Afinal o luto.
Assisti Na Estrada e a solidão do descobrir, do se jogar, reacendeu tantas velas
apagadas pelo vento da novidade, desse Rio oceânico, desse mar que não canso de
nadar. Afinal assumo a falta de tudo que havia esquecido, daquela Los Angeles
de sonho e solidão, dos amigos-família que construí e escolhi tão seletamente, falta da grandiosidade Hollywoodiana e suas estruturas dinâmicas e
perfeitamente funcionais de trabalho, falta dos omeletes do Le Pain, das Ales
da Alehouse, dos vinhos do The Other Room, dos jantares caseiros geniais,
sofisticados sem frufru e festas dançantes em casas incríveis de nem sempre conhecidos.
Hoje senti falta do que foi tão difícil construir por lá e tão abruptamente
abandonado, até hoje não tinha me tocado, tocado a tal ficha que persistia em
não cair. Aqui distraída nesse Rio de sexo, suor e champanhe, cidade
maravilhosa que eu não canso de me apaixonar a cada despertar da manhã, cada
pedalada sem compromisso, a cada grão de areia que meu pé pisa, corre, afunda e
se entrega a essa tal simplicidade carioca de saber aproveitar. Não me canso de
olhar para tudo e cada coisa, cada qual, cada quem, de reaprender a andar nesse
rebolado malandroso, arteiro e prazeroso.
Senti falta daqui, e
como senti, mas hoje sei que sou sim da tal “third culture kids”, filhos de
múltiplas culturas que nunca param de pertencer a uma e sentir saudades da
outra, nesse sobreposto de identidades opostas e ainda assim congruentes. Hoje
sou mais carioca e ainda americana, ainda com a mão suada num desejo imenso de
me des-cobrir e aprender. Me jogo nesse novo ainda um pouco chocada pela
velocidade dos movimentos, desse presente que me assolou quase sem prenúncio, mas jamais beirando medo do que está por vir.
Hoje acordei assustada
e gratificada pela minha coragem de viver e não ter a vergonha de ser feliz. E
mesmo na melancolia, como sou feliz...