouco do universo para dentro e expirava um pouco de mim para ele de volta. Outro dia ouvi o silêncio e ondulava pulsando. Tenho escutado os barulhos por traz dos sons, tenho olhado pro que mora atrás do olhar, ouvido os subtextos disfarçados nos textos, tenho estado presente. E foram fases, andam sendo. Primeiro o alívio da sobrecarga, o sentimento fino do dissipar do stress, depois o buraco, e agora, José? Veio um bando de barato solitário em forma de arte, música do despertar ao fim do entardecer, muitas palavras escritas e livros devorados e à noite filmes e mais filmes, me enchi de mim e não cabia quase nada mais, escolhia um telefonema por dia para trocar tudo que tinha e de resto meu tempo com o tempo guardava para mim. Três meses destrinchando memórias, refazendo traduções de histórias antigas e transbordando ficção. Livro escrito, me dei férias da minha própria demanda e me joguei na pequena bolha paradisíaca à que me permiti, escrevi sobre a ilha e fui para a que pude criar em meio à quarentena que Zeus nos deus, aqui do lado, ali em Búzios mesmo, podia até ter sido aqui dentro do templo mas lá, cheia de tantas diversões azuis, me distraí de mim mesma e me perdi um pouco de novo. Agora tô aqui, de volta para casa, eu e essa mesa, essas teclas, o café e o baseado, hoje com 70’s ecoando pelos alto-falantes da sala, a chuva chovendo e o buraco de novo no peito esperando pela próxima solução de preenchimento. O que vira, o que virá?
Tuesday, July 07, 2020
Jeito Assim
O dia tem se anunciado sem alarme quando a mente se satisfaz de sonho. Agora a lua já se esvazia e meu peito se enche do simples. Tenho precisado de pouco para sentir muito, ando vendo o extra no ordinário. Um som, uma planta, uma revoada de cortina me comove. Hoje despertei com os pássaros e subi nos pedais do dia rumo ao azul do mar invadida de amarelo, o vento dançando meus cabelos. Me encontrei com a pedra do Leme e mandei um Saravá para Clarice e seu cachorro como de costume enquanto assisti a luz batendo na pele da pedra e a umidade refletindo seu verde e prata. Movi as pernas em cadência contra um leve sudoeste me divertindo com o impulso contínuo do corpo em movimento cada vez mais acelerado. Gosto de correr sem pressa, pedalo o mais rápido possível e plano dentre nuvens esparsas até que chego a mais um destino – e de todos os mares da orla, no do Diabo sou mais eu. Ali onde o vento faz a curva e a força de um forte se encontra com a energia de todos os santos de tantas baleias e peixes grandes arpoados em sua esquina, ali onde o sol rasga o dia no céu e a lua esbanja todo seu vermelho na vista vasta das montanhas de Niterói, sinto as correntes abarcando meu corpo e minhas marés se revirando enquanto fluo com a água.
Hoje caí sozinha em mar calmo, microwaves me ralando contra a areia da beira e eu entornando meu feliz. Três gaivotas namoravam a brisa enquanto uma tartaruga solitária seguia seu caminho com rumo e sem pressa. Um casal preto reluzia todo seu brilho na pedra, era bonito de ver. Um nadador atravessava com braçadas largas a estrada do mar enquanto os minutos se esticavam e meu corpo boiando. No céu vi a teia do invisível, assisti calada ao que vai além dos olhos, observei a trama de dimensões etéreo universais transcendendo em ondas eletromagnéticas o tecido da via láctea em meio à nossa galáxia em um só corpo quântico respirando com os pulmões do universo. Ouvi o sussurro da teoria das cordas desenhando sua matemática abstrata bem em frente aos meus olhos e fui tomada pela consciência da conectividade dos estados para além da existência física, onde o corpo fenece mas o espírito atravessa o plano da matéria sólida. Subi na minha bicicleta me sentindo pedaço de um inteiro e o peito transbordando cosmos. Sei da pequeneza de meu tamanho e ainda assim me sinto grande. Tenho questionado a norma, duvidado da forma e deixado que meu jeito seja do jeito que é, e talvez seja estranho, incomode, não pode, sigo seguindo do meu jeito assim.
Friday, July 03, 2020
Edinho Primitivo
Chegou da Amazônia com dois dias de atraso, entrando de supetão em corrida até o banheiro para fazer seu usual xixi de porta aberta já contando histórias às alturas, sempre achando que quando fala eu consigo ouvir de qualquer lugar. Botou sobre a mesa o pequeno pote de óleo de copaíba puríssimo Paraense, demandando a parcimônia de sempre, “ouro se usa em gota, minha filhona querida.” Contei do doc do Vinicius e ele desengavetou mil histórias sobre o poeta que lhe chamava de “Edinho, homem primitivo.” Lembrou de cenas e mais cenas contadas sem pressa: por nossa mesa passaram jantares com Chico, aprontamentos com Orlando Villas Boas, viagens com Vinicius, e por aí foi. Sacaneou o caso de um amigo com “uma menina bonitinha, porém uma orquídea de alienação...” e eu só no deleite. Recém chegado do arquipélago de Anavilhanas, segundo maior parque pluvial do mundo, reserva ambiental de quatrocentas ilhas em meio ao Rio Negro, “um dos paraísos do planeta e que tão poucos brasileiros conhecem,” contou do mateiro aparentemente muito humilde do povoado de Urucum que falava inglês, espanhol, francês e alemão, viajara o mundo através de visitantes que usavam seus serviços de guia, tinha filhos a perder de vista, e que para sua surpresa, acabou por ser milionário, dono do mesmo hotel em que Edinho Primitivo estava hospedado – o homi tinha a articulação e genialidade de um Machado de Assis Amazonense, constatou meu pai Macunaíma.
Hoje se estendeu mais do que o comum para minha sorte. Comemos na cozinha, conversamos na varanda, terminamos no sofá resolvendo burocracias tecnológicas e eu dizendo que o mínimo que eu podia era cuidar dele.
“O mínimo não.” Ele disse, já se levantando, “na verdade, o ideal é que os filhos façam a ruptura total com os pais uma vez crescidos, assim como os animais. Os bichos matam e morrem por um filhote, mas depois que eles se viram sozinhos, eles se despedem de vez. O que nos separou dos animais foi a razão, e com ela veio a regressão. Só o humano protege os filhos a ponto de não os preparar para o mundo.” E com um abraço forte ele se foi.
Monday, June 29, 2020
Chamado
A chuva cai mais lenta, o tempo para, a poeira suspende e o ar se ralenta em seu dissipar, até mesmo o vento abranda seu furor e se esvaece em brisa. Se os pássaros ouvissem sua voz, cantariam em cadência um assovio baixo para não interferir com a integridade de seu som. Se tudo fosse som, seria rio que corre lento à contragosto do tempo e ainda assim no fluxo raro do sobrenatural, córrego que escapole da norma e entorna fantasia em seus tantos jardins do Éden. E se o Éden for isso, tão mais simples do que o surreal, e se o Éden for essa magia que nos toca nos momentos do transe mais íntimo, onde tudo se alinha, entra em simbiose, partículas quânticas de uma mesma célula gigante e transmutável se abraçam e a roda gira mais forte? E se o Éden não for mais do que a sua boca encostar lentamente na minha, sem pressa nem hora para desvendar os tantos segredos do baú antigo de tesouros esquecidos ou escondidos por tempo demais? E se tudo convergir nisso, em dois dedos que se tocam, duas mãos que ao sentir a textura quente do tato trocado, descobrem montanhas e desfiladeiros nunca tão bem desvendados no mistério dos corpos que carregam tais mãos. E se em meio aos seus braços, à deriva em seu abraço, você ali gigante de tão pequeno império, eu descubra junto contigo que nada mais faz tanto sentido se não a combustão? E se? Escrevi isso agora e um vento tufão cruzou cortina sala à dentro, suas correntes dançando com o voal branco, bailarina do sopro, e eu lembrando que você diz que os sinais vem de tudo que é canto. Agora o vento parou e os pássaros voltaram a cantar esperando seu coro. Eu canto junto aqui em silêncio canções antigas para história nova. Faço adaptações das tantas poesias para caber na nossa. Você não viu os tantos verdes das árvores daqui da praça hoje. Fui para cama com seu rosto no travesseiro dentro da tela do celular e acho que sonhei nuvem contigo. Agora sem barba, vejo mais ainda o que já via antes e acho bonito para caramba. E não sei se vejo pouco ou vejo até demais para quem pouco sabe e tão bonito sente. Então te conto um segredo, ouvi você me chamando. Ouvi ali em pé na sala branca da cobertura do amigo a toada interna dos grandes encontros ao olhar para a águia que voava da sua mão. Adentrei seu caderno e não saí a mesma. E o tempo passou sem eu entender direito o chamado mudo que volta e meia ecoava seu nome no meu escuro, uma presença em energia que tomava meu espaço físico e te reverberava. De onde vem isso, gente? Me perguntei um bando e achei que não valia querer responder, era do condado das coisas que vão além de serem entendidas. E assim, volta e meia você vinha no meu silêncio e dizia, “me procura.” Eu acatei. Confesso que não tinha entendido muito esse impulso magnético até esse domingo, quando depois de tanto, você se foi. Dormi confusa e acordei mexida. Senti minhas células sendo tomadas em onda por essa força do que faz sentido, como se eu soubesse, antes mesmo de entender, que precisava fazer com que a gente se encontrasse. E tudo pode ser tudo e também qualquer outra coisa se não o que achamos, tudo já é alguma coisa porque até aqui já foi muito e só transbordou o bom. Então ficam os “e se”, as dúvidas sobre o Éden e algumas tantas cositas más. Seguimos desvendando sem pressa nem plano os infindáveis enigmas do encontro.
Friday, June 26, 2020
Mar Céu Elo
Se os pés fossem vistos primeiro, andariam descalços em passos suaves sobre nuvens tão azuis e brancas quanto o ritmo lento em que as cores de suas paredes se movem. Em sua terra tudo é cru, tudo é signo, tudo é sopro de estrela. Basta adentrar o portal para o vasto escuro de seus olhos que se enxerga lá no fundo a travessia interna de suas pontes e tantas pequenas mortes. Adentro tudo é arte e fato, os pensamentos se entrelaçam em psicodelia intrincada e geometria mirabolante, morfando lagarta em borboleta e borboleta de volta ao casulo esculpido em tronco. Anda escondido na barba, não decifrei seu rosto, assisti os detalhes de seus traços tentando juntar os pedaços e completar seu inteiro. Mas sua cara se transforma com suas eras, hora menino, hora homem, hora preto velho. Fala de lá do cerne do peito até o ouvido mais próximo com a intensidade de quem sente o que diz e a sensibilidade de quem se dispõe a estar completamente presente. A calma grave de sua voz lenta disfarça a força do viril velado que não se expõe até requerido.
No entorno, cem mil tons de madeira cortada, cada ângulo revelando a estrofe de uma poesia da floresta. Ele se aquieta consigo talhando por horas à fio pedaços da selva dentre os calos de suas mãos, esculpe sem pressa novos traços no antigo, transvendo no descartável o garimpo do mutável enquanto conversa em silêncio com a magia xamânica dos espíritos da terra e do céu. Por todo canto pequenas cabeças de cerâmica e suas mil personalidades observam o espaço preenchido de delírios, viagens e mirações. Ele senta de cócoras sobre a cadeira de rodinhas e mergulha no lúdico esticando o tempo das intenções, cada expressão se arrastando lenta em seu rosto, ecoando em suas quinas até se esvaziar de si e partir para o próximo conceito. Ele deita na rede e imerge em mares e desertos tomado pelo sussurro em rito de mulher entidade o incitando a confiar no caminho e assim ele segue adiante.
Marcelo tem mar e elo com céu no meio e isso já diz quase tudo. Marcelo quer dizer também pequeno guerreiro e basta olhar com atenção suas mãos grandes de homem da terra para entender que a luta ali é interna e sua arte ponta de lança da espada mais afiada na sua batalha com o dragão. E pequeno porque se permite também não ser só grande, se embaraça em seu labirinto de entornamentos gerando criação sem intenção maior se não a de se transbordar. Em sua cabeça, galáxias astrais e universos espirituais se somam e complementam em uma maneira de ser e estar onde tudo se embaralha em sinais celestiais e transbordamentos artísticos. Deuses e diabos se misturam em um imaginário fantástico de quem já foi pássaro. Ele voa espaços siderais, mergulha de cabeça até o núcleo da raiz da terra e volta transmutado. Ele plana. Eu olho e vejo gaivota.
Wednesday, May 20, 2020
UM DIA DE QUARENTENA
Desperto com os sonhos ainda sobrevoando meu escuro, um bando de fantasma de uma história tão real quanto meu subconsciente, agora já não lembro mais. Tenho pensado em parar de fumar só para lembrar mais dos sonhos. Fico ali de olhos fechados no quarto resfriado esperando eles dissiparem de vez para checar que horas são – costuma ser nove e quarenta e pouco quando acordo, mas varia. Volta e meia bate uma insônia tomada por algum livro, filme, série que reconecta o cérebro ao mundo externo ao meu peito, só para mergulhar mais fundo ainda para dentro depois do que vejo lá fora. Abro as cortinas do quarto, a porta corrida de madeira, a porta para o corredor que dá para sala e começo os rituais. Limpo a língua delicadamente como meu acupunturista ensinou, adentro a casa, parto para o primeiro desjejum, não sem antes baixar o véu da janela da cozinha, a claridade mesmo nos dias sem sol cega os olhos recém despertos. Ralo o gengibre resignada, chata para cacete essa atividade especialmente porque eu ralo, ralo e ele mal faz monte, depois a raiz de cúrcuma, espremo o limão, junto o própolis e o copaíba, que aliás meu pai hoje me repreendeu “não pode passar de três gotas,” e eu já tomando colher de sopa na minha voracidade de alguma reencarnação de um glutão que devo ter sido. Junto a pimenta, o mel, bato com o mesmo mixerzin que já já vou usar para misturar óleo de coco no café, fico bullet proof o resto do dia. Enquanto digiro o laranja do shot nefasto pré-café, vou molhando as plantas. Mas antes de tudo vem a música, esqueci de contar, desperto e aperto o play porque sei das good vibes que me abatem através do som. Saio pela casa molhando as meninas em passos de dança, cada uma com suas manias, uma gosta de muita água, outra pouca, outra prefere que borrife, uma que vive me dando problema já tá com pulgão de novo e eu esperando o remédio há três semana preso no correio. Juntos as frutas da estação com cacau nibs, chia, linhaça, catuaba, maca, e faço do liquidificador carnaval a base de leite de amêndoas. Daí aperto meu primeiro beck e me jogo na internet, memes, amigas, vídeo calls, notícias, conecto com o mundo enquanto meu corpo assimila o choque do beck com shot com café – no início era confuso, mas ele já se acostumou. Quando me exauro de mundo, volto para mim e começo a ler, no início ia direto para escrita, mas nessas últimas semanas acertei na escolha dos autores e eles vem me engolindo. Leio umas duas horinhas, minha cabeça acelerada em um trilhão de sinapses literárias e novos pensamentos, já me lançando na cadeira de rodinha, música tocando, café quente, mais um beck quiçá, e o dia vai trocando de cor pela porta de vidro para varanda enquanto eu transbordo palavras. Enfim paro quando me exauro de mim. As palavras retesas em represa, mais dez, vinte, trinta páginas prontas na cabeça, mas o psicológico desnutrido de forças para assimilar mais um sentimento que seja. Escrevendo me viro do avesso e volto outra. Me dispo de todo e qualquer pudor, minha carne crua exposta no monitor. A noite já chegou, as luzes amarelas acesas uma a uma. Gosto do apartamento iluminado, todo luz. O azul metálico da televisão substitui as cores do som e me entrego à rede onde termino meu expediente dentre filmes e séries. A noite caiu. Um dia de cada vez.
Tuesday, November 26, 2019
Cegueira
Despertei com o sol e abri meu peito bem aberto pro dia que não volta mais, pulei da cama com sede de mundo e saí de bicicleta e headphone por rota que as pernas definem na medida que movem. Não demorou me deparei com o marrom da lagoa poluída, com o lixo transbordante das encostas do vidigal, com o esgoto vazando praia de São Conrado a dentro, com o triste desabamento da linda murada vermelha do antigo VIPs, vi isso tudo, vi bem, mas vi também o céu se abrindo em todo seu azul e beijando aos poucos a superfície do mar, e o mar brincando entre os verdes hora escuro hora claro enquanto as cristas de ondas gigantes formavam flocos de neve ao vento, vi o casal não dormido ainda rolando pela areia às gargalhadas, vi as senhoras da zumba rebolando sincronizadas no deck velho do kioske, vi atletas determinados e outros mais para lesados mas todos ali vestindo o uniforme dos seus baratos, vi a coreografia dos patos migratórios, ouvi a música dos pássaros da mata tão verde que até chuva caiu só ali beirando a encosta. E se o pior cego é aquele que não quer ver, eu quero ver, eu vejo até em demasiado tudo tanto, mas escolho absorver o que tem de mais belo nas coisas mais lindas do mundo, porque frente à uma realidade tão trágica quiçá só um peito feliz pode mudar o mundo
Tuesday, November 05, 2019
JB
Eu e minhas duas bolsas cheias de laranja lima e maracujá saímos do mercadinho do bairro já disfarçando a curiosidade narrativa de entender cada homem do grupo de coroas que tende a morar no banquinho de madeira no entorno da árvore da esquina - eles bebem, eles fumam, eles jogam damas e não sei mais o que, e de vez em quando eles parecem rir, sempre tenho a sensação de que eles acordam e vão para lá. A perna vai me levando para casa e ao fazer a curva em direção à praça sou atropelada pelo cheiro avassalador do mijo dos mil e um cachorros que moram no bairro, prendo brevemente a respiração e sigo atravessando a coroa de árvores com seus túneis de folhas verdes enquanto ouço a flauta vinda de um apartamento de fundos do prédio azul de dois andares, cheiro de maconha ruim. Uma barata perdida passa escorada na parede e eu me faço invisível por dois segundos até ter que pular um cocô esquecido por algum dono delinquente dos tais mil e um cachorros da vizinhança. Mais vinte passos e ouço o “ohm” em uníssono da aula de yoga na casa branca. Um casal ri alto e brinda de algum apartamento do outro lado da rua, a calçada estreita me faz ter que desviar de um pai e seu carrinho de bebê. Mais dez passos e jazz, muito jazz se esparrama de uma janela baixa logo se misturando a uma aparente mini-rave no segundo andar do prédio laranja, cheiro de maconha boa. Um homem sai todo emperequetado em seus trajes de corrida em direção à Lagoa, ele canta alto fragmentos de uma música que não deu tempo de entender. Um vizinho faz lições de piano e os gritinhos da criançada na praça entra em melodia com a música. Pareço ouvir um casal transando, quiça um trio até, tento ouvir melhor mas não, devo estar viajando. Já passa das 19hrs e tenho que subir a escadaria pois a neurose burguesa bloqueia com cadeado a entrada da praça para o meu prédio durante a noite, meus vizinhos tem medo dos próprios medos. Cinco adolescentes fumam maconha às gargalhadas na parte baixa da escada. Vou subindo e passo por um casal fumando maconha aos beijos no lance médio da escadaria, ô bairro para ter maconheiro... subo e subo mais e um vestido esvoaçante dançando pelas pernas de uma mulher que desce sem pressa invade o quadro da minha visão. Chego no meu portão, abro o vitral e volto para minha bolhinha. 50 metros de Jardim Botânico.
Sunday, October 13, 2019
Búzios
Ao fundo jazz, solo de sax, o vento passeia dentre o verde da era esparramada muro abaixo, cheiro de colorjet, quando em vez ouço o chacoalho da lata do Smael pintando suas telas na sala, duas, três de uma vez, a rede move lentamente e o peixinho de pano mostra os caminhos do vento num sobe e desce com o ar, um tudo de azul e amarelo paira por todos os cantos do olhar e ainda assim a grama cheira forte um verde mais claro que o da era do muro cinza. A casa dança no balanço das árvores e lá no fundo ainda tem o mar, as ondas, barulho constante de água contra areia. As crianças levantaram a bola ali do lado, vez em quando vejo ela cortando o céu em seu laranja-choque, ouço o bater dela em coxas, peitos, cabeças. O dia passa lento, é domingo com gosto de dezembro, janeiro, férias de verão.
Saturday, September 14, 2019
Felicidade
Comer bem
Fazer exercício prazeroso - surf, pedalada, yoga, altinha, corrida, acroyoga
Ver bons filmes
Me sentir demandada, reconhecida e realizada no trabalho
Conversas profundas
Beijo na boca/amor/transa
Carinho
Abraço apertado e inteiro mas só em certas pessoas pq nem toda energia é bem-vinda
Sorrir para pessoas que compartilham qualquer coisa comigo, do caixa a algum fodão-blábláblá
Ficar em silêncio na minha
Cuidar de mim
Banho longo, quente e cheiroso
Dormir bem
Andar de mãos dadas
Encontrar meus amigos
Dar gargalhada
Dançar
Cantar
Brincar
Vestir uma roupa que eu me sinta super hiper eu (estranhamente deveria acontecer todo dia o tempo todo mas aquela roupa que te põe lá encima não é tão frívolo
Cuidar das plantas
Mergulhar no dia com carinho pq ele não volta nunca mais
Sentir a natureza, a temperatura do dia, as cores do céu, as correntes de vento no corpo ao ar livre, a velocidade das nuvens movendo
Ver para onde move o céu
Lua cheia
Dia azul
Mar quente
Encontrar meu pai
Encontrar Bruno, Eva e Bia
Encontrar minha mãe
Bom humor
Wednesday, June 12, 2019
Pouco Muito
Quero crescer para caber melhor nas coisas grandes, quero ser grande, quero ser tudo que posso e mais um pouco sem pouco. Não quero tanto tudo, só quero muito tudo que posso com tudo que tenho. Quero ter o meu tamanho todo, inteiro, pleno, sem desperdício do eu, de mim, de tantos tantos que tenho nesse toco de gente que eu caibo dentro. Mas cabe tanto aqui dentro que fico achando que o que mais vale é justamente ser um tanto de cada tanto de mim que tenho. Não quero ser mais que do outro, o que esperam de mim nem nada disso, só quero ser tudo que posso, além do que já sou, porque nessa coisa de crescer por dentro, sinto que cabe sempre mais um pouco.
Friday, September 28, 2018
Mundial
Esse ano não competi, perdeu a graça, valeu muito mais entrar no mar com um bando de amigos, sem objetivo maior do que me divertir. Quando comecei a pegar onda de peito entrei numa de descobrir meus limites, precisava me jogar no mar mais selvagem, conquistar ressaca e vencer onda grande, aprender manobras, dropar os buracos mais cavernosos, cair em todas as lajes cariocas, dominar picos difíceis e desafiar meus próprios limites, e lá fui eu. Até que descobri a batalha que me vale, “basta a quem basta o que lhe basta...”, já dizia F. Pessoa, e pronto, deu. O destino me ajudou nessa virada da psicopatia para maturidade - por sorte tive que parar por quatro meses, à contragosto, e voltei cautelosa: bateu foi medo de osso quebrado e articulação torcida, deu receio com laje de pedra, coral e areia rasa demais, baixou uma cautela danada de enfrentar o desnecessário quando a recompensa nem compensa e passei a medir melhor o risco. Fui tomada pelo potencial da sequela, e quiçá ouso dizer sem demérito dos corajosos, ganhei a maldita maturidade da consequência e, te digo upfront, não tem volta - agora penso à frente em demasiado. Amo o mar, quero cair, me jogar, sonho com ressaca e gosto de mar que assusta, mas lá no fundo no fundo, no secreto do meu íntimo cada dia mais exposto, eu quero mesmo é onda amigável daquelas que abrem e mostram o trilho, prefiro curtir a rota longa do que fazer manobra na pressão, prefiro chegar até areia na intermediária do que fazer um drop radical no quebra-coco, prefiro me divertir do que impressionar. E de repente foi isso, não sei se com mais ou menos orgulho, acho que alcancei maturidade aquática e virei adulta – até um certo e mínimo ponto, fora d’água continuo a mesma criança curiosa.
Thursday, September 13, 2018
É Sempre Bom Lembrar...
Quatro gaivotas planaram rente à espuma do mar mexido, ele olhou para o vasto e sentiu a imensidão. Andava engasgado, juntando os cacos, transbordando aos poucos bocejo travado que não deixava o nó no peito desapertar - mas tá melhorando, dizia ele, falta cada vez menos para dissipar. Talvez em pouco tempo bastasse um soluço para destravar de vez, sacudir a poeira e pegar no tranco. Talvez não. Sonhava com cautela passo largo de perna que acostumara a ser preguiçosa. Mas era mais, era forte, elástico, força bruta em corpo compacto e flexível, explosão e tormento, ternura e suavidade. E a mente inquieta pairava em mil poesias dos tantos detalhes de flores, folhas, rachaduras em rochas e todo o azul que o mar resplandece. Tinha dor de homem menino e encantamento de menino homem. Era de sal, de terra, sólido, raiz de tronco largo de seiva doce, pérola em concha, ouro raro em rio escuro, era um bando de coisa linda mas se disfarçava de areia fina e achava que passava transparência. Vinha cavando esse buraco em movediça fazia tempo, mas volta e meia vinha a maré cheia, enchia o copo de mar e o vazio ficava pleno pelo breve vagar daquele instante, e ele afinal entendia que era completo. Nesses dias via no espelho embaçado do banheiro o brilho lá no fundo do olho e lembrava de tudo, de quem era, do que queria, da força que tinha. Era grande.
Thursday, September 06, 2018
Botafogo
Chovia fino em Botafogo no fim da consulta, eu não tinha pressa mas quis me molhar. Passantes se protegiam debaixo de marquises, jornais, echarpes e capuzes. Acima das cabeças andantes eu assistia uma dança de cores em formato de guarda-chuvas, redomas de mundo como um fone de ouvido que te separa do todo e forma bolha. Não queria bolha, sorria baixinho pensando no meu pai andando comigo de mão dada pelo Leblon debaixo de chuva sempre bradando “eu lá sou de açúcar.” Caminhava assistida pelos olhos secos de quem se protege. A chuva mal molhava, não era pingo grosso, mas a constância assustava quem não deixava que a gota contasse a secura que tinha. E passo a passo eu olhava os rostos que se deixavam ver, me encaminhava pro metrô pensando nos mundos dentro de cada um, cada sonho, cada anseio, cada escuridão que mora ali dentro e seguia meu caminho. E nas quintas-feiras vou para Botafogo de metrô sem telefone, headphone nem guarda-chuva, animada com essa crônica constante que é reparar em humanos em seu habitat. Você já olhou à fundo para quem cruza seu caminho?